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Sangue do Meu Sangue

Believe the hype.

Estes burburinho e, por que não dizer, excitação que antecedem a estreia de “Sangue do Meu Sangue” no circuito comercial não são habituais num filme português. Normalmente estão reservados para grandes produções ou sequelas de enormes sucessos estrangeiras. Estarei a exagerar, os telejornais não estão exactamente a abrir com a nova obra de João Canijo, nem esta faz capas de jornais (de suplementos, sim, mas estes atingem, obviamente, um público menor), no entanto sente-se no ar (nas redes sociais, na concorrência às ante-estreias) o cheiro a acontecimento. A acontecimento cinematográfico português do ano. Que fique claro, desde já, que o louvor só não é justo, porque é curto; mesmo que o resto do mundo não saiba, “Sangue do Meu Sangue” é um dos maiores acontecimentos do ano, ponto final, parágrafo.

Dentro dos cineastas portugueses que não vivem do e para o público, Canijo é talvez aquele que dá mais importância à história, ao argumento. Gosta, aliás, de histórias maiores do que a vida; não é por acaso que os seus últimos filmes, descontando o documentário “Fantasia Lusitana” (e mesmo este procura e escava na História), são adaptações de tragédias gregas (onde se funda a tradição dramática ocidental). Importa, por isso, observar o processo que levou a “Sangue do Meu Sangue” (“Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor”, sobre o dito, será exibido na RTP2, na próxima quinta-feira, dia 6 de outubro, às 23h45): tanto as personagens como as situações surgiram do elenco, que trabalhou em conjunto, em longas sessões de improvisação, acompanhadas pelo realizador, que, depois, lhes deu uma forma final — quando as filmagens começaram, já estava tudo definido. Contudo, a história de “Sangue do meu Sangue” não é menos forte, nem menos tragédia ou grega.

Em cena (e há sempre algo de teatral, nunca no sentido de teatro filmado), há dois pares — uma mãe e uma filha, Márcia e Cláudia, Rita Blanco e Cleia Almeida; uma tia e um sobrinho, Ivete e Joca, Anabela Moreira (absolutamente extraordinária, desnuda-se para lá das carnes) e Rafael Morais — em que, paralelamente (perpendicularmente, só nas conversas simultâneas, nas quais Canijo, como Robert Altman, é hábil), se expõe o tema do filme: o amor incondicional, o amor familiar, o amor de sangue, do sangue do seu sangue, que se oferece em sacrifício ou explode em violência. O palco é o Bairro Padre Cruz, um bairro social na periferia de Lisboa, uma espécie de aldeia que se fecha sobre si mesma e penetra dentro das casas demasiadamente pequenas para que todos circulem facilmente (a montagem de som— os constantes gritos da vizinhança — e o trabalho de câmara, que flui pelo cenário exíguo, são notáveis). Os actores (a galeria de secundários é tão impressionante quanto os protagonistas, desde o aterrador Nuno Lopes ao corno manso Francisco Tavares) são superlativos; nunca deixam as suas personagens caírem na caricatura (apesar das camisolas da selecção, da caixa do supermercado, do karaoke, do Tony Carreira) nem na conversa do coitadinho. Para além disso, fruto do extenso trabalho de preparação, trazem consigo pequenas histórias que não se vêem, escondidas atrás da história ou no passado dela, que ajudam a explicar (a intuir) certas coisas.

À entrada do último trimestre de 2011, pode escrever-se com certeza que “Sangue do Meu Sangue” é um dos melhores filmes do ano; brutal, excessivo, teatral, realista, particular, pessoal, colectivo, português e universal, alta cultura e pimba; um épico de câmara; soberbo.

(Esta crítica refere-se à versão de 140 minutos; a versão longa, de 190 minutos, será exibida no Cinema City Classic Alvalade, também a partir de 5 de Outubro)

 TEASER

TRAILER 



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