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Ricardo Martins

Uma causa chamada liberdade.

No final do ano em que se comemoraram os 40 anos da crise académica de 1969, o jovem realizador Ricardo Martins estreou “Futebol de Causas”, documentário sob o signo da ZED Filmes, sobre o papel da equipa de Coimbra nas questões políticas e sociais dos anos 60. Tendo tido a sua estreia no festival DocLisboa, prevê-se para breve o lançamento de uma série documental de três DVD com os materiais não mostrados no documentário.

“Futebol de Causas”, primeira obra cinematográfica da autoria de Ricardo Martins (conhecido pela alcunha Libelinha), centra-se – mais do que num clube de futebol – no modo como uma equipa e uma cidade funcionaram como antecâmaras de uma revolução a favor da liberdade.

Ricardo Martins, de 27 anos, pretende preencher uma lacuna documental, mas acima de tudo, fazer justiça: “Não existe nada feito sobre este assunto, trata-se de registar a história, dando voz aos protagonistas daquele período. O meu objectivo principal foi fazer uma justiça histórica aos jogadores, que tiveram um papel importante, não só na crise, mas também para fazer passar a mensagem a um maior número de pessoas possível”, afirma o realizador.

Explorando a final da Taça de Portugal de 1969, no Estádio do Jamor, onde num jogo emblemático se assistiu ao maior “comício” improvisado contra o regime, “Futebol de Causas” tenta perceber de que maneira o futebol da Académica esteve na época ligado às questões políticas e sociais que resultaram na crise de 1969 e a forma como as lutas estudantis influenciaram a revolução de 25 de Abril de 1974.

“A Académica sempre foi, historicamente, uma secção da própria Associação Académica de Coimbra (AAC). Os próprios jogadores eram estudantes e, por serem estudantes, tomavam posições ao lado das deliberações das Assembleias Magnas, solidários com o resto dos estudantes”, explica Ricardo Martins. “Quando foi decretado o luto académico em 1969, os jogadores fizeram greve sob pena de ir para o Ultramar, portanto foi um gesto de solidariedade imenso, revelando todo o espiríto que eles tinham, que esteve sempre ao lado das causas de um país”, conclui.

Sócio da “Briosa” desde 1992, Ricardo Martins admite que, contrariamente à regra que dita que um bom documentarista é imparcial relativamente ao seu objecto, é um apaixonado pelo assunto que retratou em “Futebol de Causas”. Para além de os seus pais terem sido vítimas de censura e repressão policial directas, a ligação com a Académica saiu reforçada à medida que o documentário se desenvolvia: “Fui à procura da verdade dos factos e foi aí que percebi a imensidão de valores que estavam por trás daquilo e que, no fundo, é isso que me apaixona e que me faz gostar da Académica, porque há mais para lá do futebol. Citando os irmãos Campos, o futebol da Académica não é só alma, tem algo mais”, justifica o realizador.

Celso Cruzeiro, Alberto Martins, Laborinho Lúcio, os irmãos Campos, Manuel António e Mário Wilson são apenas alguns dos antigos jogadores e dirigentes da AAC que, entre outras figuras, dão o seu testemunho ao longo do documentário.

“Dentro de uma humildade enorme, eles não queriam falar, achavam que eram coisas irrelevantes. Também se sentem um pouco esquecidos – não é injustiçados. Havia, naquela época, muitos problemas que continuavam a ser silenciados e que, precisamente, aqueles 11 jogadores da Académica ajudaram a levar a mensagem a tantas centenas de milhares de pessoas, naquele dia tão especial que foi o 22 de Junho de 1969”, reforça Ricardo Martins.

De tudo o que retira da realização de “Futebol de Causas”, Ricardo Martins sublinha que o essencial é “continuar a acreditar no regresso de uma Académica de valores, que não tem medo de se envolver politica e socialmente, que não se acomoda, numa Académica que não quer estar dentro da máquina comercial do futebol; isso perdeu-se, mas neste momento, noto que está a voltar, muito paulatinamente.”

O documentário irá percorrer os festivais todos, não só a nível nacional, como a nível internacional: “Sei que já há contactos para festivais de Malta, Chipre, etc.”, conta Ricardo Martins. “Estamos ainda a negociar com as distribuidoras, para que o filme chegue às salas de cinema, estando também previsto o lançamento de uma série documental de três DVD com os materiais não mostrados no documentário”.

Quanto ao futuro, o jovem realizador, licenciado em Jornalismo pela Universidade de Coimbra, pretende continuar a explorar o mundo cinematográfico, já que a área jornalística se revelou uma desilusão: “O jornalismo despertou a minha vontade de investigação e a paixão pela notícia, mas desiludi-me com muitas coisas que fui vendo. Fazer o documentário foi algo que adorei fazer e vou continuar no cinema, até porque já estou a escrever outras coisas e tenho outros planos para realizar”.

Os planos de Ricardo Martins incluem a ambição de fazer “o primeiro filme de terror com bom gosto, em português”. Para o jovem realizador, “há uma fronteira muito ténue no cinema, entre o cinema-arte e o cinema-entretenimento e, em Portugal, ainda não está bem conseguido que as coisas sejam feitas com critério e com gosto”.

Certa é a realização de outro documentário que percorrerá os caminhos da liberdade, desta feita, centrado no PREC: “Estou a pensar chamar-lhe: “Abril a Novembro”, sendo a espinha central da narrativa o General Melo Antunes e os episódios em que esteve envolvido. É mais uma maratona! [risos]”, conclui Ricardo Martins.



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