RICARDO3

“RICARDO III”, encenação de Marco Medeiros

Um Vilão Intemporal.

O vilão mais controverso da autoria de Shakespeare volta aos palcos portugueses com uma abordagem pop, através da encenação do jovem Marco Medeiros acompanhado por um elenco de luxo. Diogo Infante é o protagonista e, apesar de já ter feito várias peças do dramaturgo inglês, nunca se tinha imaginado a vestir a pele desta personagem tão complexa e desafiante.

Durante este processo, um dos desafios esteve em dar uma vida distinta a esta personagem, de modo a distanciar-se da imagem do intérprete. Para tal, o ator confessa procurar amar as suas personagens ao invés de as julgar, por mais sórdidas e sombrias que elas sejam. É essa dimensão psicológica que, aliada à concentração, lhe permite familiarizar-se com este ser fictício e sentir-se confiante a cada dia que passa para poder arriscar um pouco mais. Esta procura por um determinado Ricardo III deu-se em conjunto com a visão do encenador, convidado pelo próprio Diogo para dirigir este espetáculo de um modo arrojado e não convencional. Em entrevista, foi possível perceber que a relação entre ator e encenador neste espetáculo parece ter sido bastante colaborativa: «o Marco, uma das premissas que me disse foi “nunca fiques preso à marcação. Nunca fiques preso à emoção. Se surgir uma coisa, aproveita, porque essa é uma das riquezas e virtudes deste personagem.”»

Os monólogos desta peça inspiraram e continuam a servir de referência a muitos criadores de obras de ficção e audiovisual, principalmente no que diz respeito à quebra da quarta parede. É nestes momentos que o protagonista confessa os seus planos e as suas angústias ao público, o que faz com que se compadeçam dos seus atos malévolos e até mesmo a fascinarem-se pela sua ambição desmesurada. Diogo Infante fá-lo de forma exímia mostrando, uma vez mais, a sua versatilidade enquanto intérprete. Também o jogo de luzes/sombras e as opções cénicas desta adaptação nos mostram quadros de imagens impactantes, com uma pertinência que nos aproxima ainda mais da sua falta de escrúpulos.

A caracterização e a figuração são também muito amigas da construção destas personagens, cuja perversidade não se fica só pelo vilão. Neste protagonista está impressa uma ideia de androginia, de diferença, que habitualmente é alvo dos preconceitos de uma sociedade conservadora.

É sabido que Shakespeare é um dramaturgo clássico do século XVI e que todos os anos existem encenações das suas peças um pouco por todo o lado. E por isso, surge uma variedade de adaptações, umas mais fiéis à época do escritor e outras mais contemporâneas. Esta transporta-nos para um ambiente pop, que fica claro logo no primeiro momento, ainda antes do anúncio de que o espetáculo vai começar. É um drama que começa com uma festa repleta de convidados muito animados ao som da música “Bad Guy” da americana Billie Eilish – um apontamento cómico ao qual o encenador chama de clichê – que mais não são do que cenas repetitivas e fáceis para justificarem uma determinada ideia. A escolha desta música e desta artista ajudam a corroborar a ideia da androginia em sintonia com o universo pop.

É claro que uma peça com esta temática – a ascensão corrupta e o mau uso do poder –  não está inocentemente agora em cena. Nos dias que correm a representação de um vilão como Ricardo III – e para aqueles que se lembram do filme com o carismático ator Ian Mckellen e, em particular de uma cena que remete para o totalitarismo nazi – é uma completa chamada de atenção para uma perigosa ascensão das forças extremistas disfarçadas de bem-aventuranças. E, ao fazer este alerta, esta equipa de artistas toma uma atitude perante as circunstâncias atuais. É através do trabalho deles, da arte deles, que estes se insurgem contra o que consideram estar errado.

Apesar de ser uma peça pertinente para trazer ao público num momento em que a pandemia despoletou várias divergências sociais e políticas, a personagem de Ricardo III revela uma certa consciência dos seus atos. Ele sabe que pratica o mal e mostra algum sentido de humanidade acerca disso. No entanto, ao contrário do que acontece nesta ficção, os vilões da nossa realidade não aparentam ter consciência dos seus males e fazem uso do dramatismo como mera ferramenta falaciosa, com o intuito de enganar os menos informados.

A cultura, para além de ser segura e respeitar as medidas implementadas, é também solidária e este projeto não foi exceção. O valor dos bilhetes da antestreia no dia 25 de novembro reverteu a favor da Casa da Criança de Tires. Esta história clássica com um anti-herói intemporal teve a sua estreia a 26 de novembro e continuará em cena até 31 de janeiro.

 

Datas e Horários

26 Nov a 31 Jan

Qua a Sáb 20:30

Dom 16:30

*23, 24, 25, 30, 31 Dez e 1 Jan 2021 não há espetáculo.

28 e 29 NOV / 5 e 6 DEZ – ESPETÁCULOS CANCELADOS

 

Ficha Artística

Texto William Shakespeare

Tradução e dramaturgia Maria João da Rocha Afonso

Encenação Marco Medeiros

Com Diogo Infante, Diogo Martins, Gabriela Barros, Guilherme Filipe, João Jesus, João Vicente, Romeu Vala, Sílvia Filipe, Virgílio Castelo e Brandão de Mello, Constança Carvalho Neto, Inês Loureiro, Joana Antunes

Cenografia F. Ribeiro

Figurinos Dino Alves

Desenho de som João Cruz

Desenho de luz Stageplot

Assistente de encenação Teresa Silveira Machado

Produção Teatro da Trindade INATEL

Apoio Associação Mutualista Montepio

 

CONVERSA COM O PÚBLICO

13 Dez/Dom. Após o espetáculo.



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