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Rescaldo IndieLisboa 2010: Fora de Competição

Não é só de competição que vive o maior festival de cinema de Lisboa, as secções Observatório, Cinema Emergente e Herói Independente mostraram filmes de qualidade e retrospectivas essenciais. Eis o rescaldo das secções paralelas.

A Competição Oficial do Indie tem, por si só, um chamariz evidente: filmes que concorrem, lado a lado, pelo galardão máximo, portanto, óbvias selecções essenciais. Mas as secções paralelas que complementam e dão outra perspectiva ao cinema independente que se faz (e que se fez), são, por si só, outro festival.

Observatório

À partida, as duas longas de Werner Herzog que encabeçam esta secção, “Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans” e “My Son, My Son, What Have Ye Done”, valeriam, por si só, todos os trunfos do Observatório, mas esta secção contou com outros filmes de importante relevo.

“Vengeance”, de Johnny To é Neo-Noir poético, Blade Runner sem andróides e sem o existencialismo contemporâneo da sociedade ocidental. Um potente thriller protagonizado por Johnny Halliday: ele próprio um herói independente à sua maneira. O Francês interpreta o papel de um chef que voa para Hong Kong a fim de vingar a morte da irmã, do genro e dos netos. Só e sem conhecer nada da cidade labiríntica, procura ajuda a quem sabe: um trio de assassinos profissionais. O que poderia ser um filme cliché de vingança é transformado por To numa valente lição de bom cinema, onde as sequências de acção são coreografadas num slow motion que é mais Rembrant que John Woo. A simplicidade das personagens, humanas, e uma fotografia que coloca Hong Kong como uma personagem omnipresente.

O épico de guerra “City of Life and Death” de Lu Chuan é cirúrgico na sua representação da batalha de Nanquim, um episódio de guerra da conquista do território Chinês pelas tropas Japonesas. O massacre que dizimou a cidade, então capital da República Popular da China após a evacuação de Shangai, é um dos mais sangrentos deste século, a par das atrocidades cometidas pelo regime nazi (curiosamente, é um membro do partido nazi, John Rabe, que ajuda os refugiados da cidade, criando uma zona de segurança). Durante dias os soldados Japoneses torturaram, assassinaram e violaram centenas de milhares de Chineses, e esta violência e demência próprias da guerra são filmadas num preto e branco sem excesso de sentimentalismo, tomando como referência “A Lista de Schindler” do americano Steven Spielberg. Ao contrario da gula pelo dramatismo exacerbado e conservador de Spielberg, Lu Chuan é um mestre na construção das cenas épicas que são de verdadeiro mestre, enquadradas na fotografia exemplar que conjuga a escala de cinzentos com o fumo omnipresente da batalha. Uma valente lição para o senhor Spielberg e um filme obrigatório.

“Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans” é a demência em estado bruto, esta espécie de paródia aos policiais conta com um Nicholas Cage exímio, perfeito no seu papel de polícia corrupto viciadíssimo na droga e no trabalho. A investigação do assassínio de uma família Senegalesa é pretexto para este polícia se entregar a uma espiral de confusões que são pontuadas por acessos alucinogénos protagonizados por crocodilos e iguanas. A narrativa prima pelo excesso de twists que são picos de atenção e funcionam como tapa-buracos de um argumento propositadamente solto, mas que no conjunto resulta num exercício eficaz. O mestre Herzog sabe construir as estórias e filma-as na sua habitual fluidez de planos que são todos, sem excepção, roubados por Cage. Uma combinação entre um argumento demente, um actor insano e um realizador que não tem vergonha nenhuma em gozar connosco.

Cinema Emergente

Para além da retrospectiva do prolífico Ben Rivers, esta secção contou com estreias importantes, nomeadamente “J’ai Tué Ma Mere” do jovem Xavier Dolan, “Humpday” de Lynn Shelton e “Pelas Sombras”, um documentário de Catarina Mourão que venceu o prémio SIGNIS e o Prémio do Público Johnny Walker.

Foi também oportunidade de assistir à ante estreia de um dos filmes mais inquietantes dos últimos tempos, “Lebanon” do israelita Samuel Maoz. Um poderoso exercício que conta as primeiras horas da primeira Guerra do Líbano pelo olhar de quatro soldados dentro de um tanque de Guerra. A loucura e as marcas de uma guerra que marcou a geração de Maoz, que utiliza a sua estória pessoal para exorcizar os seus demónios e ao mesmo tempo realizar um exercício de estilo dos mais pertinentes dos últimos anos. A acção é passada dentro do tanque e o único contacto com o exterior é feito através da mira do monstro de combate, que é também o olhar do protagonista. Esta tensão claustrofóbica vai concerteza marcar o futuro do cinema de forma avassaladora. A estreia está marcada para breve nas salas Portuguesas.

Herói Independente

O foco desta secção do Indie vai para dois polos: uma retrospectiva de Heddy Honningman, cineasta quase desconhecida do público Português, e uma selecção de filmes que passaram pela secção Fórum do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Esta secção do importante festival nasceu no final dos anos sessenta em manifestação contra o conservadorismo da competição principal, após os confrontos do Maio de 68 que contribuíram também para a criação da Quinzena dos Realizadores em Cannes. Esta secção do Festival de Berlim completou 40 anos e era altura para uma selecção de filmes feita pelos protagonistas do Fórum.

Oportunidade para ver pérolas do cinema independente e experimental como a trilogia semi-biográfica de Ben Rivers, o críptico “So Is This” de Michael Snow, entre outras pérolas.

“Sauve Qui Peut (la Vie)” (1979) de Jean Luc Godard é um exercício de desconstrução e ridicularização das relações amorosas que é floreado com apontamentos literários utilizando as questões base da filmografia de Godard, o papel do cinema na perspectiva do realizador mais prolífico da Nouvelle Vague. Longe de ser só um exercício onanista de contemplação, “Sauve Qui Peut” é um pesadelo anti-narrativa que utiliza pistas e lugares comuns para conseguir iludir o espectador à boa maneira de Godard. Clássico.

“George Washington” (2000), a estreia de David Gordon Green na realização é uma estória de amizade e de super heróis, um belo filme que sumariza tudo o que há de interessante na cena Independente norte-americana: a realização contemplativa e a fotografia apurada, a narrativa simples de pessoas simples, a melancolia trágica e as relações numa cidade da América profunda. “Beau Travail” de Claire Denis é o expoente da realizadora Francesa, uma complexa fábula passada num acampamento da Legião Francesa no golfo do Dijbouti onde a camaradagem é o pretexto para quebrar hierarquias e cimentar relações entre os jovens rapazes nesta fantasia sensual que tira partido do movimento dos corpos, um pouco como a exaltação nacionalista de Riefenstahl, para criar uma fabulosa pintura em movimento.

“The All Around Reduced Personality – Outtakes” (1978) é um exercício pseudo-documental da realizadora Helke Sander que interpreta o papel de uma fotógrafa freelancer que, em conjunto com outras fotografas do bloco oeste da cidade de Berlim, tentam vender uma exposição comissionada sobre o muro e as pessoas de Berlim. Propositadamente cómica e incisiva, Helke narra as aventuras de ser uma mulher livre e mãe numa cidade dividida política e fisicamente, um documento essencial para compreender o clima que se vivia em Berlim na década de 70. Embora esta realidade seja alheia ao público Português, não deixa de ser uma ficção perfeitamente enquadrada nos dias de hoje: afastando-se do feminismo político que caracteriza a época, Helke Sonder faz-nos pensar sobre o papel da mulher moderna e independente numa sociedade sempre controlada pelo poder masculino, e isto é tão pertinente agora como há 40 anos atrás.

A cada ano que passa, o Indie Lisboa marca a sua posição como o verdadeiro festival de cinema, com uma programação exemplar e para todos os gostos. É um verdadeiro trabalho em prol de um público sedento de mais cinema, contra o amadorismo das grandes salas e distribuidoras que preocupam-se mais em vender pipocas e refrigerantes que em mostrar bons filmes. São estes festivais que educam o público e deixam-no sedento de bons filmes, boas estórias, realizadores incontornáveis e novas formas de ver o Cinema. Contra as críticas pertinentes sobre a verdadeira população que assiste à programação do Indie, uma pouca elite que julga intelectualizar-se ao ver cinema fora dos circuitos normais, resta dizer que esta edição do festival teve uma afluência de público de todas as idades, credos, religiosidades e cortes de cabelo. Lisboa é a capital dos festivais de cinema, sem dúvida, e é cada vez mais urgente não só festivais grandes como o Indie, mas também outros festivais mais pequenos, temáticos, que nos ensinam a ver filmes. Esse serviço público é muito importante contra a democratização da experiência de ver um filme, com ou sem pipocas, e reactiva muitas salas de cinema que estão às moscas, literalmente, pela capital fora. Aguardamos ansiosamente o próximo ano.



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