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Sam the Kid e a arte de contar estórias

Na música de Sam the Kid, o storytelling atinge níveis superlativos através de um hiper-realismo altamente estimulante para os sentidos.

É sabido como o storytelling é um elemento co-natural ao rap, circunstância que pode ser testemunhada pelo facto de inúmeros rappers a ele se dedicarem desde que o género deu os seus primeiros passos – basta para isso pensarmos em nomes como The Sugarhill Gang, Rakim, A Tribe Called Quest, De La Soul ou Slick Rick. Com o passar do tempo, a arte e o engenho de contar, de forma encadeada e metódica, determinada história ou episódio, através de um vocabulário rimado em batidas sincopadas, ganhou contornos de tradição, e, hoje em dia, não há um grande rapper (disse rapper, não joalheiro) que não tenha no seu repertório, pelo menos, um exemplar. Trata-se, para o MC, de um exercício intelectual exigente, uma vez que implica a reunião de vários elementos: a criação de uma estória cativante para o ouvinte; a destreza no manejar das palavras; a escolha do termo ou expressão certa para sugerir algo de uma determinada forma; a capacidade de alternar entre um léxico ora mais erudito, ora mais popular (e brejeiro, até); a habilidade para fazer o ouvinte visualizar aquilo que só está a ouvir (como que uma extrapolação dos sentidos, audição e visão); enfim, o talento para aliar um discurso mais “realista” (no sentido da descrição de um espaço-tempo) com notas de humor.

Em Portugal, temos bons storytellers? Temos, claro. No que respeita ao Hip-Hop (porque o storytelling, com as suas cambiantes, é transversal a toda a música), diria que os Dealema (de quem talvez seja expoente máximo a célebre «O Começo»), Pacman (Da Weasel), Boss AC (os seus dois primeiros álbuns são ríquissimos no género), Valete (“Roleta Russa” é incontornável para meio Portugal nascido algures em 80), Sam the Kid (quem não conhece “O Recado”?) e, mais recentemente, Nerve, são alguns dos melhores praticantes que temos por cá (poderei estar a esquecer alguém, naturalmente, mas não pretendo ser exaustivo).

Todavia, na música de Sam the Kid, o storytelling atinge níveis superlativos, em virtude da carga introspectiva presente, a que se aliam agudas descrições sensoriais (física e mental) e de tempo-espaço, o que, tudo junto, resulta num hiper-realismo altamente estimulante para os sentidos. De facto, é impressionante o grau de minúcia, quase neurótico, diria, com que vemos, cheiramos ou tocamos o “quadro” que nos é descrito, como se efectivamente estivéssemos naquele local, envolvidos pelo seu ambiente, a presenciar as pessoas que o ocupam, as suas vozes e gestos, as luzes, as cores, o ruído, o silêncio, tudo. Daí que não seja estranho aludir, a este propósito, a uma certa dimensão cinematográfica da narrativa (ainda que oculta), na medida em que a voz do narrador funciona como a câmara (ao ombro, em registo oscilante, quase documental) que serpenteia pelo local em que a acção se desenrola.

Não é um storytelling, digamos, convencional, em que ouvimos uma história bem contada do princípio ao fim; mais do que um fio narrativo, estão constantemente a ser introduzidos apontamentos descritivos de movimento, tempo e espaço, acompanhados de notas irónicas, moralistas e introspectivas (algumas mesmo de teor existencial, contrastante com a “velocidade” do que se está a passar), dessa forma quebrando-se a distância entre narrador e ouvinte, já que o primeiro, quando as introduz, deixa de estar imerso no ambiente descrito e passar a ser um “espectador” (cinema, uma vez mais) como nós, ouvintes.

Por outro lado, o que acontece frequentemente no storytelling mais tradicional é o facto de a história, por melhor que seja, ser perspectivada à partida, pelo rapper, já como isso mesmo: um acontecimento passado, mais ou menos remoto, que vai ser contado a alguém. O ponto de partida de quem a constrói é, assim, o proverbial “Era uma vez…”. Ora, isso não acontece no storytelling de Sam the Kid, que é, neste sentido, menos previsível, já que a narrativa se faz valer de acasos, cujo relato é feito on time, por que o narrador vai vivenciando no decorrer da acção; estamos, também, totalmente “a par” de como esta ou aquela “personagem” (cinema x3) se sente: se está confortável, o que lhe vai na cabeça, se está sentada ou em movimento, se está ofegante ou com a respiração tranquila, se sente frio ou calor, o modo como interage com as pessoas em seu redor, o efeito do álcool que ingere, etc.. Em Sam the Kid, o storytelling reveste-se de uma forte “actualidade”, no sentido de que tudo parece estar a acontecer naquele momento imediato, sugerindo ao ouvinte estar a acompanhar a acção in loco, como se estivesse nas costas das personagens a seguir-lhes todos os seus passos. De tal modo que momentos há em que nos fundimos mesmo com a personagem central (o narrador) e passamos a ver o exterior através dos seus próprios olhos.

Os dois registos em que a mestria de Sam the Kid mais se evidencia têm lugar em «Sexta Feira» (não editado, disponível no youtube) e na segunda parte de «16/12/1995» (álbum Pratica(mente), 2006), a partir do minuto 4:33. Ambas partilham de uma série de aspectos: o discurso na primeira pessoa; o facto de a acção narrada decorrer à noite, num bar ou discoteca; a caracterização do flirt reinante, próprio desses locais, e de todo o ambiente intimista e assexuado a ele inerente, o qual sai reforçado com a presença de álcool e fumos; o relato do percurso de saída desse local e a formulação do “próximo destino” para dois seres libidinosos; e, por fim, o clímax, surpreendente, fruto de uma tensão acumulada e expresso numa conclusão mais ou menos trágica, mais ou menos moralista.

A grande diferença está, a meu ver, na sonoridade de cada um dos beats (para além do facto de «16/12/95» se inserir num contexto temático específico). Em «16/12/1995», ela é manifestamente mais tensa, furiosa, desvendando um pouco do desfecho trágico que de alguma forma se pressente ao longo da narrativa. Já em «Sexta feira», a sonoridade é, agora, relaxada, opiácea e, o que é mais, profundamente noctívaga. Esta diversidade de ambientes sonoros não é resultado do acaso; pelo contrário, ela é obra de um compositor (ou “produtor”, chamem-lhe o que quiserem) prodigioso, capaz de jogar com o espaço e as emoções, o exterior e o interior. Retomando a analogia com a sétima arte, se, em «Sexta feira», a atmosfera é de suspense, é de um thriller, noir e nervoso, que falamos em «16/2/1995».



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