Ólafur Arnalds

Rodrigo Leão & Ólafur Arnalds @ Centro Cultural de Belém

Um belíssimo concerto de dois músicos impares, que juntos tornam lugares comuns em espaços mágicos e de sonho

Depois dos concertos de Coimbra e Porto, eis que chega a altura do Grande Auditório do Centro Cultural de Belém acolher o evento que junta o multi-instrumentalista islandês Ólafur Arnalds e o compositor português Rodrigo Leão. Dos antecessores sabemos que a simbiose entre ambos é grandiosa, por isso é grande a expectativa.

A sala enche lentamente; no entanto não deixa de esgotar.

A última chamada é feita, apagam-se as luzes e sobe a palco Ólafur. Bem disposto, pede a colaboração do público de forma a gravar as vozes “em si” de forma a usá-las na primeira música. Mas a tecnologia tem coisas curiosas, e até aqueles equipamentos que dizem que nunca bloqueiam pregam partidas… Problema resolvido com bastante humor do músico, e dá-se inicio ao concerto com «You are the sun». Em palco com um quarteto de cordas (três violinos e um violoncelo), percebe-se um pouco como é feita a sua música, recorrendo a samples, loops e distorções.

Arnór Dan junta-se a palco para ajudar nas vozes. Aliás, é ele que empresta a sua voz a todas as músicas de Ólafur. «For now I am winter» é tocada em camadas, layer por layer, dando-lhe uma profundidade que nos leva para fora do Auditório, para paisagens frias apenas aquecidas pelo abraço da voz.

O jovem músico islandês não se inibe de falar com o público, mostrando-se muito feliz por estar em Portugal, e bem-disposto ao partilhar as histórias por detrás das suas composições. E, neste contexto, explica que é bastante amigo de Arnór, e que vão a um bar regularmente, talvez demasiado regularmente, brinca, e que depois de alguns copos de vodka acabam sempre por ter ideias, considerando-as até bastante boas na altura. E uma das boas ideias que tiveram numa dessas noites foi a de fazer uma música para o Euro-Festival da Canção! Perceberam no dia seguinte que apenas uma parte da ideia era boa, a de criar uma música, e que a outra era realmente tonta. E assim nasceu «Old Skin» e o início da colaboração dos dois.

Depois de ouvirmos «Near Light» entra Rodrigo Leão acompanhado da acordeonista Celina da Piedade. Mais uma vez, Arnalds faz de cicerone e conta-nos a origem da próxima música. Aparentemente foi convidado a fazer uma música para um anúncio de banheiras que tinha um conceito muito “fora da caixa”; envolvia o Rio Sena, baleias, a música dele e a referida banheira. Afirma que pagavam bem, por isso decidiu aceitar. Ele apresentou a sua criação, mas não correspondeu aos requisitos do cliente, sendo assim rejeitada. Uma vez que tinha a criação feita decidiu partilhá-la online, para download gratuito e no Youtube, onde diz que se diverte imenso a ler os comentários. Afirma que se ri mesmo quando lê os fãs a sugerir que ele se deve ter inspirado nas paisagens islandesas, quando no fundo a inspiração era um anúncio de banheiras com baleias! A verdade é que essa acabou por ser uma das suas músicas mais conhecidas, por isso valeu a pena.

Rodrigo Leão pega no concerto, já sem Ólafur, e são notórias as diferenças entre ambos. Não a nível de genialidade, pois nesse campo há um empate, mas sim no género. Rodrigo Leão apresenta músicas mais ritmadas e musculadas, que enchem mais o ouvido pois as cordas entoam mais alto, num tom mais grave, mais rápido. A sua «White house walts» recebe provavelmente a ovação da noite. Para ajudar, entra em palco Ângela Silva, uma soprano que enche a sala com a sua belíssima voz nas músicas mais antigas de Leão.

O encore teve duas músicas; a primeira ficou a cargo de Arnalds, que a dedica à sua avó, pessoa que considera culpada por estar onde está, por tê-lo incentivado a ouvir Chopin quando apenas queria ouvir heavy-metal.

A última, com todos em palco, apoiados pela voz de Arnór, fez com que se terminasse em grande um concerto que prometia talento, emoção e sensibilidade. Não só o público teve acesso a isso tudo, como foi ainda banhado pela simpatia e boa disposição de Ólafur Arnalds.

Espera-se que colaborem mais vezes; são realmente dois músicos impares, que juntos tornam lugares comuns em espaços mágicos e de sonho. Um obrigado a eles, por nos proporcionarem quase duas horas de concerto onde não se deram pelas horas passarem.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This