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Rui Neves | Entrevista

“A música de jazz tem sempre um sentido colectivo. Em cada coisa que se está soa diferente e é isso o maravilhoso!”. Conversa com o director artístico do Jazz em Agosto que comemora o seu 30º aniversário.

Nota: Na secção de passatempos temos muitos convites duplos para oferecer.

Durante os preparativos para o festival Jazz em Agosto, que celebra este ano o seu 30º aniversário (de 2 a 11 de Agosto), fomos até aos jardins da Gulbenkian conversar com o seu director artístico. Um bom contador de histórias, Rui Neves falou-nos de como nasceu o mais importante evento de jazz contemporâneo em Portugal, da cena do jazz nacional e do programa especial desta edição que está prestes a começar.

RDB: Conte-nos, de forma breve, a história do Jazz em Agosto.

RN: O Jazz em Agosto (JeA) começou por ser um desejo da Dra. Madalena Perdigão, na altura a fundadora e directora do serviço ACARTE da Fundação Calouste Gulbenkian, integrado no Centro de Arte Moderna. O ACARTE sempre se regeu por princípios da arte contemporânea e, justamente, o JeA começou aí. Decidiu-se fazer uma experiência zero no mês de Agosto de 1984 só com músicos portugueses. Chamou-se a direcção do Hot Clube, uma vez que era a entidade com mais legitimidade, digamos assim, para sugerir os músicos, e assim aconteceu, com concertos no anfiteatro ao ar livre, gratuitos, que foram um sucesso. Então, a Dra. Madalena, que me conhecia porque eu tinha colaborado com ela no primeiro Festival de Música Internacional de Lisboa, em 1983, perguntou-me se eu estaria interessado em dar continuidade ao JeA, mas de uma forma mais ambiciosa, que passasse naturalmente por apresentar grupos internacionais de nomeada.

Na primeira edição que fiz em 85 tivemos o Sun Ra Arkestra, um concerto memorável, e o quinteto do Dave Holland que revelou ao público português o saxofonista Steve Coleman. Tivemos o trio do guitarrista norueguês Terje Rypdal, o grupo Onix do José Eduardo e o António Pinho Vargas. A coisa voltou a funcionar muito bem e continuou, até hoje. Com transformações, bem entendido, porque as fórmulas ao longo destes anos não têm sido fixas. O que se tem mantido sempre é o critério de escolha dos músicos, com bastante qualidade artística e nomes que façam parte da história contemporânea do jazz.

Entre 92 e 99 eu estive ausente porque houve uma direcção do serviço ACARTE, do Sr. Sasportes, que entendeu que o sistema de direcção artística se basearia em cartas brancas: todos os anos a curadoria ficaria a cargo de um músico diferente. Começou com o António Pinho Vargas, depois o Carlos Zíngaro e finalmente o contrabaixista José Eduardo, entre 92 e 94. Depois, o Sr. Sasportes saiu da direcção e entrou a Professora Yvete Centeno, que decidiu colocar o Hot Clube de novo na condução das programações. Foi uma fase mais cinzenta. Não que tenha atraiçoado os princípios, mas manteve-os naquela faixa do mainstream, de nomes famosos, mais corriqueiros.

Quando o serviço ACARTE acaba, em 99, fui novamente chamado para retomar a direcção do festival e pensei logo que os tempos eram diferentes. As coisas também se transformam e, no princípio do século XXI, estávamos a conhecer uma grande revolução, saídos de uma era analógica para uma era digital. Pensei que o JeA tinha que sofrer uma alteração profunda e readquirir os princípios que o nortearam desde o seu nascimento. Assim, tivemos mais preocupação em divulgá-lo e passámos a convidar jornalistas internacionais que deram um eco muitíssimo favorável. Outro factor importante foi que a partir de 2006 o festival passou para a égide do Serviço de Música da Gulbenkian, o que lhe deu uma grande estabilidade. Portanto, destas 30 edições, esta é a minha vigésima. Sempre com programações, penso eu, suficientemente interessantes e que acabaram por criar a identidade que o festival tem hoje.

Sempre numa perspectiva vanguardista, o Jazz em Agosto prima por uma programação com propostas que nos permitem ouvir alguns dos melhores projectos que se fazem no mundo do jazz. Como é feita a programação e quais os critérios?

Os critérios, como eu já disse, são sempre de qualidade artística. Depois, é a própria história contemporânea do jazz, é o que os músicos andam a fazer. Um programador tem de estar muito bem informado do que se passa para poder escolher melhor. Logicamente, põe o seu empenho pessoal e o seu próprio gosto, é inevitável. Mas um programador tem que pensar que quando apresenta um grupo de músicos é algo em que ele acredita e que pretende partilhar com a audiência. Eu acredito sempre que as pessoas que vêem aquilo pela primeira vez, gostam e aderem.

Este ano vamos ter um livro que assinala as três décadas que atravessámos, com 50 biografias/ensaios sobre 50 músicos que aqui actuaram. E, justamente, esse livro pretende demonstrar que os músicos que têm vindo aqui são mesmo importantes e parte da história contemporânea do jazz. Os projectos que se estreiam aqui têm sido sempre estreia em Portugal. Os músicos repetem-se mas hoje em dia funcionam num sistema de vasos comunicantes. Podem ter dois, três ou quatro grupos completamente diferentes entre si e isso é a riqueza do jazz na actualidade. São músicos irrequietos, criativos, que pensam em transcender a convencionalidade da própria música. E o jazz é uma música flexível que absorve muitas músicas à volta. Os músicos são dotados, estudam, sabem o que estão a fazer e é isso mesmo que interessa. E a minha consciência está muito tranquila nesse aspecto porque sei que se tem contribuído para aquilo que eu já disse há pouco: compartilhar esse conhecimento.

A presente edição do Jazz em Agosto aposta em músicos que já passaram pelo festival. Desde 2000, e como o Rui já referiu, tem-se assistido a uma certa repetitividade de músicos e formações, inclusivamente numa mesma edição. Não pode dar a sensação de que o jazz termina aqui e não há nada mais para além deste?

Como disse há pouco, os músicos de jazz funcionam hoje num sistema de vasos comunicantes. No jazz mais fora do cânone os músicos são mais criativos do que um músico mainstream, que pode tocar com outros músicos, mas toca standards, originais decalcados de standards e não passa disso. Um músico como o Evan Parker tem montes de projectos diferentes e tem aparecido aqui a solo, com o seu ensemble electro-acústico, ou com a orquestra do Barry Guy como músico distante.

Mas este ano, na 30ª edição, esse facto é assumido. São músicos que nós revelámos aqui em primeira mão, em Portugal. Mas como eles são muito criativos, os projectos são sempre diferentes e as pessoas sentem isso. Essa questão de serem os mesmos músicos… O mundo funciona assim, não é? Mas, por exemplo, olhando para as três décadas do festival, o Sun Ra veio só uma vez. Porque Sun Ra é assim, começa e acaba ali. Se o contratarmos novamente… não ele que já morreu, coitado, mas a sua orquestra dirigida pelo saxofonista Marshall Allen, vemos que é precisamente igual.

Nesta edição, músicos que ajudaram a criar a identidade do JeA regressam com novos projectos. Há os festivais supermercado que escolhem músicos que estão na berra, têm dinheiro para o fazer e sabem que o público está garantido. No JeA a ideia sempre foi a de assumir riscos. E sabemos que não é fácil em Portugal conseguirem-se 900 ou 1000 pessoas num espectáculo mais vanguardista, como já tem acontecido aqui. Por exemplo, o concerto de 2009 do Electro Acoustic Ensemble do Evan Parker, que é um grupo que raramente toca porque tem muitos músicos e é muito caro, foi o concerto com mais público que eles tiveram na sua vida, quase 1000 pessoas! O que interessa é o que eles fazem com os outros músicos e a música de jazz tem sempre um sentido colectivo. Em cada coisa que se está soa diferente e é isso o maravilhoso! Não constitui nenhum problema e nem sequer quer dizer que o jazz acaba aqui. Isto é simplesmente uma parte do jazz. Nós vemos o jazz comercial, canónico ou académico, que é o mais conhecido: Wynton Marsalis, Sonny Rollins, Cedar Walton… Isso é o mainstream e a mim não me interessa continuar a preservar uma forma que está estratificada no tempo. É como hoje ouvirmos a música clássica ocidental. Evidentemente, vamos ouvir Beethoven, Mozart e é muito bonito. Mas depois temos também o outro lado, o contemporâneo. Stockhausen, Xenakis, uma série deles. E é isso que faz avançar a linguagem. O que o JeA faz ao longo deste tempo todo é dar o palco a quem é portador de novas linguagens.

Entre 2000 e 2012 houve 148 concertos no Jazz em Agosto, 138 de músicos ou formações estrangeiras, e apenas 10 de produção totalmente nacional. O ano de 2013 confirma a regra. Porquê?

Para já, não sou nacionalista. Depois, quando se contratam grupos portugueses eles tem que ter um nível próximo dos internacionais que vêm cá. É o meu grande argumento. Há também o lado de a Fundação Calouste Gulbenkian ser uma instituição privada e não ter esse tipo de obrigações, embora as siga em várias áreas, como na arte, na beneficência, ou com bolsas de estudo para músicos portugueses estudarem lá fora. Mas no JeA a linha estética é muitíssimo rigorosa. É uma minoria, mas para mim não tem nenhum problema. Há por aí outros festivais que privilegiam isso e só têm músicos portugueses. Sou português no cartão de identidade, mas a minha mentalidade é internacional.

Mas é estranho que um festival produzido em Portugal não tenha uma percentagem significativa de músicos locais. Posso concluir que não tem um grande apreço pela cena artística portuguesa em comparação com o que vê lá fora?

Lá fora, por exemplo, vou ao Festival de Saalfelden, na Áustria, e também é quase tudo americano. Mas tem os austríacos que são muito melhores que os portugueses, sinceramente. Têm mais ideias novas. O jazz português está muito estratificado. É um problema das escolas que ensinam a tocar só “daquela maneira” e não têm professores que sejam visionários. É o que eu sinto. Vejo músicos bons que sabem tocar bem, mas para mim isso não chega. Quero novas ideias no jazz português e espero que elas apareçam daqui a um tempo. E tudo porque o jazz chegou a Portugal tarde. As escolas surgiram há cerca de 30 anos. Se compararmos com França, onde já há estéticas muito originais, ou com o jazz na Holanda… Eu conheço o jazz todo aí da Europa, da América, do Canadá e vejo as diferenças abissais que há. Ainda estamos na escola!

E nomes de vanguarda como Rafael Toral, Sei Miguel, David Maranha, Hugo Carvalhais ou Manuel Mota, entre outros, com um trabalho que revela uma certa inquietação e criatividade e que são altamente reconhecidos lá fora? Também não têm qualidade para estarem presentes no Jazz em Agosto?

Para já começo por dizer que eles não são altamente reconhecidos lá fora, são-no em meios muito pequeninos. Eu sei como é que eles funcionam. Em pequenas galerias, quase não ganham dinheiro nenhum e vão lá fora porque podem ir. Arranjam uma viagem low cost, ficam em casa de alguém… Agora, eu sei que esses músicos, Sei Miguel, Toral e outros, fazem uma certa acção de “porque é que não vamos ao JeA?”. Sentem-se com direito ao JeA. O que eu digo é que eles não cabem no festival porque o tipo de música que fazem não é a que nos interessa, só isso. Temos o direito de o dizer. Eles podem pensar que são superiores a tudo, mas o problema é deles. Não tenho nada a ver com a música que eles fazem, até já a ouvi várias vezes e acho que são músicos muito deficientes. Excepção para o Manuel Mota, dentro do campo do experimentalismo. Fui vê-lo à Zé dos Bois e até gostei, e gosto. Quando fizemos o ciclo de improvisação da Câmara Municipal, o Fonoteca Files, com o Jorge Lima Barreto, considerámos o Manuel Mota e o David Maranha. E portaram-se bem dentro daquele contexto de música improvisada, experimental, noise… O JeA não é bem o sítio desses músicos e eu também não tenho nenhuma obrigação para com eles.

Não o preocupa o que pensará a crítica internacional de tudo isto, de um festival que não dá a conhecer os músicos da sua terra?

A crítica internacional até ao momento não colocou nenhum problema sobre esse aspecto. Repito: quando a actividade portuguesa na música dentro da área do jazz mais avant-garde tiver o seu nível atingido, porque não considerá-los? Até lá, há um longo caminho para percorrer. E hoje em dia é muito fácil também fazer um disco, é barato. Qualquer pessoa manda o disco para um tipo qualquer, tem um amigo que é jornalista… vemos isso nos jornais. Uma vez vi duas páginas no Ípsilon sobre o Sei Miguel, como se aquilo fosse alguma coisa de relevo, que não é. E ele bem se esforça. Mas o facto é que não têm qualidade, não têm técnica como músicos. Eu gosto de músicos que saibam tocar. Podem até fazer noise, de que eu gosto, mas vou lá fora ouvir. Vou agora ao Festival de Victoriaville, no Canadá, no dia 16 de Maio, mas esses é que são os verdadeiros estetas. Não vejo lá fora o Sei Miguel, não vejo o Mota. Vejo-os em coisinhas que são pequeninas e porque eu reparo nisso, porque a maior parte das pessoas nem repara. Não cedo a manobras manipuladoras dos media para dizer “eu sou o melhor do mundo e porque é que não vou ao JeA?”. Se calhar, não é o melhor do mundo. Pelo menos eu não entendo que seja.

Ponto por ponto, apresente-me o programa da 30ª edição do Jazz em Agosto, destacando os seus momentos altos e a razão destas escolhas.

A ideia que presidiu foi a escolha de músicos que têm contribuído para a identidade do JeA e saber o que é que eles estão a fazer agora. O festival abre com o John Zorn, um músico muito querido pelo nosso público, que veio a primeira vez em 92, com o seu grupo emblemático Naked City. Mais tarde veio em dueto com a Yamatsuka Eye, com o quarteto Masada, com o Mike Patton e a Ikue Mori. Coincidindo com o seu 60º aniversário, que ele queria assinalar, traz aqui três coisas diferentes: os dois grupos emblemáticos actuais, o Dreamers e o Electric Masada, e ainda um espectáculo que não vejo nos outros festivais, o Essential Cinema. O Zorn faz muita música para filmes alternativos, underground, experimental, com cineastas que não são conhecidos, marginais, com tendência política, do cinema lésbico. Tudo isso está na sua série da Tzadik, na Filmworks. Ele próprio escolheu as temáticas e vai trazer os filmes, apresentá-los e tocar em simultâneo. É um músico com grande importância no mundo contemporâneo, sem fronteiras, que começou no jazz e começou logo a inovar.

Depois, aí está a presença portuguesa, mas elaborada, pensada. O Drumming GP aparece a tocar a temática do grupo de percussão Max Roach M’Boom dos anos 80. O Max Roach esteve no JeA de 95, precisamente quando a direcção artística era do Hot Clube, mas eu tive uma mão nisso na altura. Tocou a solo, com o seu quarteto, com o duplo quarteto e fez um workshop de percussão que pretendia reconduzir a ideia do M’Boom. Na altura não era possível trazer os músicos todos porque cada um era de sua nação e era muito difícil. Então, fez-se um workshop só com músicos portugueses. Escolheram-se os melhores bateristas e percussionistas que nós tínhamos. Quando eu falei com o Miquel Bernat, o director do Drumming, o mais importante grupo de percussão em Portugal, e lhe propus este projecto, ele, surpreendentemente, disse-me “tem muita graça porque quando eu decidi ser percussionista e comecei a estudar fui justamente inspirado pelo Max Roach M’Boom”. É uma história muito engraçada. Depois, a questão que se colocou foi: mas há pautas da música? Fizeram-se muitos contactos internacionais e chegou-se à conclusão que não há pautas. Ou seja, eles têm que ouvir a música, descodificá-la e escrevê-la. É uma encomenda, um trabalho sério! Espero que o resultado disso seja bom porque estamos a assumir um risco, o que também é preciso nas programações. Mas eu confio plenamente nos músicos, onde se incluem dois muito bons que até vêm do jazz, o Alexandre Frazão, baterista, e o Jeffery Davis, vibrafonista.

A seguir temos o jazz escandinavo, a que sempre temos dado relevo. O Elephant9 é um power trio de Oslo da nova geração, que vem acompanhado do guitarrista Raine Fiske, com quem gravou o último disco “Atlantis”. Acho que vai ter muito bom efeito aqui pela utilização de sintetizadores analógicos, como também a de um pequeno eléctrico fender ou dum órgão Hammond B3. Os músicos de jazz estão hoje a regressar aos instrumentos analógicos. São tudo peças do passado mas que podem ter uma utilização fantástica no presente. São instrumentos com muita identidade e não é agora, no mundo digital dos sintetizadores e das máquinas de ritmo, que vão ser suplantados.

Na continuação, teremos o grupo The Thing XXL, do Mats Gustafsson, Ingebrigt Haker Flaten e Pall Nilssen-Love, com mais quatro músicos, um deles o trompetista Peter Evans. É uma formação que actuou muitíssimas poucas vezes e estreou no Jazz Saalfelden Festival. Eu vi-os na altura e achei-os um grupo com muito power. Pode-se pensar que é free jazz tout court, mas não, é muito mais do que isso. Hoje em dia a estética do free jazz é mutante, não é realmente aquela coisa estática que era quando começou, nos anos 60.

No dia seguinte temos o novo octeto do Peter Evans, que inclui o Jim Black e o Sam Pluta na electrónica. É um grupo muito elaborado e ele está muito preocupado com isso. Até vem uns dias antes para ensaiar porque é um projecto novo. A base é o seu quinteto, à qual se juntam mais três músicos. Será uma estreia europeia e não sei se mundial mesmo.

Depois, temos o novo quarteto do Anthony Braxton, um quarteto de câmara, que estreou no ano passado num festival na Suiça, transmitido em streaming pela BBC3. O único registo que há é essa gravação que eu tenho e que será passada no meu podcast quando fizer os cinco programas sobre os concertos todos do JeA. Esta é a terceira vez que Braxton actua no festival nos últimos 13 anos.

A seguir temos Mary Halvorson, guitarrista e discípula do Anthony Braxton, que tem vindo cá como sideman e que agora vem com o seu quinteto. Toca com uma série de malta nova da cena, o Jon Irabagon, saxofonista, o Johnathan Finlayson, trompetista, o John Hérbert, contrabaixista. Posso dizer que já vi o grupo duas vezes, no ano passado, e fiquei muito impressionado. Porque é uma coisa diferente.

A fechar temos o Pharoah Sanders que virá num projecto que só tocou umas duas vezes, no Jazz Saalfelden Festival e uma vez no Brasil, e que reúne dois grupos do Rob Mazurek, o trompetista, um músico muito criativo que também tem gerado a identidade do JeA, e que inventou este grupo, o Pharoah & The Underground, que coordena com o grande Pharoah Sanders. O Sanders é um histórico do free jazz, um sobrevivente, um músico que vem já de 1960. Quando a gente vê o Pharoah Sanders muito novo a tocar com o John Coltrane, nos discos da Impulse de 1966/67, naquela fase final do Coltrane, ele está sempre ali ao seu lado. Pode-se dizer que foi legitimado pelo John Coltrane.

Mas o JeA não acaba só nos concertos. Temos sempre apresentado filmes diferentes, documentais, sobre os músicos que actuam. Este ano temos quatro filmes de uma série que o John Zorn produziu, de cineastas seus amigos, e que editou na Tzadik sob a forma de DVD. São filmes muito interessantes e muito originais. Uns têm música dele, outros não, e estrearam no New York Film Festival em 2011. Depois, vamos apresentar integralmente os 10 episódios da série aTensão Jazz que eu fiz com o realizador Paulo Seabra, uma história do jazz em Portugal. Também apresentaremos uma gravação, feita aqui no JeA, do Saxophone Quartet, um grupo muito importante na altura, que veio cá tocar com o David Murray, o Julius Hemphill, o Oliver Lake e o Hamiet Bluiett. É um grupo que ainda existe, mas dos originais só está o David Murray. O Hemphill, um músico super importante do jazz contemporâneo, já morreu e a única vez que tocou em Portugal foi precisamente nesse quarteto. O registo foi feito aqui em 1987 pela realizadora da televisão Margarida Gil. No último dia temos o registo dos arquivos da RTP da Sun Ra Artkestra no JeA. Esse concerto foi um histórico porque ele tocou a primeira noite e aquilo estava tão cheio que ficou gente à porta. Depois, as pessoas queriam mais e eu liguei para a Dra. Manuela Perdigão a perguntar-lhe se seria possível fazer outro concerto. Ela lá disse que sim, foi fantástica! No intervalo de um dia o Sun Ra fez outro concerto totalmente diferente, à antiga, como os que ele fazia quando tocava com o Fletcher Henderson, na altura das Territory Bands, do jazz antigo, de 1930. Muito giras, as bandas faziam aquilo para a malta dançar mesmo. Na altura não havia música de dança, como há agora, e o jazz tinha esse papel.

Penso que para uma edição como a 30ª edição está ok! Claro que se pode fazer melhor, mas vai-se fazendo cada vez melhor. E pode-se nunca chegar ao nirvana, mas pelo menos o que se faz está bem!



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