RQ#10 Hellblazer

Hellblazer nas Ruas de Londres.

“Hellblazer” é a famosa série de banda desenhada sobre John Constantine, personagem criada por Alan Moore em 1985 no número 37 de “Swamp Thing”. Um aspecto engraçado é a sua semelhança com o músico Sting, característica que se deve ao facto de Stephen R. Bissette e John Totleben serem grandes fãs de The Police e os responsáveis pela criação da sua imagem na altura.

Constantine é uma espécie de mago do oculto moderno, sempre de cigarro na boca, desenrascado e, claro, extremamente convencido e mal-educado. Com tantas qualidades, não é de estranhar que tenha conquistado a atenção de muitos e cedo se tornou evidente que era uma personagem com estofo para ter o seu próprio título, o que aconteceu eventualmente em 1988, o ano em que “Hellblazer” nasceu.

Editado pela Devir em Portugal, “Nas Ruas de Londres” consiste numa compilação de seis das melhores estórias da série, escritas por alguns dos melhores autores de comics da actualidade.

Jamie Delano foi o primeiro argumentista da série e por isso faz todo o sentido que a primeira estória deste livro seja dele. “Entrar na corrida” é desenhada por John Ridgway que já tinha trabalhado com Delano em “Dr. Who” e fala sobre a venda de almas na bolsa de valores inglesa por demónios yuppies. A acção desenrola-se durante as eleições, em que tudo aponta para uma vitória do partido conservador de Margaret Tatcher. Uma crítica à sociedade e ao governo capitalista dos anos oitenta, numa era em que se adoram falsos ídolos como o deus dinheiro. Nas próprias palavras de Constantine “O lucro é definitivamente o maior deus dos anos oitenta. Por monetarismo entenda-se satanismo”. Questiono-me se muita coisa terá mudado?

A estória seguinte é a única escrita por Neil Gaiman na série “Hellblazer”, porém, o seu apreço pela personagem é conhecido. Além de ter sido um dos que sempre considerou que tinha personalidade para ter a sua própria BD, usou-o várias vezes em livros seus como em “Sandman” e “Books of Magic”. “Abraça-me” trata-se de uma estória sombria sobre a solidão nas grandes cidades e como, no meio de tantas pessoas, nos encontramos muitas vezes verdadeiramente sós. E não existe ninguém melhor do que Dave Mckean (Asilo Arkham) para desenhar este género de estórias, alguém que é capaz de nos transportar como ninguém para o cenário cinzento e frio de Londres, em um dos momentos mais tocantes do livro que se poderia passar em qualquer outra cidade.

Garth Ennis é o único autor a assinar duas estórias em “Ruas de Londres”. A primeira é desenhada por David Loyd (V for Vendetta) e fala sobre um homem perturbado que é perseguido pelas memórias do seu diário. Um homem em completo desespero, consumido pelos fantasmas de um passado não tão distante e de um pacto que lhe custou mais do que a vida… custou-lhe a alma.

A segunda estória de Garth Ennis é desenhada por Peter Snejbjerg (The Lords of Misrule) e apresenta-nos uma visão do personagem pelos olhos de um dos seus poucos amigos. Chas encontra-se num bar após um jogo de futebol e, depois de algumas cervejas, começa a contar uma das suas aventuras com Constantine. Uma estória bizarra em que tentam salvar o fantasma de uma menina que era abusada pelo pai quando viva e continua a sê-lo depois de morta.

Warren Ellis é um dos grandes mestres do terror em Hellblazer, como é provado em “Fechado” onde somos, literalmente, trancados com um psicopata que tem vindo a torturar e matar pessoas dentro do seu quarto durante vinte anos. Frank Teran (Batman) retrata na perfeição a visão de horror de Warren Ellis. Com corpos desfeitos espalhados pelo quarto até uma face colada na parede, quase que conseguimos sentir o cheiro a putrefacção… trata-se de uma sequência magnificamente assustadora. Melhor do que qualquer segmento de “Saw”.

Para terminar, Brian Azzarelo escreve e Dave Taylor (Tonge & Lash) desenha a última estória desta compilação. Em “A primeira vez” assistimos ao primeiro encontro entre, um ainda criança, John Constantine e o demónio Nergal. Uma estória divertida, que após tanta aventura no mundo do oculto surge como uma brisa de ar fresco, acabando por ser a maneira ideal de terminar esta viagem.

Um dos pontos mais altos deste livro reside na grande diversidade de estórias escolhidas, retratando assim os vários estilos de Hellblazer e proporcionando uma boa leitura, que saltando de estória em estória nunca se torna maçadora. É também uma maneira interessante e aconselhada de conhecer um dos maiores anti-heróis da história aos quadradinhos.



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