Rolling Stones

9 razões para ouvir os Stones em 2006.

No dia 12 de Agosto, Portugal recebeu pela quarta vez a visita dos Rolling Stones, a maior banda rock do Mundo. E, tal como das outras três vezes, também esta é foi acompanhada com a possibilidade secreta de poder ser a última oportunidade os vermos ao vivo. No entanto, o mais provável é que nos voltemos a enganar…

Desta vez foi o Estádio do Dragão receber a visita de Sir Mick Jagger e dos restantes Stones, depois de Alvalade (por duas vezes) e de Coimbra.

Quarenta anos de carreira são muitos anos. “Mas porque é que eles voltaram?”, pergunta muito boa gente. Pelo simples motivo de que eles nunca se foram embora. Por isso, talvez seja melhor corrigirem a questão. “Mas porque é que eles continuam?”. Esta sim, é já uma questão mais pertinente. É certo que já fizeram tudo o que tinham para fazer, que já não têm nada a provar a ninguém e que, certamente, não precisam de dinheiro. Então porque é que continuam? Keith Richards deu a melhor resposta de sempre a esta questão – pelo mesmo motivo que os cães lambem os tomates; ou seja, porque podem.

Antes de se transformarem, no início dos anos 90, na máquina corporativista de fazer dinheiro que são hoje em dia, escondidos atrás do epíteto de “maior banda rock de sempre” e rotulados como banda de estádios, os Rolling Stones já tinham mil e uma razões para serem a maior banda rock de sempre. E todas elas continuam válidas!

Aproveitando o pretexto do regresso dos Rolling Stones a Portugal, a Rua de Baixo apresenta as principais nove razões para se continuar a ouvir os Stones quarenta e quatro anos depois.

9 – Keith Richards & The X-Pensive Winos Live At The Hollywood Palladium

É sabido que, no final dos anos 80, a decisão de Mick Jagger optar por uma carreira a solo em detrimento dos Rolling Stones não caiu bem no seio da banda, especialmente junto de Keith Richards. Pressionado pelas editoras, Keith viria a ripostar e a experimentar também o trabalho a solo. Curiosamente, apesar do menor mediatismo e divulgação, os seus discos são muito mais interessantes dos de Mick Jagger, que quando se arrisca a solo parece querer transformar-se num cantor romântico. Em suma, é a maneira de Keith avisar Mick de que “tudo o que fizeres, eu faço melhor”.

O ponto alto desta carreira a solo está documentado neste disco ao vivo, em que Keith se apresenta com a sua banda de suporte, os X-Pensive Winos, no Hollywood Palladium. Daqui destaca-se uma versão genial de «Time Is On My Side», um clássico que os Stones adoptaram.

8 – Peter Tosh – Bush Doctor / Mystic Man / Wanted: Dread Or Alive

No final dos anos 70, Mick Jagger e Keith Richards descobriram o reggae. Fascinados por aquele estilo musical, viajaram para a Jamaica e gravaram por lá durante algum tempo, tocando com alguns dos mais importantes músicos do país. Aproveitando o mediatismo da dupla e tentando perfurar o mercado mainstream, Peter Tosh, um dos vultos do reggae mais marcantes logo a seguir a Bob Marley, lançou a triologia “Bush Doctor”, “Mystic Man” e “Wanted: Dread Or Alive” pela distribuidora dos Stones. Os álbuns não são dos melhores, diga-se, mas é sempre bom ver uma banda como os Stones dar tempo de antena a músicos com menos mediatismo.

7 – Gimme Shelter

Em 1969, os Rolling Stones tiveram uma ideia genial. Para marcar o final da sua digressão norte-americana, marcaram na antiga pista de Altamont um mega-concerto com entrada gratuita, inspirado em Woodstock, que tinha acontecido há pouco tempo, juntamente com outras bandas, como os Flying Burrito Brohters ou os Jefferson Airplane. Nada poderia correr mal. Pelo menos era o que parecia.

Os Hells Angles, clube motard cuja delegação britânica já havia sido contratada para fazer a segurança (com sucesso) de alguns concertos dos Stones na Inglaterra, foram escolhidos para seguranças do recinto. No entanto, à medida que o dia foi avançando, foram aumentando também as garrafas vazias e os Hells Angels começaram a ficar cada vez mais impertinentes. Daí até aos confrontos com os espectadores, que incluíram andar de mota no meio do público, foi um pequeno pulo. E toda aquela escalada de violência culminou com o esfaqueamento de um espectador, em frente ao palco, na altura em que se ouvia «Under My Thumb». Com essa facada esfumou-se todo o sonho do flower power. Os anos 60 haviam morrido.

Tudo isso (incluindo o esfaqueamento) ficou testemunhado na câmara de Albert e David Maysles, que em 1970 lançaram “Gimme Shelter”, considerado um dos documentos fundamentais do cinema e da música e um dos mais importantes rockumentários da história.

6 – Rolling Stones Rock ‘n’ Roll Circus

Em 1966, quando os músicos ainda se davam todos bem e não haviam rivalidades inúteis, os Rolling Stones organizaram um mega evento onde reuniram os amigos. Chamaram-lhe “Rolling Stones Rock ‘n’ Roll Circus” e convidaram John Lennon, Yoko Ono, os The Who, Taj Mahal, Eric Clapton e muitos outros, para actuarem numa tenda de circo, juntamente com números de trapézio e malabarismo. Agora pode parecer um pouco bizarro, mas recorde-se que na altura estava-se a atravessar o psicadelismo.

O documento só foi editado nos anos 90 (até aí apenas circulava em formato bootleg), ao que consta por descontentamento dos próprios Rolling Stones na sua actuação. Marcara-se novas filmagens no Coliseu de Roma, mas tal nunca chegou a acontecer.

O que é certo é que o “Rolling Stones Rock ‘n’ Roll Circus” é um dos documentos musical burlesco e genial, que ainda contém dois pormenores: a possibilidade de assistir pela única vez os Dirty Mac, super-banda que juntava John Lennon, Eric Clapton, Keith Richards e Mitch Mitchell; e a possibilidade de assistir à última actuação de Brian Jones, que viria a falecer meses depois e que, por esta altura, já pouco mais era do que um boneco inexpressivo.

5 – Mick Jagger & The Red Devils – The Famous Blues Sessions

Alguém disse um dia que Mick Jagger era um preto preso no corpo de um branco. O que é certo é que Jagger sempre foi um amante dos blues. Aliás, os Stones quando começaram não eram mais do que uma banda de versões de temas de blues do outro lado do Atlântico.

Durante a sua carreira, Mick Jagger cantou com Muddy Watters, Bo Didley e outros mestres do género. No entanto, à medida que foi envelhecendo, Jagger começou a perder a sua faceta bluesly. “The Famous Blues Sessions” é um documento valioso, uma vez que perpetua esse Mick Jagger novo, interpretando clássicos do blues ao lado dos Red Devils. É em registo bootleg, é verdade, mas se o conseguirem encontrar apanhem-no com unhas e dentes.

4 – Exile On Main Street / Sticky Fingers / Let It Bleed

A carreira dos Rolling Stones estende-se a quatro décadas e a muitas dezenas de álbuns. Muitos deles são colectâneas inúteis, lançadas pelas editoras em constante conflito entre si; outros são discos menos conseguidos… Por isso, vale a pena resumir toda essa história em três documentos imprescindíveis: “Exile On Main Street”, “Sticky Fingers” e “Let It Bleed”.

Muito se pode dizer acerca desses três discos. No entanto, como não há experiência como a de ouvi-los, vou apenas deixar três pormenores acerca de cada um deles. Do primeiro, apenas vou dizer que é considerado unanimemente como um dos documentos fundamentais do rock’n’roll. Do segundo, que a capa é uma verdadeira obra plástica, assinado pelo próprio Andy Warhol. E do terceiro, que o título é uma observação jocosa aos Beatles e ao seu single-azeiteiro de sucesso «Let It Be».

3 – Their Satanic Majesties Request

Em 1967 os Stones gravaram “Their Satanic Majesties Request”, um objecto-não-identificado dentro da discografia da banda. Vivia-se a época psicadélica, experimentavam-se todo o tipo de droga e o LSD era rei e senhor. Brian Jones, o mais eclético dos membros dos Stones, estava na sua fase mais criativa e procurava novas sonoridades e instrumentos. Tudo misturado resultou neste “Their Satanic Majesties Request”, um disco tão estranho que até tem a única música da banda que não é assinada por Jagger e Richards – no caso «In Another Land», de Bill Wyman.

Talvez inspirado pelo sucesso do álbum dos Beatles, “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club band”, talvez por saberem que não iria ter muita adesão do público, os Rolling Stones apostaram tudo na componente gráfica do disco e criaram um invólucro psicadélico a três dimensões único. Actualmente, uma versão dessa capa pode custar para cima de um dinheirão. Mas fica sempre bem em qualquer casa.

2 – Jamming With Edward

Não é um disco de avant-garde, de música experimental ou fusão. Nem tão pouco vai salvar a música. São só cinco amigos a divertirem-se. E no entanto, soa tão bem…

Reza a história que em 1969, durante as sessões de “Let It Bleed”, Keith Richards faltou a (mais) um ensaio da banda. Enquanto esperavam pelo seu guitarrista, Jagger, Wyman e Watts começaram a divertir-se, juntamente com Nicky Hopkins e o então desconhecido Ry Cooder.

O resultado foi “Jamming With Edwards”, uma jam session onde temos a possibilidade de escutar Nicky Hopkins como nunca o ouvimos antes. O disco foi lançado em 1972, sob a etiqueta dos Stones, porque como escreveu Jagger na altura, qual é o interesse ter a próprio distribuidora se não fizermos o que bem entendermos?

1 – Brian Jones Presents The Pipes Of Pan At Jajouka

Durante uma viagem dos Stones a Marrocos, em 1967, Brian Jones descobriu um grupo marroquino de música hipnótica chamado The Masters Musicians Of Jajouka. Fascinado por esta comunidade musical milenar e pela sua música, Brian Jones apresentou os Jajouka ao Mundo (apesar de já terem sido referidos pela geração beat em algumas das suas obras na década anterior), ao gravar o primeiro álbum de world music da história segundo o conceito que hoje estabelecemos.

Só por isto, os Stones já mereciam ser considerados a maior banda rock do Mundo. Quanto mais por nove razões como esta.



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