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Resound Fest @ Restart

Selecção de esperanças.

No dia quatro deste mês, quatro oportunidades de brilhar foram dadas a bandas (ainda) desconhecidas do público português. O aproximar do Verão aquecia a noite e, no auditório da Escola de Criatividade e Novas Tecnologias – Restart, também o ambiente se tornava quente com o público a reagir com entusiasmo às actuações dos Kaja Bucalho, Last Milestone, Guta Naki e Samuik.

Este concurso de bandas, também conhecido como Resound Fest tem vindo a revelar novos talentos, hoje com um nome já firmado como Os Pontos Negros ou os Lobster, ambos vencedores de edições anteriores. Com a ajuda do júri, composto por Ana Isabel Arroja (Animadora Rádio Comercial), Davide Pinheiro (Jornalista DN e Disco Digital), João Tovar (Director Geral Restart), Diogo Dias (VJ MTV e membro da banda Klepht) e Luis Costa (Director de A&R Sony Music), foram escolhidas as possíveis próximas estrelas a verem a sua música rodar na antena nacional.

A quarta edição do concurso, organizada pela turma de Produção e Marketing Musical, contou com a participação de cerca de trinta bandas, interessadas em ganhar o primeiro prémio (a gravação de um videoclip ou de um EP nos estúdios da Restart) mas também apostadas em divulgar a sua música e alargar a sua base de fãs. À hora marcada, sentia-se o rebuliço característico nestes eventos, especialmente da parte da organização, que aproveita para pôr em prática os conhecimentos dos alunos que fazem a Restart. Testavam-se câmaras e microfones, afinavam-se as rotinas da realização, tudo com bastante profissionalismo, especialmente se tivermos em conta a idade dos participantes. Antes ainda do início das hostilidades, havia tempo para uma cerveja ou um chá entre os vários representantes das também várias tribos urbanas que se dividiam entre o espaço de cafetaria e a mesa de matraquilhos. Poucos minutos depois da hora marcada, a primeira banda subiu ao palco.

Os Kaja Bucalho causaram desde logo sensação quando se deslocaram entre os bastidores e o palco. Trajados a rigor, os membros despertaram a curiosidade do público em relação ao estilo de música que iria ouvir. E essa curiosidade foi inteiramente justificada e merecida, uma vez que os Kaja Bucalho apresentaram uma mistura muito inesperada entre o folcolore e a música mais urbana. Apostando na percussão (com um efeito muito interessante conseguido com cajados que são atirados contra placas de madeira) ou no inesperado dos instrumentos (a banda abriu com um instrumental onde alguns dos membros tocaram búzios), os Kaja Bucalho revelaram-se uma interessante experiência orgânica, viajando pelas várias regiões do país (com o ponto alto numa bonita homenagem ao Sul do país, em «Pelo Alentejo») e demonstrando que não é obrigatório estar alinhado com o sistema para se ser um sucesso em potência.

Os Last Milestone não se deixaram abater por algumas dificuldades técnicas durante a sua actuação. Fizeram subir ao palco algumas recordações dos (já longínquos) anos noventa, praticando o mesmo rock musculado devedor dos Kyuss, por exemplo. As vocalizações são teatrais e às guitarras não é poupada a distorção, o que não beneficia o som final, que é muitas vezes demasiado estridente. A banda não desdenha as aberturas com alguns instrumentais, demonstrando (ou querendo demonstrar) algum virtuosismo dos vários membros da banda. Os Last Milestone apresentaram um conjunto de músicas coerente e competente mas sem grandes rasgos de criatividade – só nos fizeram lembrar que o rock (realmente) ainda não morreu.

Seguiram-se os Guta Naki, a verdadeira surpresa da noite. Seria muito difícil aplicar um rótulo a esta banda, se assim o desejássemos: o trio apresenta-se em palco sem bateria, a vocalista sem sapatos. Os poemas fazem-nos ter esperança novamente que a língua portuguesa possa ser ouvida nas rádios, com qualidade e complexidade, com a paixão de quem domina a língua em que canta. À guitarra que conduz todos os temas, junta-se a electrónica das programações, o baixo que (muitas vezes despercebido) é a sua espinha dorsal, a voz tão maior do que o frágil corpo que a contém. O público reage com algum desconforto às canções sobre a tentação, sobre a raiva e a lascívia, porque não espera a multiplicidade de referências e de estilos que passa pela música dos Guta Naki. Mas, exactamente pela mesma razão, o público aplaude efusivamente, espantado com a sua própria capacidade de se supreender.

O encerramento da noite esteve a cargo dos Samuik, outra das propostas que contribuiu para que a escolha das bandas nesta final fosse um pouco desequilibrada. A mover-se também num dos infinitos espectros do rock, esta banda de Lisboa aposta na inclusão das teclas para tornar a sua sonoridade em algo mais etéreo, quase espacial. O ponto forte dos Samuik é, claramente, a sua secção rítmica que torna os temas mais melódicos, dançantes quase. A inclusão das programações nas suas composições deixa também adivinhar que a banda se pode futuramente mover em territórios mais experimentais.

Os Guta Naki sagraram-se os grandes vencedores da noite, arrebatando o prémio do júri. Adicionalmente, foi também dada a oportunidade ao público de votar na sua banda preferida, tendo os Samuik sido distinguidos pela maior falange de apoio do evento. O balanço final desta edição do Resound Fest foi francamente positivo e, a acreditar em anos anteriores, os vencedores darão ainda que falar. Talvez uma próxima edição possa revelar não só bandas competentes, mas também apostar na criatividade e no hibridismo dos novos estilos. Esta noite, percebemos mais uma vez que há vida a acontecer nas salas de ensaio por aí.



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