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Rick Meyerowitz

Nada revolucionou tanto o humor americano como a National Lampoon. Estreando-se como revista em 1970, a NL expandiu-se para a rádio, o teatro e o cinema, projectando para a ribalta comediantes como Bill Murray, John Belushi e Chevy Chase.

Rick Meyerowitz desenhou para a revista durante 15 anos e criou poster para o primeiro filme, Animal House. No final deste ano irá lançar o livro “Drunk Stoned Brilliant Dead”, uma colectânea de perfis de todos os artistas e escritores que por lá passaram. Da sua casa em Greenwich Village, Rick falou-nos dos seus tempos na revista, do seu trabalho para a New Yorker e de máscaras para o nariz.

Fizeste parte da National Lampoon praticamente desde o início, mas saíste muito mais tarde que os fundadores da revista. Porque ficaste tanto tempo e quando é que decidiste que era tempo de sair?

O Henry Beard e o Doug Kenney saíram depois de receberem uma grande quantidade de dinheiro na Primavera de 1975. O Henry nunca mais voltou, mas o Doug continuou e acabou por escrever o Animal House. Eu era amigo dos dois. Mas também era amigo de outros escritores e artistas, que produziam a maior parte do conteúdo da revista. Todos eles ficaram, e eu também. Para além disso, era o único meio que eu e os outros tínhamos para exprimir o nosso estilo particular de humor.

Na National Lampoon trabalharam os melhores comediantes dos anos 70, não só na revista como também no programa de rádio e no musical off-Broadway “Lemmings”. Porque é que nos dias de hoje não se encontra um grupo tão grande de talentos?

Hah, hah. Não sou especialista, mas vou tentar responder. A razão será provavelmente que o passado foi o passado e o agora é agora. Vivemos num mundo diferente no que respeita ao acesso aos média. A “dream team” deixou a Lampoon quando o patrão (Matty Simmons) se recusou a pagar o que eles mereciam. De repente, a televisão e o cinema abriram as portas a este grupo de actores e escritores, e eles sabiam que valiam mais e tentaram estes novos médiuns que a Lampoon não estava a explorar. Quando a Lampoon entrou no cinema, em 1978, com Animal House, foi um grande sucesso, mas eles nunca aproveitaram esse sucesso para fazer mais nada igual. Hoje temos muito humor do estilo Lampoon na televisão. O Jon Stewart na Comedy Central, e os Simpons e South Park. Todos têm um estilo subversivo Lampoon – mas sem a National Lampoon.

Com era o ambiente na redacção?

Parecia uma firma de contabilidade. Não era nada de especial. Era excelente para um freelancer passar por lá uma vez por semana e ir almoçar ou tomar uns copos com o pessoal. Riamo-nos até as nossas cabeças baterem no chão e eu normalmente voltava para casa com uma tarefa ou outra. Tudo porque me misturava com o pessoal, e andávamos às voltas com ideias, e era isso que nós adorávamos fazer. Era assim que as coisas funcionavam lá.

Alguns contribuidores, como Arnold Roth, Roger Price e Paul Krassner, já trabalhavam em publicações de humor desde os anos 1950. Havia algum conflito de gerações na revista?

Acabei de ver o Arnie ontem à noite! Estava a tocar saxofone num café aqui em Greenwich Village. Ele é brilhante e está em grande forma, para quem tem 80 anos. Ainda consegue soprar no saxofone lindamente, apesar de fumar dois maços de cigarro por dia. Mas respondendo à pergunta, dávamo-nos todos bem. Mas os editores afastaram-se propositadamente daqueles que eram velhos ícones de humor. No final do segundo ano, eles já nem eram convocados para as discussões editorais. O que foi muito mau para alguns. Eu adorava, e ainda adoro, o trabalho do Arnie na revista. Dei-lhe um capítulo no meu livro. E chamei-lhe o paradigma do artista/escritor da Lampoon.

Pelo que sei, a Mad é a única revista de humor americana com larga distribuição. Achas que a Internet contribuiu para a morte deste tipo de revistas?

A Mad agora só sai quatro vezes por ano. O público abandonou-a. Eles mantiveram sempre a mesma fórmula e a grande multinacional que a comprou provavelmente estrangulou a sua veia criativa por não apoiar essa fórmula. Agora temos o The Onion, que sai semanalmente e tem piada em doses pequenas. Tudo que nos dá é pequenas doses de humor. Uma primeira página e alguns artigos pequenos. Estilo tablóide. Mas temos imenso humor na internet. Já leste o Borowitzreport.com? Mas respondendo à pergunta, as revistas de humor já tinha desaparecido antes de chegar a Internet. A televisão matou-as.

Ainda costumas trabalhar com ex-colegas da Lampoon?

Ainda trabalho com o Sean Kelly e com o Tony Hendra. Entrei em contacto com muitos ex-colegas enquanto escrevia o livro. E todos falamos em trabalharmos mais juntos, de alguma forma. Mas todos temos vidas ocupadas. Tudo depende de quanto tempo temos e de haver um editor que nos “mostre o dinheiro”. E para isso temos que ir para além de nos fazermos rir uns aos outros num almoço e passar-mos mesmo a trabalhar numa proposta para artigo de revista ou para um livro. O problema do estilo Lampoon é que muitas revistas e jornais como o New York Times dizem-nos muitas vezes que não. O que é desencorajador. Por isso nem sempre saímos da fase de nos rirmos sozinhos. É sempre divertido de qualquer forma.

Também trabalhaste em anúncios de empresas com a Sony e a Virgin Airlines. Não é um pouco estranho para alguém com uma raízes mais contra-cultural?

Eu não ganhava o meu pão a desenhar para a National Lampoon. Ganhava como ilustrador comercial ocupado. Fiz cerca de 2000 anúncios durante a minha carreira. E também nunca tive raízes na contra-cultura. Sempre quis ser ilustrador. E sempre tive sentido de humor e desejo de trabalhar arduamente, pintar todos os dias e ganhar dinheiro para pagar a educação dos meus filhos e viajar para terras distantes. E fiz
tudo isso. Gostava dos temas da cultura jovem dos 1960s e dos 1970s mas nunca sucumbi aos slogans sem sentido e ao politicamente correcto de tudo aquilo. E a Lampoon também não. Atacávamos esses aspectos tanto como atacávamos o status quo.

Os teus artigos sobre “Birds of …” são semelhantes ao artigo “Birdwatchers guide for the Humbugians”, publicado na Humbug nos anos 1950. Foi uma inspiração directa? Que outros artistas te inspiraram?

Não me lembro do “Birdwatcher’s Guide”. Mas provavelmente vi isso quando era miúdo e lia a Humbug, e de certa forma absorvi esse estilo. Fui tremendamente influenciado por Will Elder e Jack Davis, as duas estrelas da Mad e, mais tarde, da Humbug. E claro, pelo trabalho de Harvey Kurtzman em qualquer forma. O trabalho do grande caricaturista Edward Sorel também me marcou muito. Na escola de arte fui influenciado por Max Beckmann e Picasso, dois grandes humoristas. Adorava Cezanne. E qual é o artista americano que não é influenciado por R. Crumb? Eu fui, e também por Jackson Pollock e DeKooning. Adorava o autor francês Júlio Verne, e Conan Doyle pelo Sherlock Holmes, e adorava o humorista americano S.J.Perelman. E cartoonistas como Charles Addams (criador da Família Addams).

Muito do teu trabalho prende-se com a atribuição de características humanas a animais, ou até mesmo à criação de novas espécies, como os Dodossauros (dinossauros falhados que se extinguiram muito antes dos outros). Como te surgem essas ideias?

Adoro desenhar animais. Tenho um jardim zoológico na minha cabeça. Ás vezes a minha cabeça fica muito barulhenta, com todos animais a grunhir ou a andar as voltas. Consigo desenhar qualquer animal sem olhar para uma fotografia. Estou a falar a sério. Aquilo de que falasé da minha habilidade de antropomorfizar as criaturas. Consigo atribuir características humanas a pessoas e a máquinas. È algo que faço bem, consigo animar aquilo que desenho. Sou capaz de dar vida a uma cadeira e fazê-la andar pela sala. Pelo menos, consigo fazê-lo na minha cabeça e exprimir isso no papel. A cadeira onde estou sentado enquanto escrevo nunca vai andar sozinha pela sala, por mais que eu a tente convencer.

Porque achas que o mapa do Newyorkistan (com a marcação territorial das várias “tribos” nova-iorquinas), para a capa do New Yorker, teve o impacto e a atenção mediática que teve?

Já viste um prédio de cento e dez andares arder como uma vela e depois cair… duas vezes na mesma hora? Não é uma visão que se esqueça. Eu vi tudo daqui de Greenwich Village. Primeiro fiquei preplexo, como toda a gente. Mas depois comecei a pensar sobre a política da cidade de New York e fiquei frustrado pelo tribalismo dos nossos políticos locais. Os Estados Unidos começaram a bombardear os Talibans e eu pensei nas tribos afegãs e apercebi-me que New York é mais tribal que o Afeganistão. E o mapa, que desenhei com Maria Kalman, surgiu dessa ideia. Respondendo à tua pergunta, os nova-iorquinos ficaram muito
sisudos após o 11 de Setembro. A nossa capa foi para as bancas a 10 de Dezembro do mesmo ano e de alguma forma capturou a nossa imaginação colectiva. Todos se riram pela primeira vez em meses. E graças a nós. Lê o artigo que o New York Times fez sobre o NewYorkistan. Está no meu
site.

E as máscara de nariz, como surgiram? Usaste alguma em público quando eras miúdo?

As máscaras de nariz era algo que fazia quando era miúdo. Fazia muitas, mas não sei como apareceram. Fazia-as como fazia aviões de papel. Eram simplesmente divertidas de fazer. Quando tive filhos, fiz máscaras para eles. Um dia estava a falar com um editor e mostrei-lhe como se faziam e ele ficou radiante e pediu-me para fazer um livro com elas. Ainda as faço para me divertir. No meu site há algumas que podes imprimir. Faz isso. Corta e experimenta. São divertidas!



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