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Sandra Barata Belo

De Palhaça a Amália, a Luta continua!

O seu Fado entrou-nos no ‘goto’ depois de se estrear como Amália nas grandes telas nacionais. Mas não ficou por aí. Anda a (en)cantar pelo mundo fora e até teve direito ao ‘Óscar’ cá da terra. Estreante e já melhor actriz, Sandra Barata Belo é, antes de mais, uma Palhaça convicta.

Fala-nos sobre ti.

Sou a Sandra, nasci nos anos setenta, cresci nos oitenta, e muito cedo decidi que queria ser actriz. Acho que é uma inconsciência da adolescência. Na escola fazia muitos disparates, só estava bem a fazer rir os outros. Estudar por estudar nunca me cativou, sem perceber porque estudava… e depois descobri que existiam várias escolas profissionais onde podia estudar artes do palco, artes cénicas, como a Escola de Teatro de Cascais, ou a Escola de Artes e Ofícios do Espectáculo, mais conhecida por Chapitô. Sentia-me presa na dita ‘escola normal’, achava que não tinha jeito para nada, e foi assim que me resolvi formar como pessoa, tomar consciência das questões da vida e da arte. O Chapitô marca uma altura da qual guardo alguns dos melhores momentos da minha vida, um mundo de fantasia…

E o salto para a representação?

Comecei por fazer teatro no Ginjal, um espaço cedido pela Câmara, à beira Tejo. Ali havia teatro, dança, performance, vídeo-arte, coisas experimentais… Deixei-me ficar, trabalhei com grupos como o Útero, o Olho, mas nunca larguei o lado do ‘Palhaço’, nunca decidi muito bem o que queria fazer. Só circo não porque não era grande atleta, mas gostava de  misturar as coisas todas. Criei personagens ‘clownescas’, vendi-as, sozinha ou em dueto, quase sempre para eventos. Tinha aversão e algum medo do mediatismo e de ficar exposta, e fui adiando a televisão por uns tempos. Mas a maturidade fez-me ver que um artista ou um actor precisam do público e, dentro desse circuito mais mediático, não poderia ter melhor enquadramento do que entrar com o Amália que é, por si só, a figura da nação, não é?

Como te imaginavas com dezoito anos, quando pensavas em “ser grande”?

Assim como estou. A fazer isto tudo que faço agora. Quero ser actriz e intérprete das várias artes cénicas. A base da minha formação é essa: espectáculo, palco e cinema. Sempre gostei muito de cinema e um dia imaginava-me a fazer cinema. Como imagino a fazer teatro, as minhas produções e a criar também… adoro criar e expor ideias. Mais que interpretar, gosto de pensar, criar e dizer alguma coisa. Quero outras coisas no futuro, mas sempre ligadas a estas artes.

O que fazes, quando não fazes nada?

Aproveito sempre para ler, a nossa vida é intensa (ou tens trabalho, ou passas muito tempo sem trabalhar) e tento compensar isso, lendo as coisas que tenho de ler e ainda não li. Gosto de escrever… lá está: começo a imaginar coisas e tenho uma necessidade de passá-las cá para fora, tirá-las da gaveta. Pesquiso, procuro, tento manter uma disciplina, acordar cedo, faço aulas de dança, falo com os outros, e vou acumulando projectos que talvez mais tarde possa concretizar..

Como encaras “A Crise”, enquanto ser humano, e como actriz?

São duas perspectivas muito diferentes. Enquanto ser humano acho que esta crise  é boa. Estávamos todos endividados, contamos com dinheiro virtual, temos ideais virtuais… Os ideais perderam-se, os princípios também. Não sabemos para onde caminhamos, o capitalismo está a consumir-se a ele próprio. Acho que isto é só o principio da crise, quer social, como climática. O planeta está a abanar, a sociedade e a economia também, mas isto pode ser um salto para uma coisa melhor. Sou optimista e acho que o ser humano tem que se reinventar a ele próprio. O sistema está em crise, mas sobretudo os valores.

Enquanto actriz a minha profissão tem graves problemas: somos freelancers, não reconhecem o nosso estatuto, não temos direitos a nível de segurança social, é o trabalho precário, são os recibos verdes… É complexo explicar mas, basicamente, não somos trabalhadores independentes nem profissionais liberais. A profissão não é reconhecida e há aqui um misto de confusão, que joga ora a favor do produtor, ora do estado. Nós andamos num impasse. Há uma crise, mas não é de agora… esta vem já de há muito tempo.

És feliz aqui?

Eu considero-me uma privilegiada, dada a situação do mundo, mas acho que a felicidade são momentos. É um cliché: temos ‘momentos’ em que somos felizes. Tenho muita vontade de me ir embora de Portugal, já o disse antes. É frustrante viver aqui. Temos muito boas ideias, mas não temos um país que nos apoie, tanto na cultura, como no desporto ou na ciência. As pessoas que tentam são marginais, logo vive-se frustrado. Sabes que tens boas ideias, gostavas que apostassem nelas, mas és logo limitado, tido como preconceituoso. Em vez de ficarmos contentes com o bom que surge, temos tendência a falar mal das coisas e das pessoas. Como povo temos uma mente muito pequena, as pessoas com acesso à cultura são pequenas e mesquinhas e o povo também, porque quer mas não tem. Tenho vontade de saltar daqui para fora, mesmo não sabendo o que vou encontrar. Gostava muito de ir, mas ao mesmo tempo tenho aquela coisa da saudade… quando me imagino a ir, imagino sempre a voltar. Sou presa às raízes porque acho que temos uma cultura muito forte, pena que não seja mais fortalecida pelos nossos dirigentes. Portugal ou qualquer outro país é, ou deveria ser, essencialmente a sua cultura.

O que representa a Amália na tua vida hoje, e numa só frase?

Tanta coisa… Mas, desde logo, é a Saudade. Da Amália, do filme, e de tudo o que ela me ensinou.

Sentes-te famosa?

Não tenho ainda bem essa percepção. Acho que dentro do possível tenho sido bem cuidada pelos meios de comunicação. Passei foi a ser reconhecida. Pelo público, pelos artistas, e pelo mundo do espectáculo.

Uma mudança, como a que tiveste a nível profissional, pode afectar ou mudar a tua essência?

Espero que não. Tive necessidade de me cercar dos meus amigos e da minha família, para não perder a minha identidade. Muita gente fala e opina sobre ti, isso pode ser massajador para o ego, mas pode também ser uma rasteira. Tento ter os pés bem  assentes no chão. Sou a Sandra, minha, dos meus amigos e da minha família, e acho que já há muito tempo que não sentia uma necessidade tão grande de estar junto daqueles que me conhecem, realmente.

Serás sempre uma Palhaça?

Ser Palhaça é muito difícil. E o mais difícil que há é fazer rir, ser ridículo, dares-te ao manifesto… Tens de te desprender dos conceitos, dos preconceitos, das ocupações e das preocupações para seres ridículo. Para conseguir esse ponto é preciso uma liberdade muito grande. E eu espero um dia atingir essa liberdade e ser uma grande palhaça. Adoro rir e provocar risos aos outros. É uma paixão que eu tenho.

O que mais ambicionas para ti? (num registo Concurso Miss “qualquer coisa”)

Gostava de ter filhos e criá-los num mundo melhor do que o que temos hoje. Com valores reavaliados, onde não exista tanto medo. É completamente utópico e piroso, mas eu adoro o piroso, o ridículo…

E para o Mundo? (no mesmo registo)

Acho que é mais consciência, uma consciência dos outros. As pessoas devem ser mais altruístas e não tão pré…ocupadas.

Gostas de música? Qual?

Adoro, não vivo sem ela. Tudo e mais alguma coisa. Por exemplo Portishead. Agora ando maluca com o último do Antony and the Johnsons, com Dead Combo, com o Fado ainda (já gostava muito), as guitarras… Já tinha Amália, Camané, Alfredo Marceneiro,  comprei outro de Camané, tenho todos os da Amália, Carlos Paredes… É tão difícil escolher musica, é conforme os dias. Agora ouvia… não me consigo lembrar.

Cor favorita?

Difícil… Neste momento, talvez azul escuro.

Sítio?

O do Pica-pau amarelo.

Lugar para estar agora?

Em cima de uma árvore, a mandar pedrinhas. Ou naquele hotel de gelo, branco, frio, na Finlândia, ou na Lapónia, mas branco…

E amanhã?

Na praia…

Qual é a tua primeira memória?

São as minhas mãos. Lembro-me de olhar para elas assim que saí da barriga da minha mãe.

Qual será a ultima?

O riso. Espero.



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