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Rodrigo Leão

A metamorfose rítmica toma conta de nós deixando emoções residuais que se podem evocar com um simples acorde.

No calendário, o Inverno já terminou e ei-la que chega a Primavera a correr, entre as nuvens, pelas frinchas da chuva teimosa.

Saí de casa acompanhada pelos perfumes da terra, ao encontro de canções e frutos novos.

No dia em que, também, se comemorava a Poesia rumei ao Museu do Oriente para assistir ao concerto – «Pássaros de Pangim» –  de Rodrigo Leão: o último dos cinco concertos, inicialmente previstos. Contudo, a procura do público foi tão extensa que decidiram agendar duas datas extra.

Ao entrar no auditório, sentiam-se os burburinhos semeados; as pessoas começavam a chegar de forma tranquila, predispostas ao que já se calculava ser um espectáculo intimista e cúmplice.

A primeira parte do concerto envolveu-nos numa instrumentalidade mais acústica com uma singular projecção de imagens reveladoras de caminhos, vivências e singulares memórias. As sonoridades começaram a espalhar-se, pé-ante-pé, levadas pelas coordenadas de uma janela virada para o mundo.

Iniciámos um discurso sonoro com imagens recolhidas nas várias viagens que o músico/compositor realizou.  Essas viagens constituem um momento forte da individualização das ideias; uma libertação da expressão que não se aprisiona mas que se transforma numa exterioridade manifesta.

Somos, assim, convidados a entrar numa narrativa pelos vários quotidianos flutuantes e de imediato consumo.

Cada lugar é mais do que um traço no mapa; é um tempo esculpido numa matéria invulgar que se veste de profundas histórias.

Na segunda parte acontece um amanhecer de gestos imutáveis. Este marcado pela entrada, em palco, de uma voz vestida de vermelho – Ana Vieira – que nos embala com «palavras de veludo» e coloridas sílabas num carrossel melancólico. No seu papel de contadora de histórias eleva-nos, com a precisão da sua dicção, a «Vida Tão Estranha», «La Fête», «Canciones Negras», entre outros temas que fizeram parte do alinhamento.

Na semana seguinte, Rodrigo Leão, recebeu-me no Frágil, conhecido bar no Bairro Alto, onde conversámos sobre o novo álbum e a sua relação com a música.

Ainda como elemento dos Sétima Legião, Rodrigo sentiu necessidade de acrescentar novas sonoridades à sua vida. Deste modo, em sintonia com Pedro Ayres de Magalhães (Heróis do Mar) constroem um projecto paralelo: os Madredeus.

“Eu e o Pedro Ayres de Magalhães encontrávamo-nos à noite, aqui no Frágil, e sentíamos que tínhamos que formar um grupo mais acústico, diferente dos Heróis do Mar e dos Sétima Legião. Foi a partir daí que nasceram os Madredeus sem as guitarras eléctricas e sem o baixo. Fomos estruturando o projecto muito devagar porque tanto os Heróis do Mar como os Sétima Legião tinham muitos concertos.

Madredeus edita o primeiro disco em 86/87. Fazíamos, sensivelmente,  uns cinco concertos por ano. Era uma coisa especial, diferente e cada vez gostávamos mais. Portanto até à minha saída, em 1994, percorri quase o mundo inteiro com eles. Essas viagens foram muito enriquecedoras, como músico e como individual.

Nessa altura decidi abandonar os dois projectos porque estava a compor músicas que, na minha opinião, não cabiam nem num, nem noutro. Estava na hora de começar um caminho novo. Foi aí que surgiu esta actual formação que tem vindo, cada vez mais, a amadurecer.

Tenho tido a sorte de contar com estes músicos ao longo de quase 10 anos. Há uma cumplicidade muito grande entre nós. Para mim é muito importante, mais do que ser O virtuoso de um instrumento, estar em palco desta forma. Comunicarmos desta maneira simples.”

Foi precisamente há dez anos que lançou o álbum “Alma Mater”, marcando o início de um percurso que explora a simbiose contemporânea-moderna-clássica.

Os perfumes destas metamorfoses influenciam o rasgar de horizontes que nos convidam ao dinamismo e versatilidade da sua linguagem sonora. Essa versatilidade é-nos apresentada nesta temporada especial agendada para o Museu do Oriente.

“Os concertos no Museu do Oriente foram organizados com uma formação diferente, numa sala mais pequena e num formato mais acústico, sem a bateria e sem o baixo.

O tema «Pássaros de Pangim», foi composto a partir de uns sons que gravei durante a viagem a Goa. Decidimos que esse seria o mote para o auditório do Museu. Uma viagem em diferentes atmosferas. Desde Goa, Alentejo, nomeadamente Avis, que visitamos regularmente, à Rua da Atalaia, concentrámo-nos nas vivências da natureza e da rua.

As viagens estão muito presentes nas músicas que faço. Acabam por ser uma forte fonte de inspiração. Quando vamos a um sítio novo e conhecemos pessoas novas, todos esses elementos recolhidos, consciente ou inconscientemente, acabam por entrar num processo associativo para composição de ideias e mais músicas.

Sou um autodidacta, aprendi com os amigos. Apesar da minha música, por vezes, parecer uma música complicada, é de raízes muito simples. É essa simplicidade que me permite ter mais liberdade para contar com colaborações e músicos muito diferentes.

Neste momento sinto-me rodeado de muitas influências que vão desde o tango, à música pop e que me permitem ter convidados, neste novo álbum – “A Mãe” –  tão distintos como o Daniel Melingo, Stuart Staples (Tindersticks), Neil Hannon (Divine Comedy) ou até mesmo a Orquestra Sinfonieta de Lisboa.”

É de salientar que o músico português conta já com as colaborações de Lula Pena, Adriana Calcanhoto (“Alma Mater” – 2000), Rui Reininho (“Pasión” – 2003), Beth Gibbons e Ryuichi Sakamoto (“Cinema” – 2004).

Rodrigo Leão revela-nos, ainda, que o álbum – “A Mãe” – sairá, em breve na Europa: Alemanha, Bélgica, Holanda, Itália, França, etc. Para os concertos que vão surgir, nas várias cidades europeias, levará consigo, matéria-viva portuguesa, tradições, melancolia e, também, cultura de sentir.

Atenção! Ao entrar nesta viagem ninguém regressa curado da alquimia de cores e sons que se envolvem em ambientes orientais com pronúncia francesa, nem de ritmos sincopados como o tango: onde o drama e a paixão se encontram.

Acreditem que a metamorfose rítmica toma conta de nós deixando emoções residuais que se podem evocar com um simples acorde.



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