“Rosencrantz & Guildenstern estão mortos” @ TNSJ

“Rosencrantz & Guildenstern estão mortos”

Se parássemos de respirar desaparecíamos?

Eles tentam, tentam até ao fim. Mas, como no jogo de atirar a moeda ao ar do início da peça, a predisposição misteriosa das coisas já está definida muito antes de eles sequer tentarem perceber porquê. E se eles tentam. Até ao final da peça, até deixarem os seus casacos de Guil e de Ros e saírem de cena. Para onde vão? Não sabemos. Talvez saibamos.

Rosencrantz é Gonçalo Waddington e Guildenstern é Nuno Lopes, ou será ao contrário? Às vezes um é o outro, outras vezes os dois são um único. Confuso? Nem por isso, porque a identidade e a existência destas duas personagens, menores em Hamlet e aqui protagonistas, flui, mistura-se, condensa-se, ao longo da peça de Stoppard, brilhantemente encenada por Marco Martins. Os dois actores transportam-nos numa viagem alucinante onde o que parece não é. Ou será? São actores, são personagens, são actores sem personagem e personagens que não sabem para onde vão. Tentam constantemente lembrar-se, fazem perguntas (morte é morte, não?), tentam responder, tentam perceber o caminho, o caminho que parece não se mostrar, que parece já ter acontecido ou ir irremediavelmente acontecer. Fazem isto tudo com um humor e intensidade inabaláveis (que o texto fornece e eles potenciam).

A tradução, de João Paulo Esteves da Silva, tem um jogo de cintura enorme e faz jus ao inventismo frenético de Stoppard.

O palco, num despojamento total onde fragmentos de cenários inacabados coabitam com todo o esqueleto de luzes, fala-nos do vazio de Guil e Ros e da incerteza da (sua) existência.

O elenco, composto por quase vinte pessoas (incluindo alunos da ESMAE que tão bem encarnam a trupe de Trágicos – grupo liderado por um magnético Bruno Nogueira em palco), é muito equilibrado e presente em tudo aquilo que faz.

De referir que Gonçalo Waddington fez o espectáculo (bastante exigente fisicamente) de muletas, na consequência de uma lesão no dia da estreia – em relação a este acontecimento, é irresistível não relembrar uma deixa do personagem de Bruno Nogueira – o Actor: Nós somos trágicos, somos diferentes das pessoas.

Uma peça a não perder.

“Rosencrantz & Guildenstern estão mortos” 

Teatro Nacional São João
De 11 a 28 de Abril
Quarta a Sábado, 21:30 // Domingo, 16:00

de Tom Stoppard
tradução João Paulo Esteves da Silva
encenação Marco Martins
cenografia Artur Pinheiro
desenho de luz Nuno Meira
figurinos Isabel Carmona
música original (interpretada ao vivo) Noiserv
direção de produção Narcisa Costa
interpretação Gonçalo WaddingtonNuno Lopes,Bruno NogueiraBeatriz Batarda,Romeu CostaJoana de Verona,Jorge Mota, Pedro Cruzeiro eAlexandre CalçadaAna Mafalda Pereira, Ana MaiaCarolina Amaral,Fábio CostaLuís PutoMaria QuintelasRicardo SoaresTiago Sarmento (ESMAE)
coprodução Arena EnsembleCentro Cultural de BelémTNSJ
colaboração ESMAE
dur. aprox. 2:30 com intervalo

M/12 anos



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This