Rock in Rio 2012 | Dia 5 (03.06)

Rock in Rio 2012 | Dia 5 (03.06)

Um (ou O) dia que valeu pelos cinco

Durante o caminho para o Parque da Belavista, já se começava a sentir uma certa nostalgia justificada por ser o último dia do Rock in Rio 2012 e uma certa ansiedade para que chegasse ao último artista da noite – Bruce Springsteen. Mas enquanto ainda era cedo, para quem queria entrar dentro do recinto apenas lhe restava ter um pouco mais de paciência com a fila gigante e ir tirando as tampas das garrafas para não perder mais tempo. Quem já tinha conseguido ultrapassar os “100 mil metros barreiras” não perdia a oportunidade de levar mais um saco e um sofá insuflável para compor o resto da sala…

Aproveitando o último passeio do dia, espreitámos o palco Showcase Vodafone, onde ocorria o momento em que os lobos foram encarados pel’Os Lacraus que ainda convidaram Samuel Úria a subir ao palco. Mas a essa hora já estavam perto de 30 mil pessoas e o Palco Sunset, já estava composto durante a actuação de Carminho, a actual promessa do fado (mas graças a nuestros hermanos) com Pedro Luís, prometia encher. A nova sensação da música brasileira, Mallu Magalhães, juntou-se a David Fonseca e os seus fantásticos músicos para uma actuação recheada de beleza, mas com alguns flops. O alinhamento foi partilhado; entre as novas músicas do recente “Seasons: Rising” e entre o último disco de Mallu a tornar-se um êxito viral via internet, de onde se destacou o single «Velha e Louca». Quanto à performance de David Fonseca pouco há a dizer: fantástico, divertido e irreverente q.b., de modo a lotar o espaço reservado ao público. Quanto a Mallu, é um facto que a menina-mulher cresceu e de forma muito saudável graças à sua união (musical e matrimonial) com Marcelo Camelo, mas mesmo assim as expectativas ficaram aquém do esperado quanto à sua voz. As músicas, essas, ganharam uma roupagem fresca e açucarada, mesmo tendo sido abruptamente silenciada por algumas quebras de energia. Mas no geral, nota 10!

Nota mil vai para mais um concerto dos Kaiser Chiefs em terras nacionais. Por mais que assista a um concerto do grupo britânico, nunca deixo de ficar verdadeiramente surpreendida. Foi pena não terem dado tantos souvenirs quanto isso, pois continuam a sobreviver à sombra dos êxitos do primeiro disco “Employment”, mas apresentaram ainda uma musiquinha nova de agrado geral: «On The Run». A empolgante e rebelde exibição de Ricky Wilson já é do conhecimento de todos e continua a surpreender-nos. Com um look bastante cool – óculos à Harry Potter e um corte de cabelo à tigela, o vocalista exibia-se imperativíssimo de frente para as câmaras em gestos simpáticos. As letras de «Never Miss A Beat», «Everyday I Love You Less and Less», e também «I Predict A Riot» e «Ruby», foram interpretadas empolgadamente pelas pessoas em redor. Mas foi na penúltima música, em «Take My Temperature», que Ricky Wilson fintou seguranças e correu para a torre do Slide, colocando capacete (até acabou por tirar a touca de protecção, levando só o capacete) e descendo suspenso no ar fazendo as maravilhas dos presentes e deixando todos de boca aberta. Em «Oh My God» acabou por voltar até junto do público distribuindo abraços e ficando com um cachecol de Portugal. A banda voltará a Portugal em Julho para o Festival Marés Vivas. O que inventará ele nessa altura?

A primeira nota ao leitor: no Palco Sunset, Rui Veloso e Erasmo Carlos estiveram numa simbiose quase perfeita; no Palco Mundo ainda houve Xutos & Pontapés sem novidades no seu alinhamento, e no palco Showcase Vodafone passaram os The Poppers (com Sean Riley como convidado), Samuel Úria e Os Pontos Negros que exploraram as novas canções de “Soba Lobi”. Realmente foi pena não termos conseguido dar a atenção devida a estes nomes que merecem a nossa atenção, mas o calor em conjunto com o cansaço acumulado e os atrasos ou adiantamentos nos horários não nos permitiu.

Se os Kaiser Chiefs vão ao Festival Marés Vivas este ano, se calhar ainda pediram sugestões a outros veteranos em solo nacional. Os James, também vindos de terras de Sua Majestade que festeja o seu jubileu de reinado, marcaram presença no certame na edição passada, num concerto que correu bastante bem. O grupo que conta com 30 anos de carreira tinha a função de animar as já 75 mil pessoas que se encontravam presentes. Logo a partir da segunda música, «Laid», Tim Booth e os seus companheiros brindaram-nos com um alinhamento preenchido com todos os êxitos. O seu trompetista, exibindo a camisola 7 da Selecção Portuguesa, fazia com que alguns elementos do público exibissem com orgulho as suas bandeiras.

E se o olhar de Tim Booth transmite calma e paz a quem o olha profundamente nos olhos, este transforma-se por completo a meio de todas as músicas, dançando de forma extravagante e exuberante. Por vezes lembrei-me que aquela forma estranha de dançar conseguiria ultrapassar a irreverente dança de Adolfo Luxúria Canibal, líder dos Mão Morta que actuaram no primeiro dia de festival. Por entre o alinhamento, o destaque vai para «She’s a Star», em que Tim cantou metade da música em cima das grades agarrado à mão de uma fã e o guitarrista da banda foi ainda tirar uma foto ao público em «Getting Away With». Tim Booth partilhou com o público, e de certa forma emotivo, a história de ter ido ao concerto de Bruce Springsteen quando tinha 17 anos e de ter chegado ao final de terceira música com um sorriso de orelha-a-orelha. Aplauso geral, público rendido e outra música épica, «Out To Get You», que teve um início calminho como uma bela balada e Saul Davis a finalizá-la com o seu frenético violino. «Tomorrow», «Sometimes» e «Sit Down» foram as três últimas canções do alinhamento, comprovando que mesmo que estas canções tenham longos anos, continuam a preencher a vida dos portugueses. Houve também um momento ultra especial e que deixou-nos a todos estupefactos pela surpresa e pela mensagem em si. Saul Davis colocou-se em tronco nu com a frase “No Jobs For The Boys” pintada no corpo em tons de verde e vermelho e, para além de ter partilhado o seu amor pela sua esposa (de nacionalidade portuguesa por sinal), fez um apelo ao Governo Nacional pelo fecho de escolas e as medidas de autoridade que o País enfrenta desejando a todos “boa sorte”.

Eram 23h40, hora marcada para a actuação da última cabeça-de-cartaz. A adrenalina invade-nos o corpo, assim como alguns encontrões de quem está em êxtase e a tentar ficar colado às grades para receber o Boss. Perante as estatísticas da organização, estavam 81 mil pessoas no recinto à sua espera. Mas só passados outros 30 minutos é que o cantor norte-americano e a sua The E Street Band sobem ao palco. Resumindo tudo numa só palavra: soberbo!

A jovialidade de Bruce Springsteen e o seu ar de eterno arrasa-corações junto do público feminino, e de roqueiro para o público masculino, mantém-se inalterável. “Boa noite Lisboa. Como estão?” foram as primeiras palavras dirigidas ao público ditas num português quase perfeito e totalmente perceptível. Uma forma genial de agarrar o público. “Todas as músicas são sobre coisas boas e que ficam para sempre” continuou, ao deixar visível que estava a ler um texto, mas que compreendia muito bem o que estava a dizer. Do público era possível ver centenas de cartazes como “Bruce, Shake My Hand” ou pedidos de músicas. Com «We Take Care of Our Own», single em alta rotação nas rádios e que pertence ao seu último disco de originais, «Wrecking Ball» e «Badlands», Bruce Springsteen prova que é dono e senhor da banda, um óptimo líder e bom orquestrador de canções, irrompendo de um lado para o outro de todo o palco Mundo e saltando para o meio do público. Da ida ao público, Bruce trouxe dois cartazes: “She’s The One” e “I’m On Fire”, e lá lhes fez a vontade interpretando os temas. Como um artista só não faz uma boa carreira, The E Street Band contribuiu bastante para o bom sucesso de Bruce. A cumplicidade entre eles é esmagadora e exemplar.

A meio do espectáculo, outro ponto alto da noite. «Waiting On A Sunny Day» estava ao rubro com milhares de pessoas a fazer de coro no refrão, crianças e mulheres às cavalitas dos seus amigos e familiares quando Bruce chamou ao palco, e aqui de forma verdadeiramente aleatoria, uma criança do público para cantar o refrão com o próprio. O momento mais ternurento a que assistimos em todo o certame. «Thunder Road» acaba a suposta primeira parte do espectáculo e nem foi preciso ninguém pedir um encore. Bruce e os seus companheiros dedicam a todos os seus seis êxitos mais badalados do mundo: «Born in the USA», «Born To Run», «Glory Days», «Seven Nights To Rock», com o baixista a entornar água para o rosto de Bruce, e «Dancing» com mais duas senhoras escolhidas no público e que se agarraram a ele tal como miúdas de 15 anos que veneram o seu ídolo. O fogo-de-artifício já coloria o céu, mas Bruce permanecia em cima do palco a cantar «Tenth Avenue Freeze-Out». Não é para desfazer de todos os concertos a que assistimos, mas este, em especial, foi mesmo um grande concerto!

A segunda nota ao leitor: o balanço deste Rock in Rio 2012 é bastante positivo. Embora tenha tido um cartaz contestado por algumas repetições, são estas repetições que tornam o evento especial. Na nossa opinião, os Limp Bizkit e os Kaiser Chiefs deram o melhor espectáculo (pela interactividade do público e por nos deixarem um pouco receosos tendo em conta a carreira das bandas). Mas grande, grande, grande, só o Boss! Em 2014 haverá mais!

Reportagem do primeiro dia do Rock in Rio 2012 aqui; segundo dia aqui; terceiro dia aqui; quarto dia aqui.

Fotografia por Manuel Casanova. Galeria do primeiro dia do Rock in Rio 2012 disponível aqui; segundo dia aqui; terceiro dia aqui; quarto dia aqui; quinto dia aqui.



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