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“SALVE SATANÁS?” de Penny Lane

A religião do mal. Ou talvez não.

Há uma série de estereótipos que associamos à figura alegórica do Satanás e às práticas daqueles que o adoram. O mais recente documentário de Penny Lane vem desconstruir esses estereótipos, acompanhando a atividade de um grupo que surgiu em Nova Iorque e que se dá a conhecer pelo nome The Satanic Temple (O Templo Satânico). Este grupo foi ganhando notoriedade e alargou-se um pouco por todo o mundo como uma religião não-teísta, cujos valores se baseiam em justiça social e na luta por um estado laico. Não são atores que aqui vemos, são pessoas com ideais religiosos bastantes distintos e, como em todas as histórias, temos o bem e o mal. Mas será que o bem está sempre do lado de Deus?

Para corroborar os seus ideais, estes satânicos também recorrem a passagens da Bíblia como por exemplo, o episódio do pecado original de Eva. Sem a tentação do diabo o Adão e a Eva só saberiam ser servidores de Deus, não tendo mais nenhuma escolha. Neste sentido, o diabo apresenta-se como uma alternativa que nos liberta, que nos dá a conhecer outro caminho que não tem, necessariamente, de ser o caminho do mal – “A blasfémia é uma declaração de independência pessoal” – como é dito pelo fundador do Templo Satânico, Lucien Greaves.

À semelhança de Satanás que confronta Deus em vários episódios bíblicos, também o Satanismo Moderno desafia as injustiças e as autoridades corruptas. Com o intuito de contrabalançar o domínio do privilégio cristão nos EUA e de quererem reafirmar com justa causa que vivem numa nação pluralista que respeita a diversidade e a liberdade religiosa, estes satânicos estão em constante confronto com os católicos. Exemplo claro disso é quando são impedidos de erguer uma estátua de Baphomet (representação do Satanás com cabeça de cabra e asas de morcego) ao lado das tábuas dos dez mandamentos em frente ao Capitólio de Oklahoma. Certo seria, segundo a própria constituição americana, que não existisse nenhum tipo de manifestação de cariz religiosa em frente ao Capitólio, mas uma vez que existe porque não alargar a outras religiões? Outra questão aqui levantada, e que não deve ser ignorada, é o facto de muitos cristãos apontarem o dedo a este tipo de manifestações satânicas como sendo desvirtuosas para o espírito humano enquanto veem a classe clerical a ocultar casos de abuso infantil dentro do próprio clero. Os satânicos modernos consideram-se assim, e de uma forma mais interventiva no seio da sociedade como é também relatado neste documentário, ativistas. E acaba, por encarar todo o tipo de ativismo como uma prática satânica, uma vez que são contra qualquer autoridade que cega as pessoas do seu próprio sentido crítico.

Este movimento faz uso da sátira humorística e de ações públicas e legais para alertar as pessoas para a hipocrisia da religião cristã e fazê-las refletir sobre a imposição de uma expressão religiosa. O uso dessas ferramentas está bem presente em praticamente todo o documentário porém, com mais destaque no início. Talvez como estratégia para atrair aqueles que o assistem. É-nos apresentado o objetivo geral em que este grupo atua levando-nos a lutas mais particulares.

SALVE SATANÁS? from Alambique Filmes on Vimeo.

Para além de expor a hipocrisia das políticas americanas que dissimuladamente se associam a valores religiosos, este projeto de Penny Lane também põe a nu as fragilidades do Templo Satânico, mostrando que os fanatismos são passíveis de acontecer em qualquer movimento social. É aqui que se revela a imparcialidade da perspetiva deste trabalho e a honestidade deste movimento, sem por isso perder a sua pitada de pertinência. 

O filme irá estrear a 30 de Abril nos Videoclubes das Televisões e Plataformas VOD (FILMIN, MEO, NOS, NOWO, VODAFONE)

 



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