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“Senti um vazio” de volta à Casa da Esquina

Ambiente intimista, frio, confortável, dicotomias, uma ambiência diferente da qual estamos habituados no teatro. Numa sala de uma Casa, ali, na Esquina

Em Coimbra, vai poder ver teatro entre os dias 24 de Outubro e 11 de Novembro, de Quarta a Domingo, ás 21h30, na Casa da Esquina.

“Senti um vazio” fala-nos de tráfico humano, prostituição, vida, ingenuidade, tristeza, algumas alegrias. Esta ideia surgiu de um pedido da Saúde em Português em 2011, que fez parte do projecto Mercadoria Humana. Foi Ricardo Correia, encenador e criador português, que trouxe a peça para Portugal e explica que “este espectáculo surge da necessidade de debater quer a sociedade contemporânea quer as transações económicas, de escala local e global, que condicionam e sacrificam os valores humanos em prol do lucro selvagem”.

Recebe-nos uma personagem forte e corajosa e empenhada em sobreviver assim como frágil e vulnerável, apoiando-se nos sonhos para continuar a existir. Uma história fragmentada e desconstruída, com cenários envolventes e diferentes. O público é bombardeado com analepses e prolepses de uma vida vendida, uma personagem, Dijana, que luta para restabelecer o bem mais precioso que lhe foi retirado.

Há uma viagem entre o passado, o presente e o futuro. E o título da peça invoca todos estes tempos porque, ao mesmo tempo que quer dizer exactamente aquilo que se lê, também nos transporta a questionar “quais são os meus objectivos? que estarei eu aqui a fazer?”.

O texto é da autoria de Lucy Kirkwood que com ele ganhou o prémio britânico Whiting Award. Para o escrever, Kirkwood pesquisou e entrevistou mulheres vítimas de tráfico sexual e que estavam em centros de detenção e acolhimento. Este contacto directo muito contribuiu para uma abordagem mais confiante e directa do tema. A peça estreou em Londres e foi levada à cena pelo Clean Break num grande armazém. Em Portugal, encenada por Ricardo Correia, na Casa da Esquina, é feita uma nova abordagem deste texto. Numa peça intimista, que inclui o público de uma forma presente, mas indirecta.

Assim sendo, a Casa da Esquina convida a bons momentos de teatro. Num trabalho excelente por parte das actrizes, Cláudia Carvalho e Adiana Silva: cru e de uma grande exposição.

“O tema é interessante e pertinente, uma vez que explora algo um pouco oculto e que não está sinalizado”, alega Ricardo Correia.

Segundo o encenador, os bilhetes são “anti-crise”: 4€ – profissionais do espectáculo, estudantes e desempregados; 6€ – bilhete normal.

Neste momento, segundo Ricardo Correia, “o teatro está a ser posto em causa por esta sociedade, não existem apoios ao tecido cultural”. Considera também que o teatro faz parte de uma identidade e que, por isso, está intimamente ligado ao corpo social, é subterrâneo.

A propósito da falta de apoios e de uma cultura com perda de credibilidade por não ter verbas e também por falta de consciencialização, a Casa da Esquina vai ser a primeira associação portuguesa a fazer parte do Festival Uncut – Teatro Sem cortes, “a tradução assenta-nos que nem uma luva, a Crise é comum, ampla e afecta de diferentes formas toda a Cultura na Europa”, diz o encenador. Este festival nasceu no Reino Unido, em 2011, une pessoas determinadas a lutar contra a recessão cultural na Inglaterra. Foram apresentadas várias peças do Teatro Uncut simultaneamente em vários países e em vários locais (teatros, centros sociais, escolas e até na rua).

Neste ano de 2012 foram escritas várias peças curtas em resposta aos vários temas polémicos e emergentes: a crise europeia, o estado do capitalismo global, e o movimento Ocuppy.

Este festival vai acontecer no dia 17 de Novembro das 14h as 24h na Casa da Esquina e noutros locais. Ricardo Correia apela: “queremos que todos participem e se juntem a nós em protesto contra esta barbárie generalizada que arruína a Cultura e o que ela representa em termos de cidadania, pluralidade e Democracia”.



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