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Rock in Rio 2012 | Dia 2 (26.05)

Dizem que a vida são dois dias e o Carnaval são três, mas na cidade do Rock os dois dias valem por um milhão

Talvez um milhão seja um número exagerado mas, de facto, certamente que valeram para as 125 mil pessoas que durante estes dois dias passaram pelo Rock in Rio – dados oficiais dizem que ontem o recinto recebeu 83 mil pessoas. A enchente foi notória, sobretudo nas duplas filas para obter os clássicos brindes oferecidos pelas promotoras e nas casas-de-banho, mas foi arrepiante ver um oceano de pessoas totalmente coordenadas de braços no ar a motivar e receber a sua banda preferida. O cartaz era assombroso, no sentido em que estavam presentes fortes nomes, quer da indústria musical americana (no palco Mundo), quer da indústria musical portuguesa e brasileira (no palco Sunset) e um mix das duas no palco Showcase Vodafone. No palco Heinekein, onde mora a música electrónica, salientamos a prestação de Mirror People – o projecto a solo de Rui Maia, The Discotexas Band e os norte-americanos Azari & III que fizeram a festa para um número considerável de fãs deste género musical que ganha cada vez mais adeptos em Festivais de Verão e que merecem todo o destaque.

Mas voltemos ao início da tarde. Às 17 horas quase que não se distinguia o número de pessoas, quer no interior, quer no exterior do recinto, tal não era a confusão em termos de circulação até chegar a um local exacto. No Palco Sunset, Rita Redshoes encantava os presentes com a sua voz doce em conjunto com Moreno Veloso, filho do icónico Caetano Veloso. Ao mesmo tempo, os Larkin davam-se a conhecer no palco Showcase Vodafone perante pouco mais de uma dúzia de pessoas (aqui não estão contabilizadas as pessoas pertencentes ao pequeno grupo de contratados pelo sponsor para aplaudir e dinamizar o concerto que, a nosso ver, não faziam muita falta pois o ar que transmitam é que estavam ali como uma obrigação e que nem sequer faziam a mínima ideia de quem estava a actuar). Os jovens Vianenses contam com dois discos editados e a sua postura e apresentação deixaram uma óptima impressão. É um nome a ter em atenção e a seguir nesta nova onda do rock em Portugal. Eles aproveitaram também para agradecer a todos os que perdiam um lugar na fila da frente só para estarem ali a vê-los! Foi bonito. No final, aproveitámos para dar uma nova volta ao recinto para espreitar o que estava a acontecer. Na Street Rock, os Jukebox Crew aglomeravam uma pequena moldura humana que assistia alegremente ao entertainer Cifrão e aos movimentos de breakdance dos outros elementos do grupo. No Palco Sunset, Mafalda Veiga preparava-se para cantar alguns dos seus êxitos em parceria com o jovem Marcelo Jeneci, nova promessa da música popular brasileira. Em breves minutos regressámos novamente ao Showcase Vodafone onde actuavam os nossos amigos Murdering Tripping Blues, o trio lisboeta com o seu rock progressivo e com alguns adeptos, inclusive crianças.

19 Horas: o calor mistura-se com o pó e com o vento, as pessoas começam a correr vindas sabe-se lá de onde para conseguirem o melhor spot para os concertos da noite. A abrir o Palco Mundo, os norte-americanos Limp Bizkit que podemos apelidar de surpresa da noite. Um alinhamento ultra adequado ao certame e um espectáculo de entretenimento e de captação da atenção do público de forma fenomenal. Os “pais” do Nu-Metal atraíram miúdos e graúdos numa celebração à década de 90 / 2000. Para começar, nada melhor do que «My Generation», com Fred Durst envergando o mesmo guarda-roupa que há 10 anos atrás. Em uníssono, a plateia fazia arrepiar enquanto cantavam «Hot Dog», «Livin It Up», «Bring It Back» e «My Way». A voz de Fred mantém-se incrivelmente inalterada. Se a imagem é capaz de marcar uma banda, de facto os Limp Bizkit sempre se destacaram pelo guarda-roupa irreverente: calças descaídas que deformam o andar, os bonés gigantes que reparamos ainda estarem na moda (ou então os rapazes levaram-nos propositadamente) e o guitarrista que surge todo pintado de branco, com uma máscara e um espartilho que ajusta à zona dos quadris, mostrando naturalmente os seus boxers vermelhos. Mas como a simpatia também é algo a destacar, Fred chamou pelas ladies de Portugal e perguntou se estava toda a gente pronta para a festa. E de facto foi em festa que os Limp Bizkit continuaram o concerto com «Break Stuff» e «Take a Look Around», com Fred Durst nas grades e a percorrer o recinto junto dos fãs. Fred fez questão de dizer perante a multidão que estava verdadeiramente feliz por ter regressado ao nosso País e que estava a ser um dos melhores dias desde há muito tempo. Verdade ou não, a plateia respondeu com fulgor e recebeu muito bem o grupo. Para terminar o espectáculo, não faltaram «Behind Blue Eyes» – o único tema calminho do alinhamento – «Nookie» e «Rollin». E pelo meio ainda cantou um refrão de «In The End» dos Linkin Park e «Why you don’t get a job» dos The Offspring. A evidência é que os Limp Bizkit, mesmo passados estes anos todos, mantêm uma áurea positiva e que contagia qualquer um.

No intervalo do Palco Mundo, foi o momento de recarregar baterias, ou seja, tomar uma refeição ligeira. No Palco Sunset, Xutos & Pontapés apresentavam-se com os míticos Titãs e, como factor surpresa, juntou-se em palco também Andreas Kisser, vocalista dos Sepultura. Em outros locais, a Rock Street mantinha-se fortemente animada.

No Palco Mundo, e a serem transmitidos para o mundo inteiro, os repetentes The Offspring chegados directamente da Califórnia. Contudo, não trouxeram com eles o calor de outrora. O punk-rock que os caracteriza pode ainda contagiar e atrair muito do público que esteve presente, mas não foram de grandes surpresas. O alinhamento, também devidamente planeado e estruturado, acabou por ser a sua grande mais-valia. Apenas uns tímidos “obrigados” e uns “I love you, Lisboa” se fizeram escutar por entre as canções. Mas o público estava ali era para ouvir música e aplaudia-os até à exaustão. «Gonna Go Far», «All I Want» e «Come out and play» continuam a fazer parte do imaginário adolescente de muitos. Houve tempo para apresentar uma música nova, «Days Go By» e cantar velhos hits como «Original Prankster», um dos pontos altos do concerto, «Why Don’t You Get a Job?», «Americana» e «Kids aren’t alright». Também houve a balada da praxe com «Kristy» para embalar os mais distraídos. Regra geral, ninguém ficou aborrecido e (quase) ninguém parou de pular nem de cantarolar as músicas todas.

Directamente de Braga e merecedores de todos os agradecimentos por parte da Vodafone, os The Glockenwise deram um concerto memorável. Com uma presença rítmica bastante forte, os bracarenses mostraram que a brincar a brincar se podem fazer boas músicas e elevaram muito a fasquia no que diz respeito às músicas roque. São sem dúvida merecedores de aplausos.

Com uma bandeira escrita com a frase “LP Portugal Loves You” e a bandeira nacional a serem projectadas nos ecrãs gigantes do recinto, os Linkin Park regressam a Portugal para um concerto igualmente memorável. Mais um alinhamento escolhido a preceito e que jogou inteiramente a seu favor. Mike Shinoda, Chester Bennington e os restantes elementos do grupo provaram que são ainda capazes de se reinventar, mantendo a qualidade que lhes é exigida. Os rapazes começaram da melhor forma com «A Place For My Head», «Given Up» , «Faith» e «With you». Depois dos agradecimentos que tão bem lhes ficaram, seguiu-se «Somewhere I belong» com Chester Bennington a dançar pelo palco e a terminar junto ao público em baixo nas grades. Depois do êxito «Numb», que deixou o público em delírio, foi tempo de mostrar uma nova música – «Lies greed misery» – e de continuarem com outros sucessos incrivelmente inesquecíveis como «Points of authority», «Waiting for the end» e «Breaking the habit». Estamos a meio do concerto e os Linkin Park continuam a dar provas de que gostam de nós e o público corresponde da mesma forma, cantando numa só voz os clássicos «Catalyst», «What I’ve Done», que tem como imagem o blockbuster “Transformers”, «Crawling» e «In The End», que nunca sairá do imaginário de ninguém. Durante as caminhadas entre o palco e o público, a atenção requer-se quando alguém lhe dá um cachecol azul e branco, do clube vencedor da liga de futebol nacional, e os assobios se tornam ensurdecedores. Mas tudo passa quando em «Bleed It Out» é feita uma homenagem ao líder dos Beastie Boys e é interpretado o refrão de «Sabotage». Para fecharem com chave de ouro e deixarem saudades, ficam na memória as canções «Papercut» e «One Step Closer».

Enquanto os Oberhofer entretêm as pessoas que rodeiam o Showcase Vodafone, os Smashing Pumpkins começaram o seu espectáculo. Mas os Oberhofer merecem regressar a Portugal para um concerto cuja atenção recaia sobre eles. O som indie-rock com uma pitada de influência citadina soava maravilhosamente bem e apetecia ficar durante muito mais tempo. Com um álbum de apresentação intitulado de “ooOOoo”, o colectivo vindo de Nova Iorque conquistava os presentes, mesmo não sendo um gang oficial e conceituado na música (ainda!).

Coube aos “maestros do rock-alternativo dos inícios dos anos 90 que fazem parte da vida de 83 mil pessoas e não só” – Smashing Pumpkins – encerrar o primeiro fim-de-semana de Rock in Rio. Visto que Billy Corgan apenas mostrou saber que Lisboa é a capital de Portugal e que nem sabia o que queria dizer a palavra “obrigado” pois teve de ser a baixista a traduzir-lhe a palavra, passamos a citar o alinhamento: «Zero», «Bullet», «Today», «Starla», «The Beggining Is The End», «Quasar», «Panopticon», «Tonight Tonight», «Ava Adore», «Neverlost», «The Ever Lasting Gaze», «Oceania», «1979», «Cherub Rock», «Muzzle», «Disarm», «Space Oddity» versão do original de David Bowie, «XYU» e «Black Diamond» dos Kiss. Dentro deste alinhamento, muitas foram as canções que fizeram arrepiar os presentes, assim como relembrá-los como banda sonora de alguma fase da nossa vida. O desenho de luz, as canções que só um génio (mesmo com um feitio muito peculiar) poderia interpretar e conceber, assim como o público caloroso, foram motivos suficientes para que este concerto se tenha tornado notável para a maioria dos presentes.

Foi sem qualquer dúvida a noite do revivalismo do rock que, de forma arriscada, superou em grande escala todas as expectativas e tudo correu da melhor forma, sempre sobressaltos. O Rock in Rio está de regresso já nos próximos dia 1, 2 e 3 de Junho.

Nota final para o fantástico serviço de recolha de lixo, a separação do mesmo para reciclagem (existem ecopontos em todo o lado) e as várias equipas especializadas que varrem o recinto. A única coisa que atrapalha é o pó. Pois é, ele não existe apenas no Meco e fez com que algumas pessoas necessitassem de ajuda médica pois despoletou várias reacções alérgicas.

Reportagem do primeiro dia do Rock in Rio 2012 aqui; terceiro dia aqui; quarto dia aqui; quinto dia aqui.

Fotografia por Manuel Casanova. Galeria do primeiro dia do Rock in Rio 2012 disponível aqui; segundo dia aqui; terceiro dia aqui; quarto dia aqui; quinto dia aqui.



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