SBSR 2014 | Dia #3 (19.7.2014)

SBSR 2014 | Dia #3 (19.7.2014)

O Super Bock Super Rock fechou em alta

Faltou apenas um fogo-de-artifício para que a 20ª edição do SBSR tivesse terminado de forma ainda mais festiva, num terceiro dia que terá sido, de entre os três, aquele que melhores e mais diferenciados concertos ofereceu.

Desaparecido em 2013, Lou Reed ficará para a história da música como um dos seus mais importantes compositores e letristas, seja pela carreira a solo ou pelos irrequietos tempos passados com os The Velvet Underground.

Numa homenagem promovida por Zé Pedro, que surgiu em palco acompanhado pelo gang os Ladrões do Tempo – Zé Pedro, Paulo Franco, Tó Trips, Samuel Palitos e Donny Bettencourt -, puderam escutar-se alguns dos temas míticos associados a Reed e aos Velvet, como «Venus in Furs», «Sweet Jane» ou «Perfect day» que, se não se mexer muito na sua estrutura original, soarão sempre como pequenas pérolas épicas. O grupo de convidados, que incluiu nomes como Jorge Palma, Paulo Furtado, João Pedro Pais, Lena d’Água, Frankie Chavez ou Tomás Walenstein, transformaram o fim de tarde no Meco numa espécie de Live Aid, que serviu de aperitivo para uma noite que veio a revelar-se muito bem passada.

Albert Hammond Jr. passou pelo SBSR sem ter deixado grandes saudades. Conhecido sobretudo por assumir guitarra e teclas ao serviço dos The Strokes, falta ao som de Hammond o rendilhado e, de certa forma, a adolescência irrequieta dos Strokes – sobretudo a que foi mostrada nos dois primeiros discos e que desapareceu desde então -, tendo o músico californiano dado um concerto que, de memorável, apenas terá tido o elevado número de bocejos.

Se dissermos que Timóteo Santos assinou um concerto épico no palco da Antena 3, muito provavelmente perguntarão quem é, afinal, este Timóteo. Com duas décadas de carreira, Timóteo assina pelo nome artístico de NBC, sendo um dos mais importantes e pioneiros nomes do hip hop nacional.

Num concerto que começou com NBC a beijar o palco, mostrando uma intensa e sobretudo genuína relação com a música, assistimos a uma celebração do hip hop cantado em Português onde não faltaram temas como «NBCioso», «Neve» ou «Bem-vindo Ao Passado», numa ode pela palavra àquilo que a vida tem de melhor: o amor, a amizade e a família.

O músico partilhou histórias de vida como a de, em 1994/95, ter conhecido um rapaz de nome Sam The Kid que, no seu quarto e apenas na companhia de uma uma beatbox de dimensões quase risíveis, gravou aquele que será porventura o mais importante disco de hip hop português; e que terá impelido NBC a comprar uma igual para tentar ser como ele. Ou a história de uma antiga namorada que lhe ofereceu um caderno de argolas, de modo a que as histórias fossem crescendo e ficassem impressas num mesmo lugar, uma espécie de diário feito de poemas e rimas.

Com uma banda em palco que esteve à altura da intensa celebração, NBC teve também a ajuda vocal de Dino e Filipe Gonçalves e, quando já nada o fazia prever, de Sensi e Sir Scratch, dois virtuosos por natureza que subiram ao palco para ajudar a colocar o ponto final numa festa de arromba em nome do hip hop tuga. Uma agradável surpresa.

Talvez contagiados pelo espírito de celebração vivido com NBC, dar de caras com a actuação dos The Kills foi de alguma forma inóspito, banda que parece não ter conseguido convencer muito do público presente. Apesar dos riffs incendiários de James Hince e da voz visceral de Alison Mosshart, se há dois anos os The Kills caíram nas boas graças do público num dos palcos secundários, desta vez não criaram a empatia necessária num mar de gente de perder de vista. O Palco EDP ter-lhes-ia assentado que nem uma luva.

Antes da peregrinação rumo aos Foals aproveitámos para dar uma espreitadela rápida ao concerto dos Dead Combo. Ainda deu para escutar um par de temas e olhar para um palco deslumbrante, decorado com um altar sumptuoso e todo o tipo de artifícios, desde pianolas elevadas a um par de megafones. Música vadia com o encanto de um imenso deserto, que deixámos para trás quando Tó Trips e Pedro Gonçalves serviram uma dose generosa de «Cachupa Man».

Se há coisa de um ano os Foals mostraram serviço no exigente Coliseu dos Recreios, a actuação de ontem no SBSR esteve muito perto de provocar um foco de incêndio que daria muito trabalho aos bombeiros de Sesimbra e arredores. A banda não fugiu a “Holy Fire” – «Impossible way» teve direito a uma versão tresloucada -, o terceiro e mais recente disco da banda que revelou um som polido mas ainda assim pujante -, mas foram os temas dos dois primeiros discos da banda que provocaram as maiores agitações na plateia, num final apoteótico celebrado ao som de «Two Steps Twice».

Yannis esteve verdadeiramente em alta, seja pelo facto de ao fim de um par de canções se ter dirigido à mesa de som para corrigir o som do seu microfone – a melhoria na definição da voz foi surpreendente -, seja pelo crowdsurf que decidiu empreender, montado na sua guitarra eléctrica ou apenas remando com a ajuda dos braços. Uma imensa prova de vida dada por este quinteto que, apesar de chegar de Oxford, está longe de mostrar uma postura comedida ou virada para o estudo.

Conhecem aquela imagem propagada há décadas pela Disney, em que a Cinderela vai cantando alegremente para os passarinhos e outros animais de pequeno porte? Pois bem, Nanna Oland Fabricius, norueguesa que adoptou o nome artístico de Oh Land, deu um incrível recital de canto e dança, mostrando – como se ainda não tivesse sido mostrado antes – a beleza de um festival que começou tendo o rock como género exclusivo e que, por estes dias, celebra a música em todas as suas vertentes.

Com um percurso artístico que passou pelas companhias reais de ballet suecas e dinamarquesas, Oh Land juntou ao canto a beleza da dança, num espectáculo que atingiu o seu momento alto na recta final com «Sun of a gun» e «White nights», tema que recebeu eco de um público feliz e extasiado com a artista norueguesa. Se em 2011 Oh Land passou pelo Vodafone Mexefest com uma nota razoável, três anos depois saiu do Meco pela porta grande, oferecendo um concerto maravilhoso com uma pop tecida com os fios de que são feitos os sonhos.

Terminámos a noite ao som dos Kasabian que, de entre as bandas britânicas no activo com mais que um punhado de discos originais, serão porventura a mais consistente e das que ao vivo se portam melhor.

O quarteto constituído por Tom Meighan, Sergio Pizzorno, Chris Edwards e Ian Matthews não desiludiu, oferecendo um concerto onde houve espaço para tudo: doses bem servidas de electrónica, um autêntico frenesim rock – acompanhado quase sempre por vários focos de crowdsurf – ou uma pop com sabor a mel e limão, mostrando que na música dos britânicos há lugar para quase todos os sonoridades.

Um excelente concerto onde, para lá de clássicos como «eez-eh», «Club foot» ou «Shoot the runner», ainda houve tempo para fundir «L.S.F. (Lost Souls Forever)» com o FatBoyslimiano «Praise you», ou para abandonar o palco cantarolando «all you need is love». E, acrescentamos nós, rock n roll.

Se a próxima edição do SBSR for tão boa como esta, valerá a pena comprar desde já o bilhete. O Meco veio para ficar, afinal não há poeira que resista a um bom soro fisiológico ou a um reconfortante banho de água quente.

Fotografia por Graziela Costa: Dia 17 de Julho; Dia 18 de Julho; Dia 19 de Julho

Recordem aqui o texto do primeiro e segundo dia do SBSR 2014



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