“Rugas” | Paco Roca

“Rugas” | Paco Roca

Uma forte sensação de autenticidade

Mais uma novidade editorial chega ao nosso mercado, desta vez pelas mãos da Bertrand, que edita “Rugas”, do autor espanhol Paco Roca. Publicado originalmente pela editora francesa Delcourt em 2007, “Rugas” conquistou rapidamente o público e crítica, arrecadando o “Grand Prix de La Critique” da ACBD, o “Prémio de melhor guião e obra” no Saló Internacional del Còmic de Barcelona e o “Prémio Nacional del Cómic” do Ministério da Cultura espanhol. O sucesso foi tal que, em 2009, a produtora coruñesa Perro Verde comprou os direitos do livro, lançando a sua adaptação cinematográfica – em animação – em 2011 com a realização a cargo de Ignacio Ferreras.

O título é imediatamente indicativo do tema. O autor escolheu debruçar-se sobre o envelhecimento, sobre os últimos momentos da nossa vida. Uma história que surge numa altura em que a ode ao amor de Michael Haneke – “Amour” –, nesta fase da vida, ainda se encontra bem presente nas nossas mentes e corações, ou até mesmo – de forma mais descontraída – “Cloudburst”, para quem assistiu à sessão de encerramento do festival Queer no ano passado.

“Rugas” | Paco Roca

Em “Rugas” seguimos a história de Emílio, um bancário reformado que, por sofrer da doença de Alzheimer, acaba por ser colocado num lar pelo filho. É nesta nova casa, aquela que será a última moradia de todos os seus habitantes, que a narrativa se desenrola. Ainda ingénuo sobre a sua condição, Emílio é apresentado ao seu novo meio ambiente por Miguel, o colega de quarto. Miguel tem uma atitude mais crua perante a vida, desprivilegiando as relações humanas uma vez que, ao atingir esta idade, acredita que todas elas já se quebraram. Há toda uma revolta escondida e mascarada no seu interior: devia haver mais na velhice do que simplesmente comer e dormir, a rotina interminável dos habitantes do lar.

Entre Emilio e Miguel acaba por nascer, muito naturalmente, uma grande amizade, uma irmandade que os unirá para sempre. Pois por muito negativo que Miguel seja, todos nós precisamos de criar alguma ligação com o mundo, com alguém, porque se não o fizermos para que valeu a pena estar aqui em primeiro lugar? Juntos vão lutar para quebrar a rotina, introduzindo alguma animação no dia-a-dia e de forma a se manterem unidos.

Uma das principais razões que despertou esta ideia em Paco Roca foi quando soube que Emilio, o pai de um dos seus melhores amigos – o também autor de BD McDiego – sofria da doença de Alzheimer. A partir daí embarcou numa viagem por lares e pelos testemunhos dos seus amigos, a fim de reunir o máximo de informação sobre o tema. Uma tarefa da qual o autor parece ter saído triunfante: há uma forte sensação de autenticidade em todas aquelas personagens, tão distintas entre si e ao mesmo tempo tão próximas.

“Rugas” | Paco Roca

A perda das nossas faculdades mentais constitui um abismo de receios e tristezas, um abismo que é enfrentado todos os dias por um doente com Alzheimer. Modesto é um colega de Emílio que sofre do mesmo mal – apenas num estágio mais avançado. A sua relação com a esposa Dolores, que continua a seu lado, é um dos pontos mais impressionantes no livro de Roca. Aqueles momentos em que Dolores sussurra algo ao ouvido de Modesto – resultado no único sorriso de que ele é agora capaz – trazem consigo uma carga emocional tão intensa e tão bela que, só pelas vinhetas dedicadas a este casal – e que são poucas –, este livro já valeria a pena – e vale mesmo tanto a pena.

O traço e cor do autor adequam-se muito bem à história, nunca nos distraíndo da mesma. As suas qualidades ganham ainda mais ênfase na maravilhosa capa, que condensa tão bem o mundo interior de algumas das personagens.



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