Mirror People

Rui Maia

"Devemos mentalizar-nos de que o mundo não vai acabar. Devemos continuar a trabalhar, a fazer coisas e a produzir mais"

Nascido e criado no Porto, Rui Maia é um dos responsáveis pelo sucesso duma das melhores bandas de electro-rock português – os X-Wife. Toca bateria e guitarra desde os seis anos e só não é o David Bowie porque não sabe cantar. Foi nos Air e Joy Division que encontrou inspiração para se embrulhar no mundo dos sintetizadores e daí a decidir começar a desenvolver os seus skills de DJ e produtor foi uma pernada de menino. A solo é Mirror People e esteve na RDB à conversa e no final deu-nos um presente.

“Kaleidoscope” é o teu terceiro trabalho a solo lançado este ano depois de “Cantonese Man” e “The Way You Move” certo?

Não, este ano não (risos). (Começamos bem) É assim, o “The Way You Move” foi um álbum que lancei com os Social Disco Club que já saiu… salvo erro, em 2009. O “Cantonese Man” foi o meu trabalho a solo que saiu por uma editora inglesa, a Untracked, e penso que saiu em 2008 ou 2009. Portanto, são trabalhos que já são um bocado antigos. Este, o “Kaleidoscope”, é o primeiro EP que saiu este ano e vai ser o único. Além do “Kaleidoscope” lancei uns remixes na D.I.S.C.O.texas e na Goma Records. Foi o trabalho que fiz este ano, os remixes e este EP.

O objectivo era saber se andavas armado em David Fonseca, em lançar os álbuns no mesmo ano…

Exacto (risos). Não não.

Avante. Sentes-te um visionário por teres trazido uma sonoridade mais norte-americana para Portugal e consequentemente para a Europa? Que vantagens te trouxe essa alternatividade?

Não sou a única pessoa a fazer este género musical cá. É assim, as coisas saem-me naturalmente e faço este género de música de dança, se calhar um bocado por influência das coisas que oiço e que fui conhecendo ao longo dos anos. Ou seja, o processo não é nada intencional, não é forçado. É como te estava a dizer, não sou a única pessoa que o faço.

Achas que essa visão é crucial para as boas críticas internacionais, da “Sound Confusion” por exemplo, que tens recebido?

É sempre difícil falarmos de nós mesmos, mas eu acredito no trabalho que faço. Se as pessoas gostam, isso é óptimo, ainda bem que assim acontece. Também acaba por ser uma motivação para continuar a fazer músicas originais, remixes, DJ Sets e Live Acts. Claro que as boas críticas ajudam a que isso aconteça. Agora pronto, vamos ver o que acontece daqui para a frente.

Consideras os programas de produção musical, o Garage Band por exemplo, se o considerares como tal, os teus melhores amigos nos dias que correm?

O Garage Band? (risos) Conheço o Garage Band. Fiz o download e estive a experimentar. Aquilo é óptimo para tirar notas e ideias. Apesar de nunca o ter usado já me apercebi disso. Eu uso o Pro Tools, que é um bocado mais complexo, mas nos DJ Sets, no formato digital, uso o Traktor. Acabam por ser as ferramentas que eu uso mais na produção.

Que importância têm as redes sociais para a promoção da marca Rui Maia e Mirror People? Sentes que se estivesses noutro tempo o teu propósito não tinha tantos seguidores?

É claro que as redes sociais hoje em dia são muito importantes. Acho que 90% do meu trabalho é divulgado pelas redes sociais e só o restante é à antiga. É óbvio que dentro das redes sociais podes desenvolver melhor o que fazes e chegas a mais gente. Tens o caso do SoundCloud em que tens mesmo uma rede de amigos e que é mais virado para a música. O caso do Facebook é mais generalista e podes inserir-te como banda. O MySpace já teve outra expressão, agora está um bocado apagado. É verdade que foi dos primeiros a aparecer, mas hoje em dia está muito mais morto. Acho que as redes sociais te levam mais longe e são uma boa ferramenta de produção.

Uma vez que trabalhas a solo, consideras o facto de não teres encargos financeiros, comparáveis aos duma banda, um privilégio no contexto actual de crise da indústria discográfica?

Dentro de Mirror People, tanto uso sintetizadores como guitarras e baixos. Portanto, eu entendo o que queres dizer de não ter aquele encargo todo que tem uma banda, mas o facto é que eu tenho esses instrumentos todos e tive esse investimento. Isto é um bocado vício de juntar dinheiro para comprar coisas boas, de ter os instrumentos e tê-los com qualidade. Acabo por ter algumas coisas que utilizo, outras que não, obviamente, mas hoje em dia há várias ferramentas, como sintetizadores virtuais, que te dão a possibilidade de não gastar tanto dinheiro. Ou seja, existem plug-ins que podes sacar ilegalmente da net e poupas um bocado porque não tens que ter as máquinas a sério. Não tens que ter um Minimoog ou um Yamaha CS80 que hoje em dia no mercado são caríssimos. Acho também que este grande boom de produtores também vai um bocado por esse lado. Porque há ferramentas que são de fácil acesso. É óbvio também é que depois no fim, quando atinges o produto final, é que se consegue verificar que existe uma diferença entre o digital e o analógico. Esta velha história de o que é melhor. Eu vou mais pelo analógico e gosto mais de ter as máquinas reais, mas é óbvio que, como estavas a dizer, em termos monetários fica mais caro do que teres uma máquina sacada da net.

Falando do panorama de crise actual. Onde achas que isto vai parar?

É complicado. Eu não sei onde vai parar. A minha opinião sobre isto tudo é que, se de facto estamos a passar uma crise, devemos mentalizar-nos de que o mundo não vai acabar. Devemos continuar a trabalhar, a fazer coisas e a produzir mais. Acho é que é preciso criar soluções porque, se realmente existe uma dívida, temos que reunir condições para a pagar. Se nos emprestaram dinheiro temos que o pagar.

E focando-nos mais na área discográfica…

Em relação à venda de discos?

Em relação à venda de discos, à cada vez menor afluência das pessoas a concertos e festivais de verão, à necessidade de cartazes megalómanos para um evento ser minimamente viável…

Acho que em relação aos festivais em Portugal existe um excesso de oferta. Existem imensos festivais. Adoro tocar em festivais e sempre que me convidam vou, claro. Têm uma exposição enorme e sei que é bom para a minha carreira isso acontecer. Mas por outro lado sei que os festivais roubam público às salas nesta altura de Inverno em que não há festivais. Quando um artista faz um concerto numa sala tipo um Coliseu, Ritz Clube ou Musicbox, o facto de haver tantos festivais leva a que as pessoas já não gastem tanto dinheiro nesses concertos individuais. Olha o caso do Vodafone Mexefest, em que o bilhete custa 40€ para os dois dias e é uma data de bandas. Se calhar até lá vão surgir outros concertos em salas mais pequenas que, como existe esta suposta crise, as pessoas nem vão gastar dinheiro a ir porque pensam: “Depois vamos ao Mexefest e tal. Vemos não sei quantas bandas e porque vai ser animado, etc”. Acho mesmo que existe uma oferta em demasia de festivais em Portugal e devia ser uma coisa mais controlada. No fundo, mesmo os festivais grandes fazem concorrência uns aos outros. Não há pessoas para tantos festivais. Eu gosto mais da forma mais tradicional, das salas fechadas, com o espectáculo mais virado para os fãs.

Achas que os festivais acabam por funcionar mais como showcases para as bandas?

Claro. Por vezes nem se preparam, não têm as condições sonoras adequadas nem têm tempo para fazer um soundcheck em condições. A maior parte das vezes levas com pessoas que nem sequer se sabe porque é que estão ali. Nem conhecem a banda se for preciso. Contrariamente, quando vais a um espectáculo dedicado, à partida, sabes que as pessoas que estão lá são fãs das banda e então é claro que o ambiente se torna completamente diferente e o próprio espectáculo da banda para o público certamente será diferente. A banda nota o calor que as pessoas dão ao reagir às músicas, etc. Contudo, obviamente eu não sou contra os festivais.

E enquanto Mirror People, o que aconteceu para preferires trabalhar sozinho?

Eu sempre fiz canções em casa, já desde muito novo. Depois quando me meti a tocar com os X-Wife, quando formei a banda com o João Vieira, continuei a fazer canções, algumas que foram para aos X-Wife. Mas só depois, mais para a frente, é que tive o convite para gravar um EP para a Optimus Discos. E assim o fiz. Isto foi em 2009. O projecto Mirror People só surgiu mais tarde, em 2010, porque esse tal EP é ainda em nome individual. Depois senti a necessidade de formar um projecto que fosse uma continuidade em nome individual, ou seja, o Rui Maia. Queria que essa continuidade fosse feita com o nome de banda para a coisa ficar mais universal. Formei então Mirror People, que é uma continuação do projecto Rui Maia, só que com o nome de banda. Surgiu tudo aí.

Qual é a vantagem de fazer a música a solo? É assim tão diferente de trabalhar com os X-Wife?

Sim. Mesmo musicalmente são coisas diferentes. Mirror People é um projecto de música de dança e X-Wife é uma banda de rock dançável. Mirror People é um projecto mais virado para o disco-house e os X-Wife têm uma vertente mais rock, punk rock, com os sintetizadores. O que acontece é que há certos elementos que eu tenho em Mirror People que os levo para os X-Wife e o mesmo se passa ao contrário. Tento, com a experiência que tenho nos X-Wife, que já é uma banda com dez anos, trazê-la para Mirror People. Há muitas coisas que eu sei que aconteceram com eles que me deram experiência. Mas são coisas completamente diferentes e também em Mirror People é o meu projecto a solo. Sou só eu que dou a cara, sou só eu que tenho o trabalho todo. Já nos X-Wife somos três que temos ideias e que contribuímos para o projecto. Gosto das duas formas de trabalhar, mas, naturalmente, o projecto Mirror People é o que dou mais atenção.

E nos We Trust? Experimentas uma componente que não tens nos outros dois projectos?

Eu por acaso já não faço parte do projeto We Trust. Já não faço há bem pouco tempo e é a primeira vez que digo que não faço parte a alguém da comunicação social.

Que se passou?

Não faço parte por uma questão de tempo e prioridades. Gravei algumas músicas do álbum e toquei em vários concertos ao vivo. Mas o meu contributo em We Trust, tal como acontece nos X-Wife e em Mirror People, foi o de levar um pouco o conhecimento que adquiri em todos os meus projectos. Mas We Trust é um projecto do André Tentugal, não é uma banda. Eu era só um músico convidado que gravou umas canções do álbum.

O facto de não te considerares um cantor facilita ou dificulta as coisas em Mirror People?

Dificulta muito (risos). Tenho que andar sempre em constante procura de gente para cantar quando quero vozes nas minhas canções. Uma das minhas grandes falhas é não saber cantar. Adorava saber cantar, mesmo. Facilitava-me muito as coisas, mas é algo que para mim é muito complicado e que acho que não tenho jeito nenhum.

Finalizando. Se pudesses, sem olhar a custos, escolher alguém para trabalhar contigo, quem convidavas?

Sem dúvida o James Murphy dos LCD Soundsystem. É um produtor que eu admiro imenso. Destes últimos grandes produtores, o James Murphy foi sem dúvida uma grande influência e se calhar a pessoa que mais mudou a música nos inícios dos anos 2000, quando começou a misturar rock com electrónica. Fez parte daquela cena toda de Nova Iorque e, apesar de agora não aparecer com nada há algum tempo, considero toda aquela música dos três álbuns dos LCD e dos EP’s muito boa e muito bem conseguida.

Oiçam a mixtape exclusiva de Mirror People para a RDB aqui. Podem também fazer o download gratuito aqui.



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