Rocky Marsiano

A fusão do jazz com o hip hop na primeira pessoa. Entrevista com um dos mais importantes impulsionadores desta cultura urbana em Portugal.

Rocky Marsiano, nome que surgiu como alcunha e que acabou por pegar, é o alter-ego de D-Mars, o luso-croata vocalista dos Micro. Lançou recentemente “The Pyramid Sessions”, uma agradável fusão do hip hop com o jazz, que resulta em 14 faixas de um álbum que poderia ter uma só, pela facilidade com que se ouve de uma ponta à outra sem que disso se dê conta. Dada que estava a desculpa para uma conversa com D-Mars, passamos então a descobrir um pouco do seu percurso e, entre outras coisas, o passado e presente do hip hop em Portugal.

RuadeBaixo – O teu percurso no hip hop começou basicamente com o Rapublica. Como é que este projecto surge e como participas nele?

Rocky Marsiano – Naquela altura, existia o programa do José Mariño na Rádio Energia ainda que era como que uma espécie de ponto de encontro, de troca de telefones até, do pouco movimento que existia. De pessoas interessadas e entusiasmadas com esta nova linguagem que era o hip hop. No princípio conheci as primeiras pessoas, o Melo D, o Boss AC, os Zona Dread, que me convidaram para a banda. Passados poucos meses integramos aquele grupo restrito de bandas que fizeram o Rapublica, onde eu ainda consegui por lá um projecto que estava a produzir, o Funky D. Surgiu assim… éramos muito poucos. Quase não houve bandas de Lisboa que ficaram de fora.

RDB – Este projecto teve um timing muito específico. Foi dos primeiros que trouxe o hip hop ao público…

RM – Foi. O primeiro álbum foi esse. Antes o que saiu foi o EP do General D, que em termos de produção e qualidade era muito melhor que o Rapublica, que foi muito fraco. A editora não apostou a nível de produção. Nós é que tivemos de safar tudo no estúdio sem perceber nada daquilo. Mas foi uma espécie de comboio que tivemos de apanhar, senão não fazíamos nada. Hoje agradeço ter feito parte dessa geração.

RDB – Achas que teve importância no hip hop? Qual achas que é o maior benefício que esse projecto, e outros como ele, dão para a música nacional?

RM – Este trouxe toda uma geração que começou a ouvir hip hop português nessa altura. A partir daí, tornou-se mais ou menos normal. Foi um acumular… nessa altura saíram coisas muito boas, como o álbum dos Mind da Gap, muito bom em termos de produção, feito com dinheiro, estúdio da Valentim de Carvalho etc…

RDB – Havendo dinheiro, as coisas tornam-se diferentes?

RM – Não é só o haver dinheiro, é a forma como é aplicado. Por exemplo, o álbum dos Líderes d’1 Nova Mensagem devia ter saído dois anos antes, porque tinha um som muito específico e bom, bem produzido mas fora de prazo. Eu então deixei aquela banda, por razões de diferenças de mentalidades e tudo… aí fundei os Micro e com eles comecei um processo de revitalização do nosso movimento underground, para aquela geração que começou a ouvir o Rapublica.

RDB – Como vês o hip hop agora?

RM – Em Portugal, deixei de pensar um pouco nisso, principalmente nos últimos dois anos. Quero fazer a minha cena e começar a olhar para isto mais como música e tentar desenvolver a minha actividade de músico, ligado ao hip hop mas com uma mentalidade mais profissional. Acho que muito poucos vêem isto de uma forma profissional e isso reflecte-se na maneira como nos vêem de fora. Se calhar olham para nós de uma maneira muito diferente daquilo que eu gostava que nos vissem. Existe muita imaginação e talento no hip hop em Portugal, só que falta depois esse à-vontade… talvez mais experiência e idade.

RDB – Não achas que a percepção do que as pessoas têm do que é o hip hop pode não corresponder ao que vocês acham que é o hip hop? Por exemplo, achas que Da Weasel é hip hop?

RM – Da Weasel é uma banda que usa alguma da linguagem do que é o hip hop. As pessoas associam-nos ao hip hop por isso. E com resultados bons, principalmente do último álbum, onde eles se reaproximaram dessa linguagem e é o álbum que está a vender mais. Indirectamente, isso acaba por ser benéfico para mim e para todos que fazem hip hop.

RBD – Desperta a atenção para o género?

RM – Desperta. Talvez de uma maneira que nos não aceitamos à primeira, mas temos de compreender as regras do jogo.

RDB – A mensagem que se quer transmitir com o hip hop, e que está inerente ao género, passa se for “demasiado comercial”?

RM – Ultimamente, confunde-se a parte criativa e imaginativa de gajos como o Madlib que são completamente do “meio” e estão a criar um culto fora dele. E continuam a ser “underground”. O Madlib não é o 50 Cent. Hoje existe uma popularização de uma percentagem do hip hop, mas que passa a ser pop… passa na MTV e faz parte da forma como a juventude em todo o mundo se veste hoje em dia. Há marcas e lojas inteiras que cresceram à sombra do hip hop.

RDB – Mas o hip hop tem ganho mais força em Portugal?

RM – Não. Se tivesse ganho, os discos vendiam mais. Vai-se sobrevivendo… como a Loop. Também sobrevive, não anda a enriquecer com o hip hop.

RDB – Falando agora da Loop Recordings… como é que ela surge e a ajudas a fundar?

RM – Eu tinha experiência própria de editar sons. O Rui Miguel trabalhava na Norte Sul e fez todo o trabalho dela nos anos ’90 principalmente.
A Loop surge na sequência de dois workshops que o Rui me convidou a fazer no Alentejo onde íamos uma ou duas vezes por semana e onde fomos trocando impressões e, primeiro, surgiu a possibilidade de os Micro irem para a Norte Sul. Isso estava encaminhado, mas ele saiu de lá. Então, ele disse-me que ia fundar uma editora e a coisa foi quase mútua. A partir daí, foi trabalhar. O capital era nenhum. O que tínhamos era experiência. Tínhamos material e uma banda pronta a entrar em estúdio, que foram os Micro, e logo marcamos a diferença editando um EP, o Demo Style, que fazia um contributo à “velha escola” e que ninguém estava à espera. Essa diferença tem-se mantido, através de edições, às vezes estranhas, mas sempre fazendo música de que nos gostamos.

RDB – E como tem sido a sua evolução?

RM – Lenta, mas estamos cá e orgulhosos dos álbuns editados. Alguns fizeram milagres, como os instrumentais principalmente, porque foram uma novidade em Portugal e um tiro no escuro. O primeiro foi o de Bulllet, que foi muito aclamado e vendeu relativamente bem e depois o instrumental de Sam the Kid, que provocou reacções que não esperávamos. Agora temos os Vicious5 em estúdio, que são uns monstros, especialmente ao vivo.
A nível do dinheiro, está-se muito mal. Não conseguimos viver da editora. Tentamos manter as contas em dia, principalmente com os artistas e compensá-los quando há falhas nesse sentido, dando-lhes quase a nossa alma.
Nós gostamos de trabalhar com músicos que vêem isto como uma parceria.

RDB – Agora falando do teu álbum, como surge este projecto completamente diferente do que andavas a fazer com os Micro?

RM – Surge um pouco como a junção de várias coisas. A minha intenção de fazer um álbum instrumental já existia e eu andava a tentar apanhar coisas mais ligadas ao funk porque queria fazer um álbum que fosse uma banda sonora para break dance, só que acho que ia ser muito dificilmente compreendido em Portugal.
Este álbum surge na sequência de uma fase pessoal em que comecei a ouvir jazz com outros ouvidos do que antes, mas o jazz sempre esteve presente na minha vida através do hip hop. Por estar então mais disposto a ouvir os discos de jazz que tinha em casa, comecei a pensar em fazer um álbum com MC’s a rimarem em cima, sempre com os instrumentais de jazz que abandonei. Por várias razões, primeiro porque já foi feito. Não em Portugal, mas lá fora. Depois porque não me apetecia trabalhar sempre com os mesmos MC’s e tinha de o fazer porque existem só uns cinco ou seis com quem eu consigo trabalhar.
Então comecei a pegar em alguns instrumentais que tinha feito antes e depois entrei numa onda de inspiração pura. Durante muito pouco tempo, trouxe o sampler para casa. De manhã à noite só ouvia os discos e fazia beats e de uma maneira muito consciente porque já estava a pensar no álbum e pensar em cada tema como uma canção, tentando que cada uma soasse o mais diferente possível de outra e fazer uma espécie de meu álbum de jazz. Rearranjado, reinterpretado a partir dos originais, mas na linguagem de hip hop. Podem dizer que é um álbum de jazz que usa a linguagem hip hop ou um álbum de hip hop que utiliza a linguagem do jazz.

RDB – O processo criativo foi então muito rápido…

RM – Sim. Durou cerca de duas semanas, no máximo. Depois a parte da gravação dos instrumentalistas também foi muito rápida e a mistura então mesmo muito rápida porque ia de férias para a Croácia e queria fazer a mistura antes de ir, porque mais tarde não fazia sentido. A mistura foi uma continuação de todo o processo e é onde eu aperfeiçoo as coisas, não querendo só fazê-las soar bem.

RDB – O teu álbum pode então ser visto como uma só faixa, porque tem todo um sentido e um rumo que o tornam lógico?

RM –
A ideia era simples, fazer um álbum quase todo instrumental e ligado ao jazz para tentar fazer com que fosse interessante. Por isso trabalhei muito na estrutura de cada tema, a sacar cenas de vários discos e juntar músicos que nunca tocaram juntos num só disco. A forma como fiz o alinhamento ficou para o fim e já foi pensado dessa forma. Que fosse como uma viagem. As técnicas de produção, tentei variá-las ao máximo. Há um tema até em que nada é samplado, outras onde usei cenas que nem eram do jazz mas que tentei que soassem como se fossem.

RDB – Este álbum foi então um desafio que está ultrapassado?

RM – Sim… agora não sei se o venci. Acho que quando se faz música, dificilmente estás satisfeito com o que fazes. Mas pela reacção de quem anda a ouvir, começa a preencher-se essa lacuna. Mas eu nunca estou satisfeito, acho sempre que podia estar melhor.

RDB – Isso acontece com o “The Pyramid Sessions”? Podia ser melhorado?

RM – Há faixas com as quais estou satisfeito, mas há outras que, por efeito de o ouvir tanto, acho que não está perfeito. Mas nunca caí na tentação de o alterar durante este tempo todo. Quis mantê-lo cru e tive muito medo da reacção por ser uma coisa diferente.

RDB – Como tens aceite as reacções?

RM – Têm motivado. Em alguns casos deixa-me irritado porque tive de fazer uma coisa assim, para as pessoas perceberem que eu sei fazer música. Mas por outro lado, é completamente compreensível esse raciocínio, porque todos nós vemos uma pessoa apenas pelo que conhecemos dela. Mas acho que fiz coisas ultimamente que já podiam ter dado esse reconhecimento, como o álbum dos Ofício.
Mas eu aceito todas as críticas, boas ou más.

RDB – Este disco pode resultar ao vivo?

RM – Vai resultar. Já tenho o guitarrista, o T One, que está comigo desde o início e sempre lhe disse que depois faríamos isto ao vivo. Ultimamente tenho pensado mais nisto, porque não me atraía a ideia de simplesmente “dar” música e ser quase DJ. Embora eu ao vivo tencione fazer uma coisa muito diferente do álbum e fazer basicamente uma enorme jam session. Trazer os beats, mas refazer tudo e ir pondo ou tirando sons conforme os músicos forem tocando. Vou ter o privilégio de ser acompanhado por músicos de Jazz e quero tornar o público participante do show porque estou habituado a tê-los quase em cima do palco como MC, que dá outra motivação. Basicamente, cada concerto vai ser diferente do outro…



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