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Sebastianismo

Clash Club @ Sá da Bandeira, Porto - 17 Janeiro.

Fugindo ao misticismo português, mas fazendo a ponte com a expectativa latente da chegada de alguém querido – Sebastian foi cabeça de cartaz do Clash Club, evento que decorreu na cidade do Porto, no Teatro Sá da Bandeira, no sábado 17 de Janeiro.

É curioso como a evolução dos estilos musicais depende da quantidade de pessoas que se lhes adere. Pouca gente suspeitaria que editoras como a Ed Banger, Kitsunè ou Boys Noize que há alguns anos eram underground e perfeitas desconhecidas, estejam agora banalizadas e prontas para o consumo a uma escala mundial e geracional.

Culpe-se a internet, a moda ou a tecnologia, o facto é que  neste momento o maximal ganhou, em Portugal, um público bem definido e até conhecedor. No entanto, dadas as suas características “mais & mais alto” não é difícil cair no facilitismo e no óbvio – juntar moda e música é perigoso pela volatilidade da primeira e corresponder apenas às expectativas do público que hedonisticamente não admite que o ritmo abrande também.

Pois bem, os Fritus Potatoes Suicide são portuenses e têm o caminho bem definido – acompanharam o crescimento do estilo desde o seu início e uma atitude persistente de dedicação à causa com duas malas de discos que rodam regularmente um pouco por toda a cidade. Fizeram o warm-up para os cabeças de cartaz e fecharam a festa, mas mereciam mais público pois sabem perfeitamente dominar e manter um set interessante.

Esta situação ficou perfeitamente clara com a actuação da banda britânica Shit Disco que apareceu aqui em formato DJ set –, talvez por ser uma forma de rentabilizar as oscilações do mercado discográfico. Mais valia uma actuação ao vivo; o seu set foi feito em Ableton Live… um programa que bem manuseado facilita bastante a tarefa encarar uma pista, mas o que é fácil… facilmente se torna aborrecido. O set foi composto por um encadeamento dos últimos hits da cena nu-rave. Ou seja, bem podiam ser eles como outros quaisquer. Excitante, não?

O público que por volta das 3 da manhã já preenchia a plateia do Sá da Bandeira permanecia sintonizado com os build-ups e break-downs de cada música, mas claramente esperavam pelo cabeça de cartaz.

Sebastian é um tipo tranquilo e algo ausente, mas cordial. Entrou soturnamente backstage e recusou uma entrevista em frente às câmeras de programa de televisão dizendo “Não tenho nada para dizer.” Contrastando com a euforia reinante à sua volta, parece simples e de conversa fácil – revelou apenas alguma preocupação quando foi informado que não poderia fumar em palco – o senhor idoso encarregado pela manutenção do teatro perdia as estribeiras em pleno palco sempre que via alguém com um cigarro na mão.

Ao tomar conta dos leitores de CD e mesa de mistura – e com um maço de tabaco ao lado (depois de uma negociação difícil com a gerência) é curioso ver o impacto causado pela sua actuação – enganem-se aqueles que pensam que esta foge muito a uma  fórmula bem estudada – o domínio dos CDJ é perfeito e o timing na sobreposição de temas marcado ao compasso, guardando sempre com uma surpresa fora de catálogo que desta vez foi «Breakfast in América» dos Supertramp.

Na fila da frente, os miúdos perdiam a cabeça; braços no ar, olhos revirados e vénias aos picos de distorção e ausência de melodia. Temas Justice, Tiga, Crookers, Boys Noize, Daft Punk, são manobrados, espremem a pista e correspondem aos desejos, demonstrado pela quantidade de punhos em riste. O divertimento sobe ao palco, alguns ficam, outros são rechaçados de novo para o público. Duas horas e pouco são ouvidas ao extremo de dentes cerrados e gritos atrás de óculos escuros…

Quando o público aparece e corresponde, as noites são gratificantes para todos; no entanto, até quando permanecerá esta atitude devota que roça a insanidade em plena pista? Numa perspectiva de maximização do lucro mais eventos estão prometidos… é um caos mecanizado e organizado, “but the kids are allright”… e isso é que interessa.



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