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Separar os Meninos dos Homens

...ou o que faz um DJ a sério.

Os rapazes gostam de se manter meninos por mais tempo, sem dúvida. Seja a ir à bola com os compinchas (e chegar a casa aos “ésses”), ou – como foi o caso do meu pai – investir na tal Harley Softail Heritage que sempre se sonhou, ao virar os 50… ou então (porque não??) experimentar ser DJ!

Claro que não é preciso chegar à meia-idade para que essa aspiração se instale. Há histórias que atestam a ideia de que esse impulso a uma ascenção social nocturna não depende necessariamente de uma crise de meia idade. Exemplos rápidos: a menina apresentadora que se fartou do surf e comprou pratos… o excelso senhor advogado que gostava de passar discos dos anos 80 no antigo Indústria de Lisboa… ou o famoso apresentador de televisão que ia animar o Kremlin às quartas-feiras… Infelizmente, o DJ’ing é uma actividade livre e, até agora, não regulamentada. Está portanto sujeita a que estas incursões de gente pouco formada sejam, não só, bem sucedidas, como espalhem a mais abjecta ignorância sobre esta cultura.

É normal que isto ocorra numa área onde há uma ausência de formação profissional – porque os cursos de DJ e produção são no geral pequenos passos, comparados com o quanto se deve saber sobre música, e não são factor preditor de sucesso na área… Vejam só se o mesmo acontecesse em outras áreas! Também já sonhei seguir medicina, mas nunca entrei num consultório de estetoscópio erguido, pronto para fazer uma cirurgia cardíaca… assim, sem dizer nem ai nem ui, fazendo-me valer da minha notoriedade como DJ para ordenhar a vaca da labuta médica.

Vamos esclarecer uma coisa: há tal coisa como um DJ a sério. Já os vi por aí, várias vezes. São gente normalmente íntegra, trabalhadora, com enorme sentido de sacrifício. Um DJ a sério não decidiu ser DJ porque tinha piada passar música. Decidiu sê-lo porque sentiu um dever real de transmitir aos outros, a alegria que sentia ao ouvir certa música. Um DJ a sério não procura que o seu nome seja entoado em cântico benfiquista na quebra de grandes épicos, mas antes que um tema especial encontre, por via do seu trabalho, um lugar no coração dos seus ouvintes. Um DJ a sério passa fome (pelo menos uma dúzia de vezes) para comprar música – porque respeita o trabalho dos seus autores. Acarta malas pesadíssimas calçada acima para ganhar uma miséria, e é – no geral – um relativo desconhecido da vida pública que vive uma existência romantica e onírica, insegura e sem apoio social algum, sujeito a ter um mês com pouco trabalho no qual mal paga a renda. É um tipo (ou uma tipa, perdoem-me), que vasculha lojas de música horas a fio (ao vivo, ou na net); é pessoa para nunca viajar sem visitar espaços onde fazer o seu valioso “digging”, e é, em última análise, alguém que se sacrifica pela diversão alheia. Quantas vezes, ao olhar um DJ solitário a subir uma colina lisboeta, com bagagem imensa, não me lembrei das últimas horas da vida d’Aquele que se sacrificou por todos nós.

E quão pouco essa personagem é valorizada… Há sempre um pindérico que estraga o esquema, que destrói com ignorante arrogância a dedicação do DJ a sério. É aquele que está disposto a oferecer soluções musicais fáceis e familiares, sem mestria alguma, a troco de copos e traços de farinha colombiana. Não digo com isto que já não haja novos DJs a sério, ou que hoje em dia qualquer um que sinta o “chamamento” seja necessariamente um imberbe sem talento. Mas que é cada vez mais raro ver um miúdo que saiba realmente o que é ser um DJ. Ao mesmo ritmo que os valores estéticos que embebem o underground se tornam fórmulas de pop, também – pelo menos, uma vez por década – a miudagem decide tornar-se DJ em grande escala. Quando se dá este fenómeno, outro sucede imediatamente: a qualidade da música decresce estupidamente.

A quem não conhece muita música (ou a quem procura apenas o glamour dos pratos), é principalmente o facilitismo que dita a música. E claro, isto apela em grande escala a todos os que tomam a música nocturna como um papel de parede sonoro que acompanha inconsequentemente um ritual de engate, ou uma bebedeira frívola. Assim, como sempre, dá-se um fenómeno de rotatividade dos desinspirados: onde aqueles sem-talento-com-fome-de-fama que atrofiaram o mercado laboral nocturno são substituídos por outros com igual configuração psicológica, cinco a dez anos depois.

São os hypes, as manias, os fugazes 15 minutos de fama. E cá atrás, discretamente, os DJs a sério, mantêm-se puros e fiéis, pobres em tudo menos em espírito… aproveitando esta sazonal queda dos parolos para se estabelecerem um pouco mais, para se darem a conhecer como pessoas que não abandonam o barco. Já dizia o Billy Ocean “when the going gets tough, the tough get going”… e é nestas mudanças de ares que se distinguem os meninos dos homens.

Portugal é particularmente volátil a estes fenómenos, principalmente pela falta de formação geral (amplamente perceptível) a respeito do que é um bom DJ, a respeito do que é o manifesto laboral e criativo do bom DJ (saber o que se deve – de facto – valorizar e o que é ou não acessório). Mas principalmente, a respeito do que é – ou não – boa música e como isso se distingue de música simplesmente funcional (um bom carro é mais do que apenas um carro económico).

Nesta ocasião, deixo o meu repúdio claro, sobre todos os que poluem e sufocam o universo nocturno do nosso país, ao jeito de Almada Negreiros (em ocasião semelhante) n’ O Manifesto Anti-Dantas… “morra o DJ-Pintas, morra… PIM”.



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Existem 26 comentários

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  1. Kaspar

    Caro Filipe: não me parece que essa discussão utópica seja para já. Os factos são factos e ainda só os enumerei. Mas no meu próximo artigo pretendo desconstruír ainda mais o assunto. Aí imagino que a coisa já mereça maior discussão. Dado, é claro, que a discussão seja feita em moldes de boa vontade e saudável troca de opinião.

  2. RDB

    Olá a todos,

    A RDB espera que a última mensagem no tópico dos Photonz, tenha sido bastante explícita e que não exista a necessidade de andarmos de tópico em tópico a explicar sucessivamente onde acaba a vossa liberdade e onde começa a liberdade dos outros.

    Não apoiamos, nem toleramos qualquer tipo de flame war ou comentários simplesmente idiotas e nisso inclui-se respostas em alemão.

    Se gostam da RDB respeitem-na e respeitem o próximo.

    Abraço,

  3. Kaspar

    Por partes…

    P1: "porque raio é que o kaspar pensa que tem mais legitimidade de passar musica que um rapaz que está agora a começar e que por acaso tb é electricista?"

    R2: Porque eu fiz isto a minha vida toda, porque invisto milhares de euros por ano para me manter no topo, porque tenho uma discografia extensa que se prolonga por mais de 10 anos, dentro e fora de Portugal. Porque já representei o nosso país em conferências, em competições, em entrevistas pelo mundo fora sobre o assunto… e porque conheço pouquíssimas pessoas às quais reconheça, em plena sinceridade, um empenho semelhante, e muitas delas estão a comentar neste forum.

    P2: "porque raio é que o kaspar pensa que o seu som é melhor que o de outro?"

    R2: Porque a maior parte da música que passo, daqui a dois anos continuará a ser boa música e a fazer sentido ser tocada.

    P3: "porque raio é que indivíduos deste site se acham o supra sumo do djing?"

    R3: Não acham, só acham que sabem mais que tu.

    P4: "porque raio é que djs, em vez de se preocuparem em passar musica de qualidade se preocupam mais em teorias da conspiração?"

    R4: Eu preocupo-me muito mais em passar música de qualidade, e passo. Tenho um site http://WWW.MAMILO.ORG, onde com um colega, colocamos podcasts bi-semanais com muita da música que compramos e gostamos, que tem saído… mas tu provávelmente não vais gostar.
    E depois, porque a conspiração é, como todas, feita no sentido de sufocar a verdade e vender uma mentira. Como agentes livres e genuínos, pretendemos usar as plataformas de que dipomos para expôr a fragilidade das mentiras e das meias-verdades

    P5: "porque raio é que o kaspar não se preocupa UNICA E SIMPESMENTE em por som e deixa que os outros djs ou possiveis djs façam a sua cena há bons profissionais e maus profissionais como em tudo na vida, os bons vingam e os maus têm mais dificuldade (é tão absurdo como Saramago estar preocupado com os meninos da 1ª classe que começam a escrever! LOLOLOOL de certo que Saramago terá mais que fazer! —- e já agora, kaspar, dedica-te mais ao djing e deixa a escrita para quem sabe!)."

    R5: Eu sei escrever bem, felizmente, tirei um curso universitário e estou mais do que preparado para expôr as minhas ideias de forma clara. Depois, preocupo-me com os “meninos da primária”, porque roubam o lugar a outros sem direito a tal, impedem os cachet dos dj’s profissionais de aumentares a valores dignos (que permitam que uma pessoa não tenha de acumular trabalhos, por exemplo, e viva em exercício da sua felicidade) e finalmente, porque para se falar alto, é preciso ter algo a dizer. Eu quando pus música pela primeira vez já sabia fazê-lo muito bem, porque passei dois anos a treinar diáriamente em casa… quem não sabe, não faça… e quando quiser fazer, que saiba muito bem como.

    P6: "e porque raio…um raio não vos parte os pratos da ignorância e começam a ser humildes e cordiais entre vocês DJS. "

    R6: Ter noção da minha obra não é ser arrogante. Eu já ajudei muita gente a começar a trabalhar como dj – gente que me pareceu ter o talento e o empenho necessários – nunca escondo a música que passo, e tenho mais que fazer que ser mal-educado e pouco cordial. Contudo, isso não me impede de manifestar discórdia em relação aos problemas do nosso sector.

  4. RDB

    Olá,

    Não Manuel, não é o Mário João Camolas. E acredita que aqui toda agente tem espaço para ter a sua opinião, mas se o continuares a fazer da forma que tens feito até ao momento em que o interesse dos teus comentários é quase nulo, acredita que mais dia, menos dia acabas excluído

    Pois se existe alguém até ao momento que não respeita ninguém, és tu, com uma atitude prepotente, como se tivesses o rei na barriga, gritando aos céus que já foste um miúdo e que agora és….ainda não percebemos bem o que…mas que tu achas que sim…

    Na realidade acreditamos que se fosses alguém, não estarias aqui com um utilizador criado há 2 semanas, para esconderes quem és na realidade.

    Quem acredita no que diz, não precisa de se esconder.

    Esperamos não precisar de voltar a comentar este tópico, tenham uma boa discussão e mais uma vez tentem mante-la saudável e produtiva.

    Abraço,

  5. trol2000

    "quem és tu para dizer que os djs putos não prestam ?"
    eu não disse nada, apenas disse que o artigo é bem explicito para a situação corrente.

    Ninguém nasce ensinado, é uma verdade!
    E todos temos um "inicio de carreira", mas quando comecei não lancei foguetes antes da festa, nem tão pouco pensei em vir a ser conectado com o rótulo de "DJ".

    A humildade que dizes eu não ter, sempre esteve presente.
    Não quero ser a "bolachinha mais doce do pacote", já me devias conhecer..mas percebo agora o porquê desse teu "ressabianço".

  6. manuel

    pk rodrigo? porque tb sou dj e fui para fora por som e não ando aqui em lamurias!? se não estão satisfeitos façam o mesmo que eu e malas ao ombro! se não vos pagam mais que pagam aos putos é porque prós clubs os putos valem o mesmo que voce^s. não culpem os putos, culpem -se a vocês mesmos.

  7. manuel

    "Porque eu fiz isto a minha vida toda, porque invisto milhares de euros por ano para me manter no topo"

    WTF!?!?!

    lololo… não percebeste…
    o meu WTF foi relativamente à expressão "me manter no topo". não considero que sejas tão "topo" quanto isso.

  8. Kaspar

    Eu acho que percebi o teu comentário…mas quando digo no topo, não me refiro a qualquer hierarquia quanto à qualidade dos dj's, que tu tantas vezes gostas de ficcionar.

    Refiro-me a estar no topo das minhas capacidades, não no topo do mercado. Isso há muita gente melhor posicionada que eu. Mas é o preço para não ter de se passar música que agrade cegamente às massas ignorantes. No topo… treino diáriamente, procuro, pesquiso, mantenho-me pronto a entrar em jogo e não falhar uma mix, um beat… equipado com tecnologia que me ajude a ter a melhor performance, munido dos melhores discos que encontro, e extensamente informado sobre tudo o que de musicalmente válido se passa no mundo.

    Sou perfeccionista, mas não me acho mais perfeito que os outros…

  9. manuel

    pronto Kaspar… fazemos as pazes? gostei da tua resposta ;)

    já te curto!

    (nos fazendo as pazes isto não vai ter tanta piada… já viste como aumentáste os comments do teu artigo num instante?)

    (já agora … que quer dizer dj&apos ? essa historia de por & nas palavras que é isso?).

    (agora tenho de me portar bem … dizem que só tenho um crédito… lololo)


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