Revivalismos Sonoros

Substance – Joy Division – 1988

Primeiro, uma nota sobre esta “coluna”. Acusam os nossos tempos de revivalismo exagerado. Com razão, não questiono. Mas pergunto-me, e pergunto-vos, se será melhor encharcarmo-nos nos clássicos de valia confirmada ou se nos devemos deixar levar pelas cópias de segunda (por mais charmosas que sejam) que nos vão servindo hoje em dia. A minha resposta será fácil de prever. Contudo, tenho a mágoa de que não apareça nada que me soe a novo, que não seja de um experimentalismo bacoco ou outro tipo de inanidade.

Vamos ao que interessa:

O mito de Ian Curtis não bate o de Jim Morrison. Diz-se, diz Deborah Curtis, a mulher de Ian, que mito era o que desejava ser. Daqueles que morrem jovens. E deixam um culto, que os admira mais como cadáveres do que quando andavam e viviam entre nós. Ian Curtis morreu aos 23 anos. Dois álbuns e alguns singles depois de ter começado. A sua imagem fixa, o cigarro na boca, a gabardina. Canções tristes, construídas sob um peso indescritível. Não alcançou o estatuto de semi-deus do vocalista dos Doors, mas, para nós, muitos, ultrapassou-o em muitos sentidos. Pode mesmo dizer-se que criou uma década de música. Os anos 80.

Ian Curtis deveria normalmente enfileirar pela sub-urbanidade dos seus semelhantes. Para quem vivia nos arredores da fria e feia cidade de Manchester, o mais certo seria acabar numa fábrica qualquer, num trabalho insuportável. Não fosse o punk.

Na confusão de bandas, que surgiram no período, encontravam-se uns tais de Warsaw (em homenagem a David Bowie). No baixo, Peter Hook. Na guitarra, Bernard Sumner. Na bateria, Stephen Morris. Na voz, Ian Curtis. Nada os distinguiria de todas as outras.

De repente, começaram a dar nas vistas. Chamavam-se agora Joy Division (que como toda a gente sabe, refere-se a uma ala dos campos de concentração nazis destinada à prostituição). Tinham um som único: o baixo tinha tanta importância como a guitarra (às vezes, mais), a bateria sincopadíssima. As letras das canções eram muito boas, saídas de uma mente inteligente, se bem que desesperada.

Não esqueçamos Martin Hannett. O produtor que ajudou a dar identidade à banda. O quinto elemento, como se costuma dizer. O som inconfundível e tão difícil de descrever (rígido, apertado, mecânico, sem falhas, é o melhor que me vem à cabeça) é da sua responsabilidade.

Em Maio de qualquer ano, mais propriamente a 18 de Maio, celebra-se (sim, pode chamar-se celebração) o dia, no ano de 1980, em que Ian Curtis pôs The Idiot de Iggy Pop a tocar na aparelhagem e se enforcou com uma corda de roupa. Para trás, ou para a frente, ficou toda a iconografia, os incontáveis seguidores, o folclore dos 24 Hour Party People e afins.

Substance. Escolho esta compilação de 1988, porque tem três das melhores canções dos Joy Division (de sempre): “Transmission”, “Atmosphere” e “Love Will Tear Us Apart”. Abarca, também, toda a carreira da banda, desde o período mais punk (“Leaders of Men”) até à depuração final (“Autosuggestion”). Todavia, poderia ter escolhido Closer, o segundo álbum, pelas maravilhosas três canções finais (“Twenty Four Hours”, “The Eternal” e “Decades”) – Miguel Esteves Cardoso concordaria comigo. Ou o primeiro álbum, Unknown Pleasures, por causa de “New Dawn Fades”, “Disorder” ou “She’s Lost Control”. Cá para mim, o melhor é tê-los todos.

Para os mais interessados, existe uma boa biografia de Ian Curtis escrita pela mulher, Deborah, – Touching From a Distance – que brevemente passará a filme, pela câmara de Anton Corbjin. A não esquecer, também, o concerto dos New Order – mal explicado, os Joy Division sem Ian Curtis – dia 28 de Maio no festival Super Bock Super Rock.



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