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Rock In Rio 2012 | Dia 3 (01.06)

Crianças, brasileiros e rock n' roll

Ser dia da criança pode ser um bom preceito para justificar tanta “criança junta” – público entre os 16 ate 20 anos, maioritariamente, e sem a presença de adultos. Mas por entre as 74 mil pessoas que ontem preencheram o terreno do Parque da Belavista estavam famílias inteiras e a comunidade brasileira que se uniu para matar saudades da terra e do seu sotaque adocicado com muita “poeira”. Houve quem também viesse vestido de forma altamente personalizada: os destaques vão para camisolas escritas com o alinhamento de artistas em cartaz, collants rasgadas e calções em que vale mostrar (quase) tudo. O calor convida a que tal aconteça!

A abertura do recinto deu-se às 16 horas em ponto com o hino do festival a entoar por entre as colunas dispersas e com um mar de pessoas a correr para chegar em primeiro lugar junto das grades do Palco Mundo. Outros, apostamos que iam a correr para serem os primeiros das filas dos locais onde dão brindes. Também para assinalar a abertura de mais um fim-de-semana de festival esteve presente Luís Figo e cerca de 400 crianças pertencentes à sua Fundação que formaram um cordão humano e receberam os espectadores com aplausos.

Enquanto a Rock Street já brilhava com as suas lojas abertas ao público e se faziam ensaios de som no coreto, os The Black Mamba brilhavam no Palco Sunset e trouxeram como convidado especial Tiago Bettencourt (ex-Toranja). O grupo, formado em 2010 e que muita estrada já percorreu, apresentou temas do seu primeiro trabalho homónimo como «Rock Me Baby», «Sweet Lies» e «Canção de Mim Mesmo / Save My Day». A partir do single «It Ain’t You» Tiago Bettencourt juntou-se ao vocalista e guitarrista do grupo, Tatanka, para interpretarem as canções-êxito de Bettencourt, cujo destaque vai para a balada «Carta» e para a mistura de «Walk on the Wild Side / A Roda». O visual simples, mas com ar de bad boy que Tatanka ostenta enquanto toca guitarra e fuma um cigarro, conjuga bem por entre o funk e as origens da música afro-americana bastante valorizada pela voz pulsante das ladies que integram o coro. O encontro foi semi-mágico, como havia sido prometido pelo líder da banda, e muito barulho foi feito pelo público que ia chegando e sentando-se no chão verdinho.

Permanecendo no Palco Sunset, seguiram-se os Orelha Negra, que também levaram consigo dois convidados muito especiais “directamente do Brasil para Chelas City”, Kassim e Hyldon, numa parceria única e surpreendente. O elemento mais cobiçado do grupo foi sem dúvida Sam The Kid, que foi recebido pelo público de forma muito entusiasmante. Um revivalismo da memória interpretativa de conjugação entre funk, electrónica e hip-hop, por onde passaram os temas do novo disco dos Orelha Negra como «Throwback» e «Luta», entre outros variadíssimos temas do primeiro trabalho do grupo.

Circular para fora do Palco Sunset não foi tarefa nada fácil! As duplas filas para brindes, mais as filas intermináveis para as diversões, faziam com que andássemos constantemente a pedir licença para passar. Assentamos arraiais em frente ao palco Showcase Vodafone onde os portugueses Julie And The Carjackers apresentavam o seu “Parasol” e com o sol a dar o ar da sua graça. O ar veraneante dos elementos do grupo e o próprio clima que se fazia sentir ali no momento fez pensar, por momentos, que estávamos todos em frente a uma piscina que tanta falta fazia. “Parasol” tem temas bonitos, saudáveis para a alma e para os ouvidos, e as pessoas (poucas) até ajudaram a passar um bom fim de tarde.

Às 19 horas foi altura de abrir o Palco Mundo e nada melhor do que a banda portuguesa do momento, que leva o álbum “Utopia” de norte a sul do País. Senhores e Senhoras, directamente de Leça da Palmeira, os Expensive Soul. O concerto não trouxe nada de novo. Continuam a manter um alinhamento cheio de ritmo, com os êxitos de Verão, e que todos, de uma forma ou de outra, sabem cantar. Com um “extremo orgulho em ser Português”, palavras proferidas por MC Demo, os Expensive Soul ditam palavras de ordem como “Yo” e a malta obedece com braços no ar. A juntar-se ao grupo em palco estiveram antigos atletas olímpicos e paraolímpicos, dando e recebendo uma energia muito positiva que se fazia sentir no ar. Pode ser que desta forma os Portugueses vejam que existem mais modalidades desportivas para além do futebol e que também estamos em contagem decrescente para as olimpíadas em Londres.

Regressamos novamente ao palco Showcase Vodafone onde Os Velhos (que são novinhos) actuaram dando a conhecer o seu “roque” português de Portugal. Estes quatro companheiros recorrem às guitarras e à bateria para nos levarem a outros tempos quando eram os eruditos que ditavam e declamavam as regras de ouro. Não são dourados, mas até estavam a exibir uma performance elegante. Mas no Palco Sunset, o Boss AC, em conjunto com Zé Ricardo e mais convidados, fazia-se ouvir. Um alinhamento cheio de êxitos como «Princesa» e «Diñero» e os temas do mais recente álbum “AC para os amigos” como «Tastabater», «Gajo Normal» e, para os mais distraídos quanto ao dia da semana, «Sexta-Feira», motivo de muitas piadas ao longo do dia. Foi igualmente um momento único, bastante enérgico, e um à-vontade do artista que só é visível por inteiro em cima dos palcos.

No dia em que uma edição do Rock in Rio, seja ela no Brasil ou em Portugal, não tenha Ivete Sangalo, o festival não será o mesmo ou então não será o Rock in Rio. A mulher-furacão não fugiu ao que já nos habituou; alguma qualidade visual, mas músicas fracas e que caem em desuso. É verdade que Ivete move multidões, de miúdos a graúdos, e que faz levantar muita poeira, mas está na hora de mudar qualquer coisa… só para não ser tão previsível.

Os doismileoito podem acrescentar na história da sua carreira que tiveram, em doismiledoze, o concerto mais popular do palco Showcase Vodafone. Para abrir o mini-concerto, «Conta Comigo» contou com uma série de pessoas enérgicas e a pular dando boas vibrações ao grupo vindo da Maia. Seguiu-se o êxito «Quinta-Feira – para cantarmos todos juntos» a que o público correspondeu a 100%. A cada minuto que passava, a audiência ia crescendo e cantando de cor as letras das músicas. Só para o pessoal que nasceu nos anos 80 e 90 foi-lhes dedicado «Noventas» e, tirando a palheta colada na testa, o vocalista dá o mote para «Pés Frios», tema que dá título ao álbum lançado em 2011. “Vamos tocar a última porque a seguir vêm aí os maiores”, e lá tocaram «Bem Melhor», que justificou de facto que foi um dos melhores concertos daquele palco.

Diziam as estatísticas que mais de 50% do público presente aguardava ansiosamente pelo concerto dos norte-americanos Maroon 5. Pela primeira vez em Portugal, Adam Levine e os seus amigos trouxeram um alinhamento cheio de êxitos radiofónicos e televisivos. Até nos atrevemos a dizer que foram, a par de Limp Bizkit (cientes que são sonoridades muito diferentes) a surpresa positiva deste Rock in Rio 2012. Claro que o rock meio pastilhado funciona bem e é levado ao extremo quando Adam Levine pega na guitarra e se junta ao guitarrista James Laventine para uns pequenos solos, mas a verdade é que Adam é mais do que um sex symbol. Definitivamente, a voz comprova a qualidade dos êxitos e possui um carisma que afecta a alma das jovens. Não houve muitas palavras para o público, mas também todo o aspecto cenográfico e as próprias canções falavam por si. Os cartazes que algumas fãs exibiam também o demonstravam. «Payphone» foi a canção que abriu o espectáculo, seguindo-se de «Stereo Hearts», ambas no último disco “Overexposed”. A partir daqui foi um sem fim de êxitos que vão desde o primeiro álbum, que rebentou a escala de sucesso e que conta com 10 anos de vida. Extraídos desse álbum estão os singles «This Love», «Harder To Breath», que antes inicia com a introdução de «Power» de Kanye West, e «Sunday Morning». Depois tocaram «If I Never See You Again», que na versão original tem a voz de Rhianna, e continuaram com «Misery», concluindo com «Makes Me Wonder». Com o púbico rendido a seus pés, Adam Levine provou ser um óptimo anfitrião e que de facto Maroon 5 é a sua imagem, a sua alma e a sua beleza. Já era noite cerrada, mas «The Sun» iluminou a alma de todos e «Won’t Go Home Without You» trouxe também o refrão de «Roxxanne» dos The Police. Todos queriam mais um «One More Night» com a banda, mas, para terminar em alta, «Wake Up Call», «Moves like Jagger», «Hands All Over» e, dedicada a todas as mulheres presentes, o acústico de «She Will Be Loved». Foi o melhor do dia e a prometer um regresso em nome próprio!

White Denim foram os únicos estrangeiros no Vodafone Showcases, e também um pouco estranhos, para quem nunca ouviu falar deles. Vieram do norte da América, de uns Estados Unidos que lança grupos todos os dias. Marcaram a diferença positivamente, mas com pouca assistência porque esta corria de novo para o Palco Mundo para a aguardada actuação de Lenny Kravitz.

Para além de ter começado ligeiramente atrasado, Lenny não parecia estar a corresponder com as expectativas logo no início do espectáculo. «Come On Get It», do seu mais recente disco “Black and White America”, foi o mote para o começo do concerto, seguido de «Always On The Run» e o êxito «American Woman». Por entre o alinhamento, as longas pausas para agradecimentos à organização e elogios ao público, Lenny Kravitz não mostrava nada de impressionante e incrivelmente mágico. Era suposto ter superado o patriota Adam Levine, mas não o fez. Não acreditamos que seja uma questão de idade ou de estatutos, porque ambos têm magníficos êxitos, mas Lenny não superou as expectativas. De óculos escuros e bem agasalhado, lá interpretou «It Ain’t Over Till It’s Over» para os corações apaixonados, «Mr. Cab Driver», e a canção que dá titulo ao último disto já aqui mencionado. Repleto de grandes êxitos, desfilaram «Fields Of Joy», «Stand By My Woman», «Believe», «Stand». Para terminar ainda com estilo, quando Lenny era considerado dos homens mais sexy de meio mundo e tinha outro meio mundo a seus pés, resultaram as canções «Fly Away», «Are You Gonna Go My Way» e «Let Love Rule» que aqueceram todos os presentes.

Não foi o dia que mais aqueceu em termos de grandes concertos para a vida, mas será para mais tarde recordar com carinho. Hoje haverá mais gargalhadas, mais novidades, e mais música.

Reportagem do primeiro dia do Rock in Rio 2012 aqui; segundo dia aqui; quarto dia aqui; quinto dia aqui.

Fotografia por Manuel Casanova. Galeria do primeiro dia do Rock in Rio 2012 disponível aqui; segundo dia aqui; terceiro dia aqui; quarto dia aqui; quinto dia aqui.



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