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Rodrigo & André

Fazer filmes é a única motivação de um bando à parte que diz não desistir da poesia do cinema e dos seus sonhos. Foi num dia de celebração cinéfila, dos vinte anos da Medeia, que Rodrigo Areias e André Gil-Mata conversaram connosco. O assunto, claro, foi o cinema.

É um Domingo de frio e no Shopping Cidade do Porto celebra-se os vinte anos da Medeia Filmes. Rodrigo Areias e André Gil-Mata recebem-nos num cantinho do centro comercial depois de duas sessões de cinema e ansiando pela próxima. São assim estes cineastas. Quando não estão a fazer filmes matam a fome com o cinema dos outros.

O Bando

“Corrente” e “Arca d’Água” têm alguns traços em comum: uma forte relação entre o espaço e os personagens e também uma certa intemporalidade, no sentido em que são dois filmes que podiam ter sido feitos há bastante tempo…

Rodrigo Areias: Faz sentido, deve ser o ponto em comum, além da água. A nível formal há menos. No fundo acho que tem a ver com a vontade de ver e fazer cinema de uma forma mais ligada com a sua história. Por detrás dos dois filmes estão razões distintas. Tínhamos acabado de fazer uma longa, na qual o André também participa [Tebas], filmada em vídeo, feita com a vontade de querer fazer tudo e por alguém que no fundo ainda não tinha feito grande coisa. Na ressaca desse processo lento decidi fazer um filme muito mais simples, directo, mais cru. Partimos para uma mina, uma equipa de meia dúzia de pessoas, estivemos cinco dias dentro de água a filmar divertidos e com uma série de apoios que garantiam que a coisa podia correr bem.

André Gil-Mata: No meu caso teve mais a ver com o facto de estar a tentar terminar um filme e não conseguir. Houve uma altura em que fiquei mais em casa e o cenário do “Arca d’Água” é a vista que tenho do meu quarto. Foi uma tentativa de sair daquela coisa de não conseguir fazer o filme e estar bastante chateado comigo.

Qual é o filme?

AGM: O coveiro.

RA:
É um projecto que engloba várias técnicas diferentes: animação, imagem real, incrustação de imagem real e animação. Foi começado sem qualquer tipo de financiamento, que depois conseguimos, entretanto tivemos uma série de revezes e está neste momento numa fase final. É um filme demorado.

O que é o Bando À Parte?

RA: É uma produtora de cinema, somos mais pessoas do que o costume mas trabalhamos nos moldes normais. Continuamos o que eu quis fazer na Periferia Filmes e que a partir de certo ponto não foi possível. Fazemos alguns filmes sem qualquer tipo de financiamento, muitos felizmente com financiamento, e vamos gerindo uns e outros dentro do possível.

Há uma motivação autoral…

RA: Sim, sempre. Agora tivemos a co-produzir duas longas, uma do F.J. Ossang [A Sucessão de Starkov] e uma do Edgar Pêra [O Barão]. Foi preciso passá-las para a Cinemate como produtora maioritária, senão não teríamos hipótese: o do Ossang não seria feito em Portugal e o do Pêra não seria, pura e simplesmente, feito. Estamos interessados em fazer filmes mais do que ser os produtores. Felizmente estes que passam hoje numa sessão dos vinte anos da Medeia vão estar em sala. De certa forma acho que o Paulo Branco (depois de termos alguns atropelos na vida) se reviu nesta atitude. Percebe que às vezes fazemos filmes sem um chavo e decidiu também dar uma mão. E conseguir ter curtas no circuito comercial neste país é impensável, principalmente um bloco assim cujo título é “Sobre Água”: quatro filmes altamente autorais conjugados de forma a serem uma sessão comercial. É porreiro da parte dele.

O cinema em Portugal

Existe algum problema com o cinema português?

RA: O problema não é do cinema português, é do rumo da actualidade. Hoje foi a ante-estreia do Cinerama [de Inês Oliveira] e estavam dez pessoas. Uma cidade como o Porto onde há três universidades ligadas à arte cinematográfica e apareceu um gajo duma escola, o Saguenail, que não podes considerar professor porque é muito mais do que isso. Não há mais ninguém que dê aulas nesta cidade que aparecesse. Veio um aluno da ESAP e não apareceu mais ninguém. Se as pessoas que querem fazer cinema não vêem cinema… É estranho, não é? As pessoas normais fazem downloads de filmes onde se vê as cabeças das pessoas e não têm som. E vêm aquela merda… que um gajo pode dizer merda três vezes porque não tem outro nome. As coisas estão a mudar, e tu não tens necessariamente que mudar. Um gajo pode dizer: “Eu gostava de escrever. Mas gostava de escrever poesia, e o que me dá de comer é só escrever para a revista Maria. Mas foda-se, não me apetece escrever para a Maria!”

O problema será então essa dificuldade de comunicação com o público.

RA: Acima de tudo é essa a batalha.

AGM: É difícil, o público perdeu nos últimos anos a habituação de ir ao cinema.

RA: Os nossos hábitos culturais são muito fraquinhos. Podemos comparar com os espanhóis: o cinema deles é mais próximo do mainstream do que o nosso mas vais à cinemateca de Madrid e aquilo está sempre cheio. As pessoas estão a beber cervejas e a comer tapas e cañas à porta e depois entram e vão ver filmes, uma coisa que nós não fazemos.

Mas o próprio cinema comercial espanhol comunica com o público de uma maneira diferente, que tem mais a ver com eles…

RA: O nosso modelo é copiado do modelo francês desde os anos sessenta mas não temos os hábitos culturais deles, que nos dez filmes mais vistos do ano têm sete franceses. A última vez que li uma estatística dizia que 86% do cinema que víamos era americano. Só os EUA é que tinham este nível, mais nenhum país no mundo.

De quem é a culpa?

RA: Para podermos ser um país evoluído há um processo evolutivo ao qual nós não conseguimos chegar. A cultura é o estádio a seguir à educação e o nosso problema parte da raiz, a educação. Se a malta não lê e não sonha, não…não sei…

André, tu desististe de 3 cursos. Tens alguma coisa a apontar à educação?

AGM: Tenho várias coisas a apontar mas…

RA: Mas ficávamos aqui até amanhã…

AGM: É um bocado estranho dizer “educação do público”, parece que queremos fazer com que as pessoas gostem ou se interessem por isto ou aquilo, mas eu acho que, da mesma forma que há este estado consumista que obriga as pessoas a irem ver os filmes americanos, devia haver um peso na balança por parte do Estado ou dos privados que têm fundo de maneio para contra-balançar isso e abrir outras salas, chamar pessoas, para não ficarmos sempre nas mesmas discussões. Acho que falta as pessoas agirem…

RA: Ficamos na reacção e nunca na acção. Não acredito que as coisas mudem. Talvez no sentido em que haverá menos cinema de autor… Neste momento há dois fundos de cinema: o ICA e o FICA, para cinema assumidamente comercial, que seja rentável, o que eu acho altamente plausível e benéfico para o cinema português porque há que alimentar uma indústria…

E essa indústria existe mesmo em Portugal?

RA: Existe. Está é minada pela publicidade. Há muitos profissionais do cinema, mas se ganham €5000 num fim-de-semana a fazerem publicidade e a fazerem 72 horas seguidas, a trabalharem horas extraordinárias, de sono, de descanso… tudo somado dá uma barbaridade. E a geração que fazia publicidade para poder fazer cinema já acabou. Não queria insultar as pessoas a chamar-lhes mercenários porque cada um tem a sua vida e sabe de si, mas a poesia do cinema que existe em muitos sítios, cá só com os resistentes. E há muitos, por isso é que os nossos autores são tão radicais. E são esses que sobrevivem e que são os comerciais, porque são os que arranjam subsídios, esta é que é a verdade. Até há pouco tempo só havia dois gajos que conseguias exportar e tornar os filmes rentáveis: o Oliveira e o César Monteiro. O Pedro Costa finalmente entrou no mercado americano e o japonês está ali, vai não vai…
E esse é que passa a ser o único gajo rentável.

Aos vossos olhos esse trabalho de exportação é bem feito?

RA: É. Exemplo: Leonel Vieira. Pessoalmente, gosto mais dele do que dos filmes dele. O prisma dele de exportação é fazer filmes de série b americanos ou mexicanos e tentar chegar aos EUA ou ao México, o que é impossível. Eles fazem 100 filmes por ano àquele nível e melhor. Há sempre o exemplo que toda a gente traz para a mesa, o Cidade de Deus, é um filme do cacete que furou. Retrata uma realidade muito específica e é tão brasileiro que é universal. É um bocado aquilo que nos falta.
O que nós conseguimos exportar é sempre peculiar…

RA: O “Recordações da Casa Amarela” [de J.C. Monteiro] é um microcosmo lisboeta que se torna universal. O Pedro Costa vai às Fontainhas e filma-as até à exaustão. É algo que é muito específico, muito próximo da vida dele. Os filmes devem ser pessoais o suficiente para serem interessantes para toda a gente. Quando partes do pressuposto vou-fazer-uma-cena-que-toda-a-gente-vai-gostar dá sempre merda.

O futuro

De novo o público, as pessoas já não querem sair de casa para ver um filme…

AGM: As salas comerciais, com isto dos downloads, vão acabar por fechar. As outras acho que vão acabar por reabrir porque quem gosta mesmo de ir ao cinema vai sentir essa necessidade.

RA: Agora há o 3d, meu! Esses filmes infantis são brutais enquanto experiência de cinema. Há uma geração que começa a ver filmes infantis agora e daqui a 10 anos para ver uma cena dessas, só um nicho de mercado. Já hoje dizes a um puto: “Anda ver um filme do Melville”. Ele responde: “Quem? Deixa-me estar aqui que vai dar os Morangos com Açucar”. Esse é o problema: a malta é bombardeada com estupidez. E a estupidez em insistência, estupidifica.

AGM: Tal como temos que pagar impostos para passar filmes, os Morangos com Açucar e isso, deviam pagar impostos por estarem a destruir tudo o resto.

RA: Estão a estupidificar uma geração duma tal maneira que não há retrocesso.

A nível de linguagem estão a atrofiar completamente a receptividade do público…

RA: Eu não tive tv durante mais de dez anos e lembro-me que da primeira vez que vi os Morangos com Açucar parecia um velho. Ria-me e dizia: “Tens que vir cá ver esta merda. Está a dar uma cena incrível. Nunca vi nada tão atrasado mental!”. Eu julgava que aquilo era absolutamente fora do normal. Depois vi que não, eu é que era um bicho do buraco.

AGM: Deve ser chato para os professores, tentar fazer um trabalho de educação e existir uma coisa aglutinadora, a televisão, a fazer o trabalho inverso.

RA: É uma luta injusta.

AGM: Eu se fosse professor partia as televisões todas.

RA: Os plasmas é que era! E os LCD’s… Odeio essa merda toda.

O futuro para o Bando À Parte é então continuar a ser um bando e continuar à parte…

RA: Sim, deve-se fazer aquilo de que se gosta e acho que isso é do tipo de sonhos que deviam ser incutidos nas crianças. O problema é que começam a querer fazer as pessoas acreditarem que não é possível seguirem os sonhos e isso é o pior da nossa cultura. De cada vez que saio deste país vejo que têm menos medo do que nós em acreditarem nesses sonhos e os tornar realizáveis. Para ser feliz ninguém precisa de ter iates e loiras de biquíni.

Posso dizer que o Bando À Parte é uma plataforma para se conquistarem sonhos?

RA: Nós fazemos filmes, é o meu sonho.

AGM: Também o meu.

Nota: “Sobre água” é uma sessão constituída pelas curtas Corrente de Rodrigo Areias, Arca d’Água de André Gil-Mata, Crime Abismo Azul Remorso Físico de Edgar Pêra, e Ciel éteint! de J. F. Ossang. Estará em exibição de 7 a 14 de Janeiro em Lisboa, no King, e de 14 a 21 no Campo Alegre no Porto.



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