Rui Portulez

A concentração é sempre má e devia estar mais legislada em Portugal porque acontece em todas as àreas.

Rui Portulez é hoje uma das vozes da Rádio Oxigénio e crítico de música no suplemento Y do jornal Público. Começou a ganhar o gosto pela rádio numa estação pirata e a partir daí nunca mais a largou. Quisemos saber mais sobre o seu percurso e sobre o que pensa do estado da indústria musical em Portugal, entre outras coisas. O resultado de uma conversa agradável foi este.

RDB – Como surgiu a rádio na tua vida?

R.P. – Eu comecei a fazer rádio com uma rádio pirata na Figueira da Foz por volta dos 15 anos com um programa de autor. No início éramos três a fazer aquilo, mas os outros não queriam falar e comecei eu a fazê-lo. Não tinha experiência nenhuma, claro. Basicamente passávamos a música que queríamos e fazíamos umas “avarias”. Depois fomos corridos da rádio por causa de umas emissões polémicas. Depois da passagem pela rádio pirata fui tirar o curso de rádio na universidade de Coimbra e partir daí continuei agarrado a ela.

RDB – Procuras sempre trabalhar numa rádio com que te identifiques?

R.P. – Em princípio sim, mas… na rádio existem duas dimensões: aquilo que é a rádio profissão, ou seja, seres capaz de fazer rádio e aquilo ser a tua profissão e seres competente e cumprires os mínimos do que é fazer rádio e estares pronto para fazer qualquer tipo de rádio; e depois há o ideal de rádio, que é fazeres na rádio aquilo que realmente gostas, passares a música que realmente te interessa e escolhê-la e eu tive sorte de ter sempre conseguido, de uma maneira ou de outra, fazer sempre isso.

RDB – Sempre foste um “amante” de música ou esse amor veio depois da rádio?

R.P. – Sempre ouvi música como qualquer outra pessoa. Como proporcionou-se fazer o programa de rádio e como o tinha de “alimentar”, isso desperta a necessidade de ouvires música, procurá-la e a música é como tudo. Quanto mais ouves e mais coisas conheces, mais vais percebendo sobre ela e a vontade ouvir mais e conhecer mais vai aumentando.

RDB – Antes da Rádio Oxigénio, passaste pela XFM. Que achas destes projectos, ditos alternativos, que surgem e que levam a pensar que vão ser a próxima grande coisa mas que acabam por “morrer na praia”?

R.P. – O problema deste tipo de projectos é sempre financeiro. As pessoas que pertencem a eles têm uma liberdade muito grande em termos de realização e na XFM isso acontecia muito, mas depois tens de ter um suporte muito grande. Por muito que se ame a rádio e a música, no fim do mês há sempre contas para pagar. A rádio custa imenso dinheiro, tanto em termos técnicos como humanos. Este tipo de rádios, nunca será para um grande público, mas sim para formar público. São sempre para poucas pessoas porque é um problema cultural do país, lê-se pouco, os filmes que nós achamos que são bons nunca são vistos, as tiragens dos jornais são ridículas…

RDB – O nível de interesse das pessoas não evolui então…

R.P. – Acho que evolui muito pouco. As coisas mudam, mas os níveis de analfabetismo e de iletracia continuam enormes em Portugal. É como aquela teoria do Homem consumista. O que se quer é que consuma, não que saiba muito, porque senão já faria uma escolha mais selectiva das coisas e isso poderá não ser muito bom… também há o problema da publicidade que não investe em rádios que chegam a poucas pessoas, por que não percebem que aquilo é um público-alvo que consome muita cultura.

RDB – Depois há o problema da concentração… dos grandes grupos como a Media Capital que agrupam tudo. Achas que oprimem o desenvolvimento deste tipo de projectos?

R.P. Sim, oprimem e condicionam. Porque o ideal para estes grupos é agrupar numa mesma empresa uma série de meios e pessoas e depois poderem circular os empregados entre as várias vertentes da mesma empresa, poupando assim muito dinheiro. Isto é mau para o mercado de trabalho, não estimula a concorrência… mas para eles é óptimo. Na Media Capital eles têm acesso privilegiado da rádio à televisão, ou seja, promovem a rádio na TV e nos jornais e alcançam imenso sucesso por causa disso.

RDB – Neste vosso espaço acabaram por fazer o mesmo reunindo a Radar e Oxigénio…

R.P. – Sim, é quase a mesma coisa a uma escala menor, com menos meios e espaço reduzido. Tenta-se rentabilizar aquilo que temos. Mas concordo que a concentração é sempre má e que devia estar mais legislada em Portugal porque acontece em todas as àreas. Não se cria espaço para coisas novas, nem se investe em coisas novas porque a fórmula resulta e quer-se é vender o que as pessoas procuram.
Depois há também o papel da crítica, onde são 20% dos álbuns que se criticam são bons e 80% são para cumprir calendário.

RDB – Mas em Portugal há muita vontade de querer divulgar o que é novo, apesar de se calhar não haver visibilidade mais tarde em termos de vendas ou de passar nas rádios.

R.P. – Sim, há vontade. Mas o mercado está condicionado, com as playlists fechadas e rígidas que não deixam entrar coisas novas. Entre apostar no novo álbum da Janet Jackson ou de Izzi Dunn, à partida aposta-se na Janet Jackson porque vai chegar a mais gente. Para as editoras, e não só, mais vale apostar no seguro.

RDB – Como tem sido o feedback da Oxigénio? Há espaço neste momento para esta rádio?

R.P. – A Oxigénio reflecte um bocado esse lado da crítica em Portugal de apostar em coisas novas, até porque muita gente que aqui trabalha é crítica de música na imprensa escrita, e em criar mercado para coisas novas. Em Portugal, há muitas bandas que vêm cá tocar apesar de nem terem muito relevo no mercado e isso é curioso. Traz-se estas novas bandas porque está-se a criar um nicho de mercado para elas. E depois o que se passa é que quem tem dinheiro e relevo, como as rádios nacionais por exemplo, não pegam nisso. Os Portishead não eram ninguém em Portugal antes de virem tocar em concerto. Depois vêm cá tocar e enchem tudo onde tocam e vendem imensos discos.

RDB – Assim, porque é que a Oxigénio não arrisca um pouco mais em termos de divulgar ainda mais o que existe em termos de música de dança e de música dita alternativa?

R.P. – Porque nós cingimo-nos basicamente àquilo que gostamos. É a única regra que existe aqui. A XFM foi uma óptima experiência para saber como se cria uma rádio sem grandes meios financeiros que acaba por fazer o trabalho que as rádios estatais deviam estar a fazer. Também aprendemos imenso em relação à playlist. Em vez de termos 50 músicas a tocar incessantemente, se tivermos 500 ou 600 a tocar com graus de rotação diferentes, que é o que fazemos, dilui-se o efeito de repetição e torna-se muito mais agradável para os animadores. O que repete mais na nossa lista são os temas em que apostamos porque é a única forma de entrar no gosto dos ouvintes. Não temos uma playlist encomendada, como a maioria o é.

RDB – Então preferem não passar tudo que é alternativo, só porque o é, mas o que é alternativo e bom?

R.P. – Não queremos passar coisas só porque é alternativo. Há muita coisa alternativa que é péssimo e não tem lugar aqui. E depois também há coisas que são boas, mas que não fazem sentido em rádio. Um dos objectivos da Oxigénio é chegar ao máximo de pessoas possível, sem comprometer a nossa escolha musical e sem fazer cedências, mas tendo a noção que queremos criar mercado para o que escolhemos. Já se perdeu aquela ideia de que o disco que mais ninguém tem e que não é fácil de se obter é que é bom.

RDB – Achas que a explosão da Internet foi boa para se conhecer novas coisas e abrir horizontes?

R.P. – Acho que é bom porque tens acesso à música como não tinhas antes.

RDB – Mas depois vêm as editoras reclamar…

R.P. – Sim, porque as editoras ainda não se adaptaram a isto. Está tudo a ser muito rápido. Há reflexos da revolução tecnológica em tudo, mas depois na sociedade em geral, houve modificações incríveis que ainda estão a ser absorvidas e não são dominadas.
É capaz de ser uma maneira de as editoras se reajustarem ao mercado e evoluírem, em vez de estarem no seu lugar de topo.

RDB – No entanto, os concertos que mais facilmente enchem são aqueles das bandas que mais circulam na net…

R.P. – Sim, e são os que mais vendem. Porque a ideia é a da divulgação da música e depois há o negócio com a música, que dá milhões por ano.

RDB – Os programas de autor são o único espaço onde novos discos podem ser divulgados?

R.P. – Sim, na rádio como a tens… hoje, voltámos à rádio de há muitos anos atrás. Por um lado, tens a Radar e a Oxigénio que são rádios específicas que se preocupam com a divulgação e depois tens os programas de autor, cada vez em menor frequência do que antigamente, que conseguem introduzir novas coisas e dão muita margem de manobra. E depois há a rádio na Internet, só que há o problema da Internet ainda não estar completamente implantada.

RDB – É como que o substituto às rádios piratas?

R.P. – A portabilidade e o grau de profissionalismo não são os mesmos, mas tem a vantagem de chegar a todo o lado. No entanto, as vantagens que a rádio tinha ao início são as vantagens que tem agora. É fácil e barata e dá milhões quando metes as playlists que os consultores te dizem (risos).

RDB – Como é que surgiu a ideia de editar a compilação Puff?

R.P. – Partiu de um convite da editora, a Vidisco, o que me agradou logo à partida porque se insere na lógica de fugir à tendência de terem só álbuns comerciais e ligeiros. Porque razão é que a Vidisco há-de ter o estigma de ser isto ou aquilo? A Vidisco é uma editora com um catálogo que roça o miserável, com produtos desinteressantes e cujo objectivo é vender e chegar ao grande público, não sendo tudo mau, mas quis inverter essa imagem e abrir uma linha com músicas tipo as que a Oxigénio passa.

RDB – Quais as condições impostas para a compilação?

R.P. – Eu aceitei o convite, mas com a condição de que teria a música que eu escolheria, sem abdicar disso e meter um artista qualquer só porque eles queriam. Isto estendeu-se ao grafismo, que foi feito por um gráfico que conheço e que ficou exactamente como eu tinha pensado.

RDB – Qual foi a ideia por detrás das músicas escolhidas?

R.P. – Foi ter músicas que se oiçam bem e com qualidade. Estou contente com a compilação porque tem a música em que eu acredito e que acho que a maioria das pessoas não conhece e pode atrai-las para virem a conhecer. Deu também para rever o meu papel como crítico ao ler comentários do tipo, “este disco é pouco ousado”, coisas que eu digo em relação a alguns artistas.



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