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Não vou sair a dizer “Adeus, amanhem-se”

O último ano de Sérgio Tréfaut na direcção no Doclisboa

Entrevista a Sérgio Tréfaut acerca de parte do trabalho e influência do Doclisboa e quanto ao “programa de peso” desta edição do festival, a última em que assume funções de direcção.

Como tem sido a sua experiência enquanto director?

Pessoalmente estou envolvido desde 2004, só não o estive no final de 2005 e 2006. A minha preocupação é, antes de mais, dar ao país e à população local algo a que não tem acesso normalmente, num ponto de vista quase formador. O festival cumpre uma missão importante dentro da sociedade, sendo que outras instâncias não o fazem. Não é só em uma semana o que a Apordoc faz no Doclisboa. O próprio festival, ao longo dos anos, tem extensões pelo país inteiro e também tem um serviço pedagógico que vai às escolas durante o ano. É uma missão que não se esgota em onze dias. Também é um processo contínuo, na medida em que se vai transformando o perfil da programação.

Como por exemplo…

Na primeira edição havia apenas a competição internacional e a nacional. Na segunda edição aqui [Culturgest, 2005], percebemos que era preciso criar uma secção [“Investigações”] onde um certo número de filmes, com um perfil mais actual e de assunto do que de preocupações cinematográficas, pudesse ter o seu lugar e não estivessem a competir de forma disparatada com filmes de outro perfil. No ano seguinte criámos “Ficções do Real”, que em 2007 se transformou na secção “Riscos e Ensaios” [actualmente só “Riscos”, programada por Augusto M. Seabra], que tinha a ver com as margens formais, com o que está na fronteira do documentário com a ficção, com o ensaio, e onde há filmes que do ponto de vista formal estão noutro patamar e que por isso merecem ser vistos dentro de um universo diferente e fora de competição. E assim se vão solidificando uns princípios de programação. Vou passar a ser apenas conselheiro, mas há compromissos a assumir relativamente ao ano que vem e há outros que são a longo prazo.

Em que momentos sentiu que conquistou algo na produção do festival?

Tantas coisas. Só este ano é muito forte, conseguir ter a retrospectiva de Joris Ivens, que é a maior de Joris Ivens até hoje em festivais internacionais; e ter a Marceline Loridan, viúda do Ivens, uma figura absolutamente fabulosa, a fazer a sua Masterclass. A retrospectiva do [Frederick] Wiseman foi para mim um prazer enorme. Houve muitos momentos, a abertura de 2008 com o filme do Avi Mograbi foi outro. É divertida a guerra para ter a estreia europeia de um filme: o “Taxi To The Dark Side”, que veio depois a receber o Oscar de Melhor Documentário, estreou, em 2007, no mesmo dia em que estava cá a cimeira da Europa. Depois, a nível cinematográfico, a presença de todos os grandes realizadores que estiveram aqui é um motivo de felicidade. Quando você tem o Nicolas Philibert, quando tem monstros como o Rithy Panh, o Avi Mograbi e pessoas que normalmente são muito generosas e têm uma grande vontade de partilha com o público.

Acha que o seu trabalho de direcção do Doclisboa tem tido impacto fora destes âmbitos?

Desde que foi criado, o Doclisboa teve e tem repercussões na sociedade. Há um número muito maior de pessoas que têm acesso, aos poucos vai-se criando uma cultura de documentário. Pelo menos, um grupo razoável de pessoas começam a fazer a distinção entre reportagem, programa e documentário. No mesmo ano em que rompemos com a RTP, a estação mudou logo um pouco de atitude para tentar dizer que não era verdade o que estávamos a dizer: aumentou um pouco o orçamento e o número de filmes que passavam. O Doclisboa tem tido uma acção razoável sobre o que tem acontecido, a vaga do documentário tem algo a ver com esse impulso que saiu daqui e tem tido outras consequências positivas.

E nas salas de cinema, estrearam meia dúzia de documentários portugueses em 2010…

Os números não são maus perante não só a ficção portuguesa mas a independente. Em Portugal um filme independente é aquele em que não é suposto serem tiradas vinte cópias para o grande público. O documentário acaba por não ter menos público do que um filme de autor português. Os filmes independentes internacionais de grandes nomes, se não se estiver a falar de cinema comercial, têm números equivalentes. Ou seja, que o documentário esteja na escala do cinema independente é uma vitória até um certo ponto, há muitos filmes que não fazem mil espectadores. Há muitos mais documentários em sala. É muito claro que a pouco e pouco haja efeitos positivos do Doclisboa, há muitas pessoas que vão enviando os filmes. A nível internacional, o reconhecimento do festival é inegável, sou convidado frequentemente para participar como júri noutros festivais. O nível de qualidade e exigência do festival é muito alto.

O prémio…

O prémio melhorou. Há uma diferença radical neste ano, é a primeira vez que os prémios portugueses são monetários. Todos os festivais em Portugal normalmente dão prémios em serviços. Conseguimos o apoio da CGD, tanto para o Grande Prémio como para o prémio revelação, bem como o apoio da CPLP para o prémio de curta-metragem.

O Lisbon Docs também tem catalisado a produção?

O objectivo do Lisbon Docs é fazer com que os produtores consigam financiamento para os seus filmes, é criar uma conexão entre quem tem um projecto e quem o poderá financiar. Preocupa-nos particularmente que os produtores e realizadores portugueses encontrem possibilidade de vir a financiar e a viabilizar projectos. E, de facto, o Lisbon Docs tem, desde a sua criação em 1998, permitido que um número muito grande de produtores e realizadores portugueses, que nunca tinham tido colaborações internacionais, passassem a ter. Adquirissem conhecimento de como funcionam os modos de financiamento na Europa, quem são os representantes dos canais, passam a conhecer os interlocutores e os assim são exibidos filmes portugueses. O filme de abertura deste ano é um filme que foi apresentado há quatro anos no Lisbon Docs num pitching (onde se apresenta um projecto perante um painel de televisões). Foi nessa aprendizagem do funcionamento do co-financiamento internacional que o Miguel Gonçalves Mendes, aos poucos, foi conseguindo dois produtores, um espanhol e um brasileiro. E isso acontece com uma grande parte de produtores portugueses que são de facto apoiados pela Apordoc nessa iniciativa que é o Lisbon Docs.

Quais são as etapas da escolha de filmes que integram a programação do festival?

A seleção de filmes é feita por várias vias: há a abertura das inscrições, as pessoas enviam voluntariamente e todos estes filmes são vistos. Por outro lado, há pessoas que são enviadas para os festivais internacionais. Depois, há uma espécie de passagem a pente fino dos catálogos dos outros festivais, para verificar o que é que não vimos e pedir filmes. Por último, há um acompanhamento da cena nacional/internacional. Ao longo dos anos nós namoramos, por assim dizer, os realizadores. Faz anos que nós namoramos o Miguel Gonçalves Mendes para ter o “José e Pilar”.

Tem que se definir linhas e directrizes. Para isso há os directores de programação (neste ano é o Augusto M. Seabra). Discute-se o que serão as retrospectivas, as áreas temáticas não competitivas e a partir daí é escolher filmes. Tem de se ter muito critério e pensar nos parentescos, uma programação é algo que se faz de relacionamentos de filme para filme.

São três as retrospectivas neste ano. Como se deram estas oportunidades?

Normalmente você tinha retrospectivas de cineastas vivos. Este ano você tem Joris Ivens, que era um desejo de há muito tempo: eu tenho uma paixão pelo Ivens desde os 16 anos. Depois, o Augusto Seabra há muito tempo que queria fazer uma do Marcel Ophüls. A do Jørgen Leth surgiu quando o Amir Labacki [director do festival de documentário É Tudo Verdade, em São Paulo] apresentou aqui o seu filme “27 Scenes About Jørgen Leth” no ano passado. Nessa altura eu sugeri fazermos a retrospectiva, que iria coincidir com a estreia do último filme do Leth, “Erotic Man”. O Danish Film Institute facilitou imenso esta retrospectiva porque é uma entidade que centraliza a informação e ajuda.

Foi difícil reunir os filmes para as retrospectivas?

A Sofia Bénard, que trata da gestão das cópias, todos os dias tem de inventar soluções porque chega-nos uma cópia que, ao contrário do que nos foi dito, é de 16 mm em vez de 35 mm. Temos de encontrar solução para projectar o filme. Chegam-nos cópias que deviam estar legendadas e não estão. Descobrir quem tem as cópias de filmes de há 30 anos é um inferno. Quem esteve à procura dos filmes de Marcel Ophüls, passou três meses para encontrar cinco filmes. Às vezes falta parte do filme. Há também filmes em que nem os próprios realizadores, nem os detentores de direitos sabem do paradeiro das suas cópias.

A presença da Marceline Loridan
-Ivens é a concretização de um desejo?

Conheci-a e li a sua biografia recentemente, fiquei de facto boquiaberto. Já tinha lido, há muito tempo, um outro que ela tinha co-escrito com o Ivens, “O Paralelo 17”, quando eles filmaram no Vietname. A Marceline Loridan -Ivens é daquelas pessoas por quem se fica perdido de respeito. Ainda agora, com 83 anos, ela está a preparar um filme que vai rodar na China. É, portanto, uma mulher de armas.

A exposição de Malick Sidibé no Palácio Galveias

Das coisas que mais me dá prazer este ano é ter aqui a exposição de Malick Sidibé, que acho que é imperdível, obrigatória. A exposição tem o poder de mostrar África totalmente diferente dos clichés de miséria e, fotograficamente, não é a troco de nada que o Malick Sidibé recebeu tantos prémios importantes de fotografia por todo o lado.




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