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Rui de Castro, o Pirata

Incógnito por 25 anos, a odisseia incrível de quem viveu o Punk, a New Wave e Disco por dentro como músico e editor, enfrentando depois a indústria discográfica com o primeiro rap feito em português.

Guerra, para que serve? É assustador o poder do factor aleatório num combate, um passo errado, uma troca de lugar, um som inadvertido… fim. Gerações inteiras perdidas por nascerem num ano [errado] devido a uma mobilização decidida nunca se sabe muito bem por quem. O poder de antecipação e a perspicácia assume então fulcral importância.

Rui de Castro Guimarães desviou-se das balas. Em 1972, atingida a maioridade, recebeu plenos poderes emancipatórios de seu pai, abandonando a mansão diplomática no Restelo, os anos de corridas de bicicletas à volta da casa do vizinho Américo Tomás e os ensaios ribombantes na cave. “Ia para lá o Sindicado… os Chinchilas com o Vítor Mamede como baterista, mas sem os metais. Eles eram do rock sinfónico tipo Chicago, só que só podiam usar baixo, guitarra e bateria… com os amplificadores de 100 e 200 watts já era uma loucura”.

Na bagagem levava a experiência de alguns concertos na Ronda [agora discoteca Bauhaus], local onde Vítor o tinha posto a tocar blues “com harmónica à Bob Dylan” usando o nome de Warm Blues Band. A fuga aos inevitáveis anos “a matar” [ou a ser morto] foi feita bruscamente e foi parar à África do Sul, via Londres. “Tinha lá uns amigos hippies… e fui hippie, ok semi. Eles fumavam tanto que nem sabiam onde estavam, eram malucos”. Só que o visto durava pouco tempo e, perante a hipótese de voltar a Portugal para ser despachado quase para o mesmo sítio, à revoltada Angola, acabou na mesma por ser forçado… a voltar a Londres.

It began in London

Em 1973 Rui chega à capital inglesa sem grandes ideias; conversas com membros da banda de rock psicadélico Objectivo (já com algumas ramificações internacionais) ainda promovem uma curta estadia na Suécia, mas é em Londres que coloca um anúncio à procura de um baterista e de um viola baixo. Respondem Milton e Leo, dois jamaicanos – o primeiro em bruto rastafarai e o segundo já contaminado pelo cockney “ao estilo Mick Jagger”.

Acabaram a viver “todos na mesma casa (…) eles conheciam o dono de um clube chamado Sirocco e tocávamos aí todas as semanas… para ninguém, mas aproveitando para tocar a sério”. Estas sessões a zero da banda The Warm acabam no entanto por trazer a confiança necessária e em 1974 são mencionados por John Peel na sua coluna no jornal Sounds. “Tocámos numa Universidade, ele chegou lá e ouviu os últimos 20 segundos escrevendo depois que éramos embracing… quer dizer, ele não ouviu o resto, mas uau! Era o John Peel! O John descobria tudo o que havia para descobrir, por mais insignificante ou obscuro”.

A motivação impulsionou o trio a tentar uma audição pelas primeiras editoras independentes, mas “tampa” foi o resultado. Perante o I’ve heard it all before da Stiff Records, a contra-resposta foi “não deixar de fazer discos porque os gajos não me assinaram contrato! Vou fazê-los eu e o resto não sei”. Não era tarefa fácil e com o 25 de Abril chega a liberdade e também alguma pressão maternal para regressar “à nossa terra” mas, se agora estávamos livres em Portugal, Rui já antes o era e ficou em Londres para outra luta.

Em Maio e Agosto de 1976 a Warm Records estreia-se com os singles dos The Warm (já sem Milton e com o irmão de Rui como session player) «It’s the Kooler» e «Crazy Daisy Lady», respectivamente. O som era um primordial punk, fruto de três anos de concertos e influências, porém o estilo foi prontamente carimbado na banda por um jornalista que afirmou now this is punk rock!

Punk Rock, o que é isso?

A editora underground e a infiltração nos meandros da cena londrina tinham levado Rui de Castro a deixar cair o último apelido. “Não ia dizer que me chamava Guimarães… querer ser punk e chamar-me Guimarães não ia resultar”. Mas o que era o Punk em 1976? “Não havia um estilo óbvio, mas era uma onda… a partir daí comecei a pensar como um surfista”.

Portugal, tão perto do mar mas sem se aperceber das correntes, estava longe mas pelo menos tinha uma pessoa atenta e isso na ética D.I.Y. faz toda a diferença. Numa entrevista para a Rádio Renascença surge um novo aliado e depois uma forte relação de amizade, quase familiar. “Muitos dizem que o [António] Sérgio é o John Peel português, mas eu também acho que o John Peel é o António Sérgio inglês… uma pessoa íntegra, que percebia tudo o que fosse independente”.

Rui, assumindo agora uma faceta de músico, editor, publisher e furão persistente, percorre os clubes com a mulher Mary Harrison, que fotografa gigs e especialmente ligs – espécie de pós-concerto, com bebidas de borla. No ligging estavam os famosos e os quase-conhecidos, e estar presente fornecia a críticos e músicos o elemento já-o-vi-em-qualquer-lado. The Clash, Sex Pistols, Siouxie, The Damned, Buzzcocks foram registados em centenas de rolos e musicalmente enviados em formato cassete para Lisboa.

“Punk Rock ’77” é uma compilação que sai em Portugal num LP envolto em mistério. Fruto das fitas enviadas por Rui de Castro e transmitidas no programa de António Sérgio, reza a lenda que alguém gravou ou teve acesso à bobine e que esta acabou editada em vinil na Pirate Dream Records (uma editora “pirata” do radialista) sem separação de faixas e com a última – «No Future», dos Sex Pistols – acabando repentinamente como na apressada gravação original… hey, afinal era punk, não era? Talvez a melhor metáfora para o fim do movimento noooooo fut

Caparica ‘78

Recebendo agora inúmeras demos, na Warm planeava-se uma mudança de rumo. A onda do punk deixava a marca da rebentação forte mas de recuo rápido, a New Wave ocupava agora o areal e foi a praia da Nova Vaga na Caparica que deu nome ao LP da Warm que compilava The Exile, Alan Libert’s Parábola, Fred Banana Combo, Warm tocando «Pinhead» dos Ramones e como Beat Bros, covers apunkalhadas de «Drive My Car» e «Ain’t She Sweet», dos Beatles, entre outras bandas.

Reflexo do seu trabalho, Rui recebe em Londres visitas de portugueses interessados, como Rui Reininho ou Paulo Pedro dos Corpo Diplomático (depois Heróis do Mar). No entanto, é Manuel Lorena que o contacta com um propósito definido; Rui ironiza. “O Manuel era um dos filhos do herdeiro do título do Marquês de Pombal, era uma pessoa aberta a vários estilos musicais e queria editar Punk e Reggae em Portugal… eu como também tinha veia pelo Conde Castro Guimarães, para me associar a alguém ou era ao [António] Sérgio ou a um aristocrata!”

Fazendo sociedade com Manuel Lorena, iniciam uma colaboração que ditará um regresso ao país poucos anos depois. Entretanto, dividem-se entre Londres e Azeitão, moradas presentes em cada edição e que alguma confusão suscitaria em investigações décadas depois. Rui tratava dos contratos em Inglaterra e Manuel promovia e distribuía os discos em Portugal, função depois assumida por um distribuidor oficial.

Em Londres, o correio amontoava-se na sua casa em Gunter Grove; entre pacotes com demos e discos, o carteiro habituado a rotinas acaba por entregar erroneamente na sua caixa um doze polegadas test pressing dirigido ao seu vizinho da frente, John Lydon, que costumava ver “no terraço acompanhado por Don Letts”. Este aguardava uma cópia de fábrica de uma música dos PIL… que nunca chegou a ter. “A Virgin queria que o devolvesse, mas eu tinha 24 anos e queria lá saber disso; então mandei-o ao António Sérgio para passar em primeira mão”.

Para a Antena 1 seguiam também alguns fitas dirigidas a António Rolão com o Snakeman Show, um nome roubado ao alter-ego de Riuchi Sakamoto, gravado na BBC Bush House e alguns textos em colaboração com a revista Musicalíssimo.

Regresso “à terra”

“Voltei na noite de Halloween de 1981 (…) como quase não havia editoras independentes, só a Valentim de Carvalho e a Rossil, vim para cá fazer discos a pensar se seria bem acolhido e por um lado fui, mas…” A indústria musical portuguesa monopolizada e a pirataria comercializada no largo do Martim Moniz, os principais entraves, foram o outro lado.

Spizz Energy, Dead Kennedys, The Studioz (que chegam a vir tocar ao Passeio dos Alegres, programa televisivo de Júlio Isidro) entre dezenas de outras edições em vinil e cassete sustentam a editora agora com o nome MHGR/Warm, mas sempre com custos contidos e legislação cumprida ao pormenor. Acaba por ser uma compilação de Disco Sound que provocará o abalo nas relações com o sistema fonográfico português.

Comprando os direitos das faixas directamente às fontes internacionais, contornando as instâncias locais, conseguiam editar legalmente sem intermediários desnecessários. Os vícios institucionais portugueses iniciaram então uma campanha de difamação acusando Rui de Castro de pirataria discográfica, quando na verdade esta partia de dentro do próprio sistema. “Arranjei os contactos da Stiff para uma fábrica em Portugal editar Madness e inúmeras cópias foram parar à Holanda e Inglaterra por preços muito baratos quando não tinham o direitos de exportação, ganhando um monte de dinheiro (…) quer dizer, estes gajos fazem o que querem e eu é que sou o Pirata!”.

Uns comem os figos…

A meio da década de 80, embrenhado em acusações que se arrastavam para tribunal, pesada burocracia e cansado da pressão de falsos moralismos, Rui de Castro encerra a sua aventura na edição discográfica com um single de protesto; “em 83/84 fui ficando atento ao electro e ao rap (…) não havia cá raps e o que me interessava era mandar uma granda boca aos tipos que pensavam que lhes ia tirar o pão da boca por ser publisher e representar os autores das canções (…) comprei as aparelhagens todas e programei uma música toda sozinho”.

O resultado é o disco “O Pirata (Pirate Rap Attack)” por Rui de Castro e o Grupo Português de Piratas + Long John Silver Crew [relembro que era só uma pessoa], editado em 1985. Numa espécie de proto-hip-hop “electro Hi Lo energy mix”, a 108 bpm, é rimado (±) o epitáfio – iniciado com as palavras de Chaka Kan “Play the record” gravadas numa entrevista que lhe fez em 1975 – que descreve o destino trágico da sua editora numa letra encriptada entre sarcásticos e sinceros agradecimentos [ouvir o link na secção áudio da RDB].

Depois de prensados os 7” e gravadas as cassetes, as 500 cópias são compradas na totalidade por um distribuidor que meses mais tarde revelará que “só se venderam três… quer dizer eu acho que se vendia, mas as lojas não tiveram balls para vender, se calhar era muito confuso… pensavam este gajo é pirata ou lá o que é…”.

Ainda pensando numa reinvenção como Snakeman, preparava uma nova etiqueta, a 3G, porque “estava farto de ter o nome queimado (…) tinha tudo certo para fazer um disco que era uma compilação tipo body work out, porque a minha mulher era instrutora de aeróbica”. Foi gravada ao vivo numa discoteca e prensada com todos os direitos pagos… mas ficou tudo “lá em casa”. A máquina ganhou. Fim.

25 anos depois

Um quarto de século passou e este é o  jubileu d’O Pirata. “Mas quem é que quer saber disto?!” Rui questiona. Quem é que quer saber de um gajo que para fugir à tropa esteve numa comunidade de hippies lunáticos na África do Sul, foi parar a Londres onde foi Punk com os primeiros, inventou uma editora do nada, conheceu o John “Sérgio” e o António “Peel”, passou os 20 anos a tocar e a divulgar Punk Rock, Reggae, New Wave, Disco e Electro e ainda veio a Portugal com a lata de se intrometer em negócios descaradamente pervertidos, fazendo two-fingers-à-inglesa rappando na cara dos tachos da indústria discográfica?… Isso é quase como perguntar quem que não quer ouvir a história de Ulisses ou do D. Quixote.



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