“Remote Lisboa”, de Stefan Kaegi

“Remote Lisboa”, de Stefan Kaegi

Através de auscultadores, os participantes recebem instruções e escutam uma nova banda sonora para as ruas, os parques de estacionamento ou as igrejas. O espectador torna-se num actor de um filme com outros 49 actores no elenco.

Já estivera em Portugal por diversas vezes, duas delas no Festival Alkantara (“Chácara Paraíso” com Lola Arias,e, depois com “Rádio Muezzin”). Esse mesmo Alkantara que nos tem trazido tantos exemplos do que são estes novos exercícios performáticos, onde se cria um dispositivo dramatúrgico fora do conceptual, sem palco e sem actores reais, onde apenas existes tu, os que te rodeiam, e, a voz, ou vozes, que te coordenam longe de maniqueísmos. São no seu todo espectáculos emergentes, que em grande parte falam de um estado de excepção, da procura e da criacção de uma nova emergência desconhecida e que nos elucidam para o mundo em que vivemos, provocando-nos, agitando o comodismo dos medos e das ansiedades. Nesta linha, recordo, por exemplo, “The Quiet Volume” e “Linha do Horizonte”, do João Galante e Ana Borralho.

Num Cemitério

Como é que se encontra conforto sentado ao lado de uma campa, como se estivesses de mão dada com outra pessoa? Como se questiona e te posicionas no presente através de pessoas que não mais existem? Pessoas com histórias ficcionadas,ou mesmo, robotizadas?

“Remote Lisboa” começa num cemitério (dos Olivais), que vais explorando até que dos auscultadores começam a sair indicações e bandas sonoras. É neles e através deles que mecanizadas o teu corpo e a tua mente balançado entre o que é real e o que é virtual.

A guia desabafa e diz não ter um corpo enquanto nos revela o seu mecanismo, dizendo-nos que é apenas uma voz feita através de sílabas retiradas de outras palavras que formam excertos sonoros que por sua vez compõem outras palavras, formando um extenso dicionário sonoro que lhe permite comunicar com o público. Mas e o corpo dessa campa? Esse corpo que já não tem voz? A guia apudera-se desse ser desconhecido, mas já familiar, para ser a voz de um corpo morto que nos acompanha pelos sitíos mais inesperados, e também, os mais recondidos da cidade.

Como o próprio nome indica “Remote”, é um percurso remoto para o incerto onde somos acompanhados por uma voz artificial que nos guia por uma terra (não) fértil de um sem número de corpos tão vazios como desprotegidos? Uma voz mais feminina que nos fala do capitalismo, da morte, do poder, da abrangência, do “eu” individual, do que é um conjunto de seres individuais, e o que são esses indivíduos quando transformados num conjunto que passa a ser uniforme, ou quando, um sai fora da linha? Como a própria “voz-guia” afirma: “uma gota de água deixa de ser uma gota quando caí no oceano”, ou então, quando num stand de lavagem automática de carros no parque de estacionamento de um centro comercial da cidade enfoca: “Presta atenção! Vês aquela poça de água junto à entrada da garagem onde se lavam os carros? Olha para ela! Consegues separá-la por gotas? Não!!! Não consegues!”.

São essas indicações que acabam por te levar num roteiro para o desconhecido, tornando-as num espelho invertido que nos instrui para um mundo submerso e oculto que até poderíamos julgar conhecer, mas que afinal, é turvo e propositadamente manipulado, de minuto para minuto, criando novos cenários e atraiçoando tanto o conforto de quem ouve como o de quem vê.

Um mecanismo vocal que acaba por se apoderar de uma alma que tu próprio escolheste entre as secções 5 e 6 do Cemitério dos Olivais, em Lisboa. E a campa? Escolheste-a pelas cores das flores depositadas, maioritariamente, em jarras de vidro? Porque te deixaste conquistar pela fotografia afectiva agarrada aos blocos de pedra? Pelo cabelo ondulado de quem já foi um de nós? Ou foi pela poética dos textos de eterna saudade que as famílias escrevem nas campas? Talvez pelo sentimento de abandono? Pelo podre? Pelo desabrigo?

Mas, tudo isto, é o equilibrio entre o que é a visão a querer mostrar-nos, o que nos é dito de forma manipulada pela voz, e o que é o mundo real amplificado naquilo que o torna duvidoso. Tornando-o meio amputado e meio livre, para que sempre que queiramos desviar-nos para o presente sejamos, novamente, empurrados para o futuro.

Como em grande parte destas performances sonoras, muitas vezes, o interesse surge também na própria acústica do som emitido e dos sons naturais que o rodeiam e que se vão misturando:o trânsito e os passos; as buzinas e a água, as sirenes e os pássaros, o vento e os gritos. Enfim, até o silêncio profundo está presente no corpo invisel da pessoa com quem dialogáras antes de “saíres” para a cidade.

Estarão os teus colegas a ouvirem o mesmo que tu? Se sim, o que significa isso? Será sempre com o ínicio que aprenderemos o fim, e vice-versa. Até porque depois da morte, novamente, a vida!

No fim, o fumo em forma de nevoeiro artifical, a paisagem e o horizonte, o passado e o futuro, os carros e qual a marca que define a tua personalidade, o bloco operatório, a lavagem automática, o cemitério e as cinzas que ainda tanto têm para nos ensinar. Mas, acima de tudo, o grupo de pessoas que te acompanha nesta viagem. O que ouviram foi o mesmo que tu ouviste? Quem são eles? O que pensam quando os olhas nos olhos a mando da tua guia? Existe algo neste movimento que deve ser explorado, hoje e sempre, para bem de todos os oceanos que, inevitavelmente, são compostos por gotas de chuva.

 

 

“Remote x” é um espectáculo co-produzido pelo programa House on Fire da Comissão Europeia e com produção do colectivo com o colectivo Rimini Protokoll fundado por: Helgard Haug, Stefan Kaegi e Daniel Wetzel. Depois de Lisboa, segue-se:Hannover; a seguir virá o Festival d’ Avignon e, depois, Zurique.

 

 



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