Samuel Pimenta não dá corda ao relógio

Samuel Pimenta não dá corda ao relógio

Entrevista com um dos premiados do concurso "Jovens Criadores 2012"

Samuel Pimenta, rapaz que anda pelas 22 primaveras, foi um dos oito premiados no concurso “Jovens Criadores 2012” na vertente de Literatura, com o poema “O Relógio”. O concurso, com o apoio da Secretaria de Estado do Desporto e Juventude (SEDJ), do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ) e do Clube Português de Artes e Ideias (CPAI), visa promover e premiar os novos valores nacionais no domínio das artes. Em anos anteriores, José Luís Peixoto, João Tordo, Valter Hugo Mãe e Ondjaki foram alguns dos escritores premiados.

O poema, um manifesto de intervenção onde se parecem misturar a linguagem matemática e a música minimalista, integrará a colectânea “Jovens Escritores 2012”, que vai reunir todas as obras premiadas na área de Literatura. Em Novembro, ainda em data e local a definir, ocorrerá a “Mostra Jovens Criadores 2012”, que reunirá todos os vencedores das várias categorias a concurso.

Segue-se uma pequena conversa com o autor, não sendo aconselhável a consulta temporal durante a sua leitura.

És daqueles que esperam pela inspiração ou sentas-te diante da folha branca mesmo que te vejas diante de um vazio criativo?

Confesso que prefiro esperar pela inspiração, detesto forçar o processo criativo. Se bem que, quando tenho prazos a cumprir, como acontece com as crónicas para o Rede Regional, entre escrever e não escrever, só posso optar por escrever. Já me aconteceu não sentir inspiração, sentar-me diante da folha branca e permitir que o vazio ou a infinitude de ideias me inspirem. É um processo interessante.

A escrita já te permite sustento, ou vais tendo outras ocupações?

Ainda não permite, mas acredito que é uma questão de tempo. Por enquanto, tenho de ter um trabalho paralelo à escrita.

Que projectos literários tens actualmente em curso?

De momento, estou a trabalhar num livro de contos e a lapidar dois de poesia. Além disso, mantenho a minha colaboração com o site de informação Rede Regional, onde sou cronista, e organizo tertúlias literárias quinzenalmente, no Zazou Bazar & Café, junto à Igreja de Santo António, em Lisboa. Não gosto de estar parado.

De que forma aparece o Reiki na tua vida?

O Reiki foi-me apresentado por uma amiga de família, tinha eu 15 anos. Aos 16, decidi fazer o 1.º grau. Após ter cumprido todo o percurso desta terapia/filosofia de vida japonesa, já a tenho tão enraizada em mim que percebi que Reiki é apenas uma palavra para algo muito maior. “Rei” significa Universo e “Ki” significa energia. Hoje, prefiro olhar tudo à minha volta como energia em acção. Sem palavras. Sem definições.

Há planos para avançar com a trilogia “Heros, O Escolhido”?

Em Junho de 2012 decidi rescindir contracto com a Planeta Editora, que tinha a chancela da trilogia. A nossa parceria não estava a funcionar devidamente e decidi pôr termo à situação. Com a rescisão, decidi que era o momento de parar por uns tempos com o género fantástico. Estava desde os 15 anos a trabalhar com as mesmas personagens e sentia-me muito cansado. Decidi dedicar-me a outros géneros que sempre fui escrevendo em paralelo com a obra “Heros, O Escolhido”. Sei que voltarei à trilogia, mas não para breve.

O que significa este prémio para ti?

Ter conseguido ganhar este prémio, além de um reconhecimento do meu trabalho, é um grande estímulo para me manter firme naquilo que quero, tendo em conta que, em anos anteriores, foi atribuído a José Luís Peixoto, João Tordo, Valter Hugo Mãe ou Ondjaki. Ter 22 anos e ter conseguido um prémio como este faz-me ter a certeza, se é que tinha alguma dúvida, de que é aqui que quero estar.

Como te lembraste de fazer uma crítica ao blablabonear moderno através do tiquetaque de um relógio de corda?

Confesso que nem sei bem como surgiu… Talvez tenha surgido ao longo da escrita do poema. Se pensarmos bem, o tiquetaque do relógio é sempre igual, é interminavelmente igual e repetitivo. Ora, basta escutarmos algumas pessoas a que chamo de blablaboneadoras para encontrarmos as semelhanças.

Como descreverias as gentes redondas?

Descreveria as gentes redondas como as pessoas mais desinteressantes que o mundo tem. Melhor, descreveria as gentes redondas como as pessoas que, podendo ser interessantes, preferem, consciente ou inconscientemente, manter-se na sombra do que está condenado ao desinteresse. No fundo, e analisando bem, todos fomos redondos em algum momento, mesmo que não o aceitemos.

O poema tem também alguma carga política – ou, se quiseres, sugere que alguém lhes possa aviar uma valente carga. Se pudesses mandar nisto tudo, diz-me três medidas que tomavas para mudar o estado de coisas

Sim, o poema insere-se na chamada poesia de intervenção. Quanto a hipotéticas medidas que eu tomaria se estivesse no poder… Confesso que não me vejo no poder. Aliás, tenho-lhe tanto respeito que o chego a recear, não o quereria para mim. Sou tão idealista e obcecado pela perfeição que temeria impor uma visão que pudesse ser encarada como totalitária. Por isso escrevo livros, aí ninguém reclama. [risos]

Penso que cada um ocupa o lugar que deve ocupar e o meu não passa por estar no poder. O meu lugar é escrever, vigiar. E as propostas que tenho serão sempre as de quem se mantém em vigília, de quem observa. Por mais medidas políticas que possa propor, nenhuma delas daria certo enquanto Portugal mantiver uma mentalidade de auto-opressão. A mudança vem de dentro. E é essa consciência que tem de ser conquistada.

Há uma geometria constante no poema, que depois de ser quadrado e rectângulo regressa à forma inicial circular. É um baixar dos braços depois da anunciada – mas falhada – revolta?

Possivelmente. Quantos de nós, nas nossas lutas diárias, não baixamos os braços, vencidos pelo cansaço, pelo desânimo? O importante é o que retiramos dessa atitude. Deveremos manter-nos em luta? Ou o caminho é virar costas ao que nos desafia?

Tens horas?

Não, não uso relógio.

Espécie de BI:

Samuel Pimenta nasceu a 26 de Fevereiro de 1990, em Alcanhões, Santarém. Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa, começou a escrever com 10 anos. Colaborou com jornais regionais e foi cronista na revista online Clique. É beneficiário da Sociedade Portuguesa de Autores desde 2006. Em 2007, viu-se classificado em 2.º lugar no Concurso de Escrita da Biblioteca Municipal Dr. Hermínio Duarte Paciência, em Alpiarça. Em 2010, foi um dos contemplados com o VI Prémio Literário Valdeck Almeida de Jesus na vertente de poesia, no Brasil. É autor do romance “O Escolhido”, editado pela Planeta Editora, primeiro volume da Trilogia “Heros, O Escolhido”, e alguns dos seus poemas já integram antologias poéticas em Portugal e no Brasil. Actualmente, colabora com o site de informação Rede Regional. Além da escrita, dedica-se, também, ao Reiki.



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