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“Se esta rua falasse” de James Baldwin

Salto para o vazio

Fonny e Tish, conhecem-se desde sempre. Ele, Fonny, é um rapaz rebelde; ela, Tish, uma menina deslumbrada por Fonny desde sempre. A paixão entre estes dois jovens adultos negros, mergulhados nas vicissitudes de uma vivência no Harlem dos anos 1970, torna-se uma inevitabilidade e revoluciona a vida de ambos. Naturalmente, confessam e vivem a sua mútua paixão, entre palavras quentes e sentimentos que explodem, e a vida que os vai assaltando.

Mas é também essa existência que, de certa forma, conscientemente ou não, traz à paixão uma série de fronteiras. Ciente disso e mais “maduro”, Fonny não resiste em dizê-lo a Tish. «Eu sou teu e tu és minha e é mesmo assim, amor. Mas tenho de tentar explicar-te uma coisa», confessa. E essa “coisa”, ou coisas, pode(m) ser a paixão pela escultura, a luta pela liberdade criativa ou a violência e injustiça “legitimada” face aos negros pelo simples facto de se ser branco.

E é nesse vórtice que se centra Se esta rua falasse (Alfaguara, 2018), uma das obras maiores do já desaparecido James Baldwin, também ele negro, filho do Harlem e vitima de homofobia, que chegou recentemente às livrarias nacionais, sendo uma das obras mais intensas – e sinónimo de uma realidade crua – publicadas este ano.

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Lançado originalmente em 1974, traça um retrato infelizmente ainda muito atual da realidade norte-americana (e não só) e que sublinha as dificuldades e injustiças sentidas pela comunidade negra, literalmente na pele, numa sociedade estupidamente estereotipada. Mas é também um grito de revolta e o exemplo da luta de Baldwin, um homem que transcendia o “simples” facto de ser um romancista, assumindo-se como um ativista e uma das vozes mais influentes do movimento de direitos civis, tendo mesmo a honra de ter sido o primeiro artista afro-americano a ser capa da consagrada revista Time.

E através de uma narrativa extremamente humana e humanista, que tem tanto de simples como de extraordinária, o leitor tem o privilégio de conhecer uma breve fatia da história destas duas almas apaixonadas que uma falsa acusação de violação de Fonny atira este para a prisão. A partir daí, depois de Tish descobrir que está grávida, começa uma corrida contra o tempo para provar a inocência do seu amante. Essa tarefa hercúlea, sublinhada com a extrema e tocante dedicação da família de Tish, e a reação disfuncional do lado familiar de Fonny, vai encontrar no ódio e racismo os esperados entraves, mas nada que abale a esperança de gente que dá tudo pela liberdade e justiça ainda que sublinhadas com muito suor, lágrimas e algum sangue.

O resultado é uma história de amor envolta de um drama comovente que se sente a cada página, seja o cenário as ruas do (mal) afamado bairro de Manhattan, a sala de visitas de uma prisão onde um vidro separa a liberdade da sua ausência, ou uma fugaz viagem a Porto Rico. Tudo isto sublinhado com doses suaves de bourbon ou gin, ou notas soltas de um refinado e requintado blues, a banda sonora ideal para quem tem de sofrer a injustiça de uma vida interrompida e que é um constante salto no escuro para um vazio alimentado a ignorância.



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