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SBSR 2010

Mudou mais uma vez de formato e de localização. A edição 2010 do SBSR realizou-se entre 16 e 18 de Julho no Meco. Surpresas, desilusões e confirmações em 3 dias de festa que o trânsito e pó não foram capazes de estragar.

Quando se soube que o SBSR iria se realizar no Meco (ou melhor, a caminho do Meco, antes de chegar a Alfarim), admito que fiquei bastante contente. Para além de ser um fervoroso admirador da região, recordei-me das edições do Hype@Meco, festival que deixou muitas saudades. Conforme se iam multiplicando as confirmações e o cartaz começava a ganhar forma, restavam-me poucas dúvidas que este seria “o festival” deste Verão. Quando o cartaz se encontrava aparentemente fechado e já com muppies produzidos, surge a confirmação de um novo nome – Prince. Não sendo o maior entusiasta  do “artista”, admito que a sua actuação é uma enorme mais-valia em qualquer Festival.

Os dados estavam lançados. Tendo como mote “Sol, Praia e Rock N’ Roll”, o SBSR prometia três dias inesquecíveis juntando alguns dos nomes mais importantes da música actual a ícones revivalistas capazes de unir gerações. A promessa foi cumprida?

SOL, PÓ E VAMPIROS

Durante todo o Festival o Sol não se escondeu. Condições excelentes para quem viajou até ao Meco à procura de praia, muito incomodativo para quem gostava de assistir aos concertos no palco EDP. Colocar um palco “sem fundo” na direcção do pôr-do-sol não foi a melhor opção, embora tenha que admitir que para os concertos à noite, o cenário tornou-se bastante interessante.

“Vim bronzear-me”, disse Annie Clark aka St. Vincent em tom irónico, durante o seu sofrível showcase no primeiro dia de Festival, afectado por diversos problemas de som e feedbacks contantes. Sendo um dos projectos em que depositava alguma expectativa, criada pelo excelente último disco de originais “Actor”, fiquei desapontado por Annie ter surgido em palco acompanhada apenas por dois elementos que tentavam harmonizar os temas através de um violino, uma flauta e um saxofone. Tudo o resto eram samples. O concerto abriu com «Actor out of work» e terminou com «Marrow», os dois temas mais fortes de “Actor”. Valeu-lhe a simpatia do público português.

Mas a maior desilusão da edição deste ano do SBSR estava agendada para o 2º dia. Depois de um atraso considerável (presumivelmente devido a problemas com o microfone), Julian Casablancas, o carismático vocalista dos The Strokes, subiu ao palco. Seria de admitir que interpretasse alguns temas da banda de Nova Iorque como tem vindo a fazer nos últimos concertos “a solo”, o problema é que nem ele nem a banda nem o som funcionaram e músicas como «Hard to Explain» foram “assasinadas”. Quem esteve presente no Lisboa Soundz na única passagem dos The Strokes em Portugal apenas pode esquecer este concerto e fingir que não aconteceu. Pouco motivado, um pouco “alterado” ou apenas num dia mau, dos cerca de 40 minutos de Julian Casablancas em palco salvaram-se algumas faixas do disco a solo como «Phrazes For The Young» como «11th Dimension».

Embora já suspeitasse, tinha alguma esperança que por milagre a areia pudesse ficar no chão. Logo no primeiro dia, bastaram os Cut Copy subirem ao palco principal para me lembrar da Ivete Sangalo. «Lights & Music» foi o tema escolhido para abrir o concerto e “levantou poeira”, que teimou em não poisar. No final de cada dia a nuvem de pó assemelhava-se a nevoeiro quase cerrado e o uso de lenços para proteger a actividade respiratória tornou-se indispensável.

Os Cut Copy foram responsáveis pelo primeiro grande concerto do primeiro dia de SBSR. Já passaram dois anos desde a edição de “In Ghost Colours” e a rodagem ao vivo notou-se, nomeadamente no excelente alinhamento escolhido e diferentes arranjos apresentados. Pelo meio dos temas mais conhecidos, os australianos ainda nos deram a conhecer novos temas. Um regresso triunfal a Portugal, onde têm muitos fãs, capazes de acompanhar praticamente todas as músicas da banda.

Mas os reis do pó e também do 2º dia do SBSR foram os Vampire Weekend. Dois anos após a dupla passagem por Portugal (Casa da Música e Optimus Alive!), os nova-iorquinos encabeçaram, pela primeira vez, um Festival em Portugal e deram muito bem conta do recado. A irreverência e juventude que encontrámos há dois anos continuam presentes mas a banda ganhou imenso com a edição do segundo disco, “Contra”, criando novas alternativas para um alinhamento consistente.

O concerto abriu com «Holiday», tema que encaixa na perfeição no espírito de um Festival de Verão. “O som destes tipos é estranho mas brutal”, disse alguém ao meu lado. Na realidade os Vampire Weekend conseguiram criar um som muito próprio (categorizado por alguns como Indie-Afro, que não faço ideia o que significa), capaz de colocar uma plateia aos saltos com faixas rápidas e directas («Cousins», «A-Punk», «Mansard Roof») e surpreender com temas incaracterizáveis como «Orchata» e o belíssimo «Diplomat’s Son». A voz e interpretação dos temas por parte de Ezra Koenig são, em parte, responsáveis pelo sucesso dos Vampire Weekend em disco e ao vivo (fenomenal interpretação de «California English») que se revelou muito comunicativo.

A alegria da música dos Vampire Weekend encaixa no espírito de um festival de Verão e o público ficou completamente rendido ao quarteto, entoando cânticos perto do final que motivaram o desabafo de Ezra: “nunca nos fizeram isto em lugar nenhum”. A comunhão foi perfeita e após terminarem a actuação com «Walcott», era de esperar um regresso a palco para um merecido encore. Infelizmente tal não veio a suceder e o concerto durou apenas cerca de uma hora.

O ALGODÃO NÃO ENGANA

A grande actuação do primeiro dia de SBSR (e também de todo o Festival) esteve a cargo dos Grizzly Bear. Depois de um ano de aclamação pela crítica (melhor disco do ano 2009 para muitas publicações) e pelo público (encheram o Coliseu em Lisboa), o concerto no SBSR era uma prova de fogo devido às circunstâncias que rodeiam um evento deste tipo. A verdade é que duas músicas depois do início do espectáculo, as conversas paralelas e as movimentações do público subitamente pararam e todos os olhos (alguns fechados), ouvidos e mentes ligaram-se ao palco, onde uma atmosfera sublime de som e perfeição era criada pela banda de Brooklyn.

Tendo como cenário cinco cruzes com lâmpadas pendentes, o hipnotismo foi apenas interrompido pelas palmas no final de cada música. Um dos momentos altos da actuação foi a interpretação de «Two Weeks» com a participação de Victoria dos Beach House. Se ainda existiam dúvidas quanto ao talento destes músicos, penso que quem esteve no Meco no dia 16 de Julho de 2010 ficou absolutamente esclarecido. Estamos perante um dos projectos mais marcantes dos últimos anos.

O último dia do Festival marcou o regresso dos The National a Portugal. Tal como os próprios disseram em palco, o nosso país foi um dos primeiros a idolatrar a sua música quando “Alligator” foi editado em 2005. Naturalmente que foi a era após “Boxer” que trouxe a banda ao patamar que hoje se encontra, consolidada com “High Violet”, disco que fecha esta trilogia de albuns brilhantes.

Perante uma plateia muito bem composta (não fosse Prince actuar depois), os The National brindaram-nos com um grande concerto que passou por todos os discos da banda. É incrível como as novas músicas como «Bloodbuzz Ohio» ou «England» encaixam na perfeição no alinhamento e como a banda funciona quase como uma orquestra onde nada falha e tudo é trabalhado ao pormenor. A forma como Matt Berninger (que começou com um copo na mão e acabou com uma garrafa de vinho) sente cada música – ora super concentrado de olhos fechados a suspirar para o microfone, ora nervoso como uma criança a bater com os punhos um no outro – incendeia qualquer plateia e obviamente que não faltou o já habitual “passeio” pelo público e a queda em palco. Se contarmos esta história a quem nunca viu The National, provavelmente poderão pensar que é tudo encenação e espectáculo. Acreditem que não é.

Destaque para a incrível interpretação de «Terrible Love» e para o singalong em «Fake Empire». No final, e visto a organização não permitir encores, a banda não saiu de palco e terminou o espectáculo com «About a Day», em total sintonia com o público, que se no início não sabia quem eram os tipos que iriam estar ali a chatear até chegar “o artista”, estarão hoje provavelmente a pesquisar sobre os The National. É também para isto que serve um Festival, formar audiências.

Os Beach House são mais um projecto bastante acarinhado pelo público português. O trio de Baltimore actuou no primeiro dia de Festival num horário que os próprios caracterizaram como “o melhor período do dia”, aquela hora em que o sol dá lugar à noite. A comunhão com a plateia foi extraordinária e o ambiente proporcionou um excelente concerto, tal como se estava à espera.

A SURPRESA

Em entrevista ao Expresso, Luis Montez, director da Musica no Coração, confidenciou que Holly Miranda seria um dos nomes a ter em consideração na edição do SBSR. Não podia ter mais razão. Natural de Detroit mas residente em Nova-Iorque, Holly Miranda actuou no segundo dia no palco EDP perante uma plateia muito bem composta com uma primeira fila repleta de fãs.

Ao contrário de St.Vincent, Holly surgiu acompanhada da sua banda e as diferenças fizeram-se notar. A voz, a música e a sua postura indie girl meio tímida perante o público garantiram-lhe o prémio “vocalista feminina mais sexy do festival”, embora muitos dos homens presentes na plateia e que iam enviando uns piropos para o palco não soubessem que Holly é assumidamente lésbica.

Para além dos temas do fantástico disco de estreia “The Magician’s Private Library” (produzido por Dave Sitek dos TV on the Radio), dos quais destacamos o maravilhoso single com o mesmo nome, ainda efectuou passagens pelo mais recente EP “Choose to See” onde interpreta temas de outros músicos, «Nobody Sees Me Like You Do» de Yoko Ono foi um deles.

Muito provavelmente iremos ouvir falar de Holly Miranda nos próximos tempos. Dada a afinidade com o “patrão”, será que o regresso poderá já acontecer no Super Bock em Stock deste ano? Parece-me que seria o local ideal.

“SÓ ESPERO QUE NÃO MORRA EM PALCO”

São estilos diferentes mas as carreiras tiveram muitas semelhanças. Controversos e criativos, Prince e Michael Jackson marcaram a música do século XX e a associação entre os dois artistas é natural chegando ao ponto de um dos espectadores presentes no dia de encerramento do SBSR proferir a frase que serve de subtítulo a este parágrafo.

Catorze anos após a última passagem por Portugal, o inesperado anúncio da presença de Prince no SBSR deixou muitos fãs em delírio gerando alguma estupefacção em grande parte das pessoas que acompanham a cena musical. Na realidade, no papel, Prince não seria o nome que encaixava na perfeição no cartaz do SBSR. A surpresa ainda foi maior quando se soube que foi o próprio Prince a pedir para tocar em Portugal e que esse contacto foi proporcionado por Ana Moura. Tudo isto culminou com Prince a tocar «A casa da mariquinhas» ao lado da fadista portuguesa no Meco. Tudo isto é estranho. Tudo isto aconteceu. Tudo isto é Prince.

Não sendo um dos maiores fãs do “artista” tenho que admitir que Prince é capaz de dar um grande espectáculo. Para além de visualmente muito apelativo (com um ecrã gigante no fundo do palco onde as imagens do concerto eram projectadas em tons coloridos e florais), musicalmente o concerto de Prince demonstrou o seu virtuosismo como guitarrista, nomeadamente nos temas mais funk.

Embora a presença de Ana Moura no concerto tivesse sido anunciada, não se esperava que a fadista cantasse «A casa da mariquinhas» acompanhada pela guitarra eléctrica de Prince. A verdade é que o momento proporcionou um dos mais divertidos e inesperados de todo o Festival e só por isso Prince e Ana Moura estão de parabéns.

Quando tudo estava encaminhado para uma despedida em grande estilo com todo o público à espera do emblemático «Sexy Motherfucker» (já que muitos dos êxitos como «Kiss» fizeram parte da setlist), eis que surgiu a face pregadora do artista. Após uma longa interpretação de «Purple Rain», Prince agradeceu a Deus, disse que todo o público agradecia a Deus, pediu ao público para levantar as mãos para Deus e proferiu as seguintes palavras: “You love me, I love you, we all love god”. Após isto já ninguém tinha esperança que o Prince “Motherfucker” voltasse a possuir o artista. Foi pena.

Momento WTF do SBSR: Um tipo com uma afro e t-shirt dos Ramones a dançar Disco ao som dos Pet Shop Boys.

Momento WTF2 do SBSR: “Tocam música para paneleiros mas até são fixes”, um espectador durante o concerto dos Hot Chip.



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