“Se os mortos não ressuscitam” | Philip Kerr

“Se os mortos não ressuscitam” | Philip Kerr

Philip Marlowe chegou mais cedo

Para os amantes do género policial, 2013 promete ser um ano em grande. Philip Marlowe, provavelmente o maior detective que a ficção se lembrou de inventar, vai regressar à vida activa pela mão do escritor John Banville. É ainda prematuro afirmar se Banville conseguirá manter a mística Chandleriana mas, até lá, pode-se ir lendo um outro policial que tem, como protagonista, um detective de hotel com, pelo menos, uma costela Marlowniana.

Em “Se os mortos não ressuscitam”, romance policial de Philip Kerr, vemo-nos transportados até à Berlim de 1934. A trama gira à volta da realização dos Jogos Olímpicos de 1936, sentindo-se na pele os ares de um anti-semitismo profundo a poucos anos da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

Bernie Gunther vai sobrevivendo como detective de hotel, tendo deitado às urtigas – antes demitir-se que ser demitido – uma promissora carreira de investigador após a República de Weimar ter sido desfeita pelas reformas levadas a cabo pelo partido nazi. Porém, a popularidade de Gunther mantém-se em alta, e tanto a polícia local como uma mulher fatal de nome Mrs. Charalambides procuram os seus serviços de investigação, arrastando-o para um esquema de corrupção internacional do qual será difícil escapar com vida.

Gunther é um detective durão, com cabeça de filósofo, mãos de pugilista e língua de humorista. É uma personagem ambígua – entre o sentimento e o instinto de sobrevivência -, que lê acima da média, cita poesia de cor e faz da adjectivação e do uso da metáfora o seu dialecto muito particular. Usa do humor mesmo nas situações mais adversas, como quando se vê encerrado numa cela desoladora: «Um dos pormenores que nos recordam que estamos numa cela e não num quarto de hotel é o facto de a fechadura se encontrar do outro lado da porta.»

Tem também uma forma muito própria de lidar com as mulheres, com tiradas que ficam no limite do indecoroso mas que, quase sempre, o fazem cair nas boas graças do sexo feminino. Como esta, tipicamente Chandleriana: «…no primeiro instante em que te vi soube que me trarias sarilhos. Mas a verdade é que só gosto de mulheres desse tipo. Com grandes guarda-lamas, a carroçaria reluzente, montes de cromados e um motor muito potente, como o carro de Hedda. O tipo de carro que nos põe na Polónia logo que carregamos no acelerador. Se eu quisesse ir para a cama com bibliotecárias, andava de autocarro.»

A segunda parte do livro, situada em 1954, transporta-nos até Havana e a um País liderado por Fulgencio Batista, apoiado pela CIA e acossado por uma revolução que começa a ganhar fôlego. Gunther esconde-se por detrás de uma nova identidade, tentando esquecer um passado pouco recomendável mas, quando dois rostos familiares surgem inesperadamente, será tempo de enfrentar um destino implacável.

Philip Kerr capta com brilhantismo o sentimento de épocas distintas, mostrando duas sociedades à beira de uma revolução política e social. E fá-lo com uma boa dose de mistério, a que junta uma sensibilidade tão negra quanto um céu nocturno sem qualquer estrela – ou tão escura quanto a alma de Bernie Gunther. Philip Marlowe chegou mais cedo, apetece dizer.



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