Romeu e Julieta @ S. Luiz

What´s there in a name?

Perante as obras de Arte cuja beleza se eternizou e se cristalizou no nosso código genético, sentimos um indubitável sentimento de, mais do que admiração, respeito.

Se Shakespeare perguntava o que há num nome, nesse acaso fruto de uniões e junções tão incompreensíveis como por vezes aleatórias, pode perguntar-se hoje o que há em dois nomes que, juntos, nos provocam uma familiaridade e outras tantas referências das quais se constrói o nosso imaginário romântico.

Falamos de Romeu e Julieta, texto dramático tantas vezes representado, filmado, dançado e nunca linear e muito menos simples. Se a temática de Romeu e Julieta é sobejamente conhecida por muita gente, o mesmo não se pode dizer do texto de Shakespeare, a sua riqueza vocabular, as suas evocações poéticas, a complexidade das tramas por detrás da trama, a essência das palavras por detrás das expressões, enfatizadas pelas expressões, traduzíveis pelos olhares, subjacentes nas entrelinhas.

A polissemia deste magnifico texto dramático será melhor entendida quanto melhor for o domínio do texto pelos actores que o representam, e mais interessante consoante a leitura do encenador que se propõe levar à cena.

No Teatro S. Luiz vai subir ao palco esta peça eterna, cuja temática não se esgota e que, até mesmo para quem a conhece, não resiste a rever. Mas, e não obstante os méritos da peça, porquê revisitá-la agora e em que moldes? Ou seja, o que podemos esperar deste “Romeu e Julieta”?

O projecto de Valerie Braddell e do Teatro Próspero (que já tinha levado à cena A Tempestade, também de Shakespeare em 2004) tem como objectivo essencial familiarizar o público com este texto, bem como transportar o seu conteúdo para o contemporâneo.

“As nossas diferenças sociais, étnicas, culturais, políticas, religiosas e tantas outras, podem causar grande sofrimento aos nossos filhos que, convictos dos ideais próprios da juventude, se atrevem a redefinir o futuro isento dos nossos preconceitos. Mas quando o peso dos nossos ódios lhes cai em cima, frequentemente acaba em tragédia.”

E, para sugerir esse ambiente de reclusão intelectual e emotiva em que Montéquios e Capuletos estão encerrados e enclausurados pelos seus próprios ódios incompreensíveis ( como o são a maioria dos ódios), o palco apresenta-nos uma geometria alusiva a grades de prisão, compartimentada e quadriculada.

O tempo histórico “escolhido” pelo encenador é o final do século XIX. Os figurinos são de uma simplicidade sóbria e em cima do palco, de forma discreta, temos um músico que toca viola ao ritmo das cenas que o pedem.

Quanto aos actores, não há erros de casting. A dupla João Lagarto e Valerie Braddell (casal Capuleto) demonstra bem a ambição desmedida e a frivolidade que caracterizam estas personagens. André Gago mostra a sua versatilidade, mudando de vestes e postura consoante represente o Príncipe ou Pedro. Custódia Gallego e Diogo Infante estão confortáveis nas personagens de Ama e Mercúcio, respectivamente, personagens que têm um papel fundamental na peça antes de mais como uma espécie de “anti heróis”, cépticos em relação ao Amor, que tecem piadas ao estado amoroso do casal apaixonado; têm uma linguagem irónica e sugestiva, e proporcionam algumas das cenas mais hilariantes da peça. De realçar o à-vontade de Diogo Infante com o texto shakespereano e a forma deliciosa como saboreia as palavras e as transmite de forma natural, com gestos e maneirismos adequados à personagem.

Marco d´Almeida e Carla Chambel (Romeu e Julieta), para além de “esteticamente adequados” (ele louro, ela morena e virginal) transmitem a fragilidade da juventude, a volatilidade, mas, ao mesmo tempo, a força e a determinação que caracteriza estas personagens.

No meio da trama, um Páris (Pedro Caeiro) perdido, sem audácia e aproveitando-se das conveniências sociais, em claro contraste com o carácter revolucionário, corajoso e inteligentemente ardiloso de Romeu e Julieta que, para conseguirem que o seu amor vingue, socorrem-se de esquemas, disfarçam sentimentos e estão inclusivamente dispostos a morrer um pelo outro.

Cremos que os objectivos a que o encenador (John Retallack) e o próprio projecto propunham são atingidos sem mácula. As questões sociais que Shakespeare introduz (como a pobreza do Boticário que o torna volátil, e o discurso de Romeu quando quer comprar o veneno) adequam-se de forma assustadora aos nossos tempos.

De elogiar e lamentar um pormenor em termos cénicos: se a maior parte das cenas que juntam Romeu e Julieta se passam numa zona mais alta do cenário, como que ilustrativos desse estádio de elevação em que estariam por força do Amor, no final, na cena da morte dos amantes, o público que está sentado na plateia perde partes da cena por falta de visibilidade. Um pormenor cénico facilmente ultrapassável se nos concentrarmos no poder da própria cena em si mesma.

Um outro pormenor, mas que cremos dever-se ao facto de termos assistido a um ensaio, está relacionado com o à-vontade de Romeu com o texto. Pareceu-nos ainda preocupado em declamá-lo e, por isso, com menos entoação, ou melhor, com menos “sabor” nas palavras. Afinal, a cena de enamoramento entre Romeu e Julieta, depois da festa dos Capuletos, e as palavras trocadas enquanto ela está à janela, contém talvez as palavras mais belas que se pode trocar entre duas pessoas. Mas supomos que tal irá certamente mudar nas seguintes representações.

“Romeu e Julieta” no palco do S.Luiz: uma peça para amantes do teatro, admiradores de uma boa peça, enamorados do drama, apaixonados pela Arte… e para amantes em geral.



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