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Serralves em Festa 2009

A arte contemporânea de portas abertas ao grande público

São raras as ocasiões em que as coisas podem ser ditas de forma tão desambígua: o Serralves em Festa é uma coisa positiva, para a cultura e para o Porto. Um evento do mundo das artes que também funciona como ocasião de pique-nique para as famílias e de festa académica para a juventude, Serralves em Festa faz um bom trabalho de ser tudo para toda a gente. É fácil ser-se cínico ou apenas excessivamente pessimista sobre a verdadeira capacidade do evento em interessar as pessoas para a arte contemporânea, mas se os efeitos a esse nível são poucos (e não temos provas que o são, efectivamente – ao menos o número de visitantes do museu continua a crescer), isso dever-se-á mais a factores intrínsecos à natureza da arte contemporânea que a alguma falha da parte de Serralves. A organização, muito simplesmente, pega na arte e coloca-na ao pé das pessoas; é uma abordagem directa e honesta.

O Serralves em Festa, para quem não sabe, é um evento que se tem vindo a realizar no Porto durante os últimos seis anos, e que nos últimos três tem assumido traços cada vez mais mainstream. Durante 40 horas, Serralves abre as suas majestosas instalações ao público. Visto que estas incluem um vasto território de jardins, e que o evento coincide com o romper do Verão, tem havido uma adesão cada vez mais maciça ao evento. Após a abertura das portas, há um desfile interminável de concertos, performances, teatro, dança, cinema e tudo o mais que seja viável de abranger num relvado, no museu ou numa das pequenas salas da Casa de Serralves.

Por muito interessante que possa ser o cartaz cultural, para a maioria das pessoas a motivação principal para ir ao Serralves em Festa é menos intelectual: as pessoas vão para saudar o Verão, deitar-se na relva e embebedar-se nas barracas da Super Bock. E quem é que as pode censurar? Os jardins de Serralves são enormes e lindíssimos, o tempo convida, e todo o evento tem a atmosfera de um festival, só que mais cuidado – a relva é limpa, as condições sonoras no geral impecáveis e as casas-de-banho singularmente higiénicas (quem é muito picuinhas pode até fazer o caminho para as do museu, que têm as condições a que estamos habituados nesses tipos de estabelecimentos.) A arte, digamos, vai simplesmente acontecendo – o que é descomplexado e agradável.

Os Concertos no Prado

Talvez o aspecto mais mediático do Serralves em Festa são os concertos que se realizam no Prado. Uma área recôndita do jardim, na verdade é bastante acessível da entrada, mas infelizmente pouca gente nota a existência do pequeno caminho que os liga; por isso mesmo, o mais usual é uma pessoa encontrar-se a descer o caminho totalmente escuro e atoalhado de gente que circunda um lago até chegar ao local pretendido. Pouco haverá de menos cool que queixar-se das condições de segurança dum festival numa revista da cena (trop burgeios!), mas admito que se houvesse algo a mudar no Serralves em Festa, a primeira coisa na lista para mim seria vedar certas áreas do espaço após o anoitecer – uma iluminação restrita a telemóveis e um público confuso que inclui crianças e idosos num território pouco seguro é, de certa forma, pedir sarilhos.

Onde é que eu estava? Ah sim, os concertos. Atendendo tanto à reputação artsy de Serralves como ao populismo crescente do evento, a organização tem sido bastante perspicaz na selecção de artistas: gente avante-garde mas que também sabe fazer dançar. Dan Deacon, dando o concerto de abertura na noite de Sábado, foi talvez o exemplo mais exuberante desta fórmula este ano. Acompanhado da sua ensemble, o artista de Baltimore concentrou-se em fazer um chinfrim transcendental, uma orgia de barulho que não dispensou por um segundo a vertente dançável. No seu auge, Deacon liderou uma audiência quase inteira num cântico hipnótico de “silence like the wind overtakes me”; o homem certo para a tarefa certa.

Gravy Train!!!! foram semelhantemente artísticos e semelhantemente dançáveis, mas a nível de qualidade o nível desceu drasticamente com a sua chegada. Às vezes parece que as bandazitas indie engraçadas podem ser todas condenadas e defendidas com os mesmos argumentos, mas compare-se os Gravy Train!!!! com, digamos, uns Go! Team, e vemos o quão grandes podem ser as diferenças. No papel está tudo certo: um grupo multiracial e multissexual a fazer canções curtas e que ficam no ouvido, com letras badalhocas e muita palhaçada pelo meio. Mas a verdade é que nem toda a gente foi feita para ser os B52’s (ou mesmo os Cramps), e a histeria afectada do grupo perdeu muito rapidamente a sua piada. Se, voltando à comparação inicial, os aspectos mais forçados de uns Go! Team desvanecem-se por total no palco porque a simples combinação de suor e volume cria uma intensidade maior, os Gravy Train!!!! nunca saem do papel de projectozito irónico de Belas Artes. Os avanços sexuais da vocalista não tinham sabor a sexo, nem sequer a nojo; apenas desafiavam uma pessoa a oferecer-lhe uma toalha e dizer “vá lá maria, pára com isso, está a ser desconfortável para toda a gente”. A atitude hiper-estereótipo gay exagerada do guitarrista personificava a ideia de trying too hard. Nada cansa tanto como exuberância calculada.

Ao fim da noite, ainda houve Metro Area DJs para animar quem restasse no Prado. Quanto ao vosso humilde jornalista, tinha passado demasiadas horas ao calor para alinhar no bailarico. Mas o que se ouvia ao longe enquanto tentavamos chegar à saída soava agradável.

Na noite seguinte, a grande final – A Certain Ratio. Um dos milhentos nomes rehabilitados pela obsessão com o Post Punk que o zeitgeist musical tem tido ao longo desta década. Foi talvez o momento mais aguardado do fim-de-semana, e se algo desiludiu, terá sido somente a falta de surpresas. O colectivo inglês tocou com força e vigor uma selecção de músicas da sua carreira, com algum palavreado simpático pelo meio. Os uniformes de escuteiros visíveis no “Twenty Four Hour Party People” já não estão lá – e verdade seja dita, o grupo não esconde a meia idade em que se encontra – mas pouco se perdeu da intensidade sonora dos A Certain Ratio, e cada vez é mais claro o quanto as raízes da banda residem não tanto no Punk mas mais no Funk clássico dos anos setenta; fechando os olhos, era possível imaginar que quem estava em palco eram os Ohio Players ou os Kool & The Gang.

A Casa do Filho Único

Se há uma iniciativa que dá bom nome ao que a bem ou mal se pode apelidar de movimento underground português, é a Filho Único. É verdade que a série de concertos na pequena Casa de Serralves deu, em certos momentos, um ligeiro sentimento de claustrofobia (Lobster num quarto pequeno não é para todos); mas maior do que este era o agrado com um programa verdadeiramente diverso e interessante, misturando de forma descomplexada Rock experimental, Free Jazz e música africana de muitas variedades. Pontos altos? A performance soberbamente controlada de Kimi Djabate e a sala cheia dos Aquaparque, talvez.

Arte e performances

A grande exposição da Colecção Serralves, inaugurada um dia antes do Serralves em Festa, é tão impressionante como o anunciado, se bem que talvez menos adequada ao evento do que anteriores – demasiadas peças que desafiam o intelecto, peças a menos que deliciem os sentidos. O ambiente do museu durante a festa é algo bastante específico, principalmente nas horas mais avançadas da noite, em que muitos utilizam o sossego das exposições para dormir uma pequena soneca no acolhedor chão de madeira do museu. Mesmo com a presença dos magníficos berlindes gigantes que tinham sido um dos pontos altos do antepenúltimo Serralves em Festa (o que cai melhor nesta atmosfera é fauvismo total), havia demasiado pensamento académico e faltava exuberância.  A exposição corrente, um passeio pelo mundo da arte contemporânea, vale sem dúvida a pena ser visitada, mas há demasiados textos e manifestos no seu seio para agradar durante uma festa.

Omnipresentes as trupes de teatro infantil, uma reacção racional ao cada vez maior número de famílias que se dirigem ao evento todos os anos. Também bastante prolíficos: Maggie Nicols e Steve Boyland, que com as suas frequentes acrobacias de voz ganham o título de hardest working duo in show business, pelo menos para este fim-de-semana. A sua arte pode caminhar num percurso perigoso entre o divertido e o irritante (todos nos lembramos daquele colega na escola primária que fazia ruídos engraçados, e o quão rapidamente este perdia a piada), mas o charme sincero com que praticaram as suas várias performances improvisadas em vários cantos do espaço (inclusive no museu) foi mais do que compensação por alguns momentos de saturação.

RRRRRRUUUÍÍÍDO

Porque Serralves sempre tomou conta do pessoal do noize. E este ano não foi excepção – grande parte das sessões de cinema rodaram à volta de barulhos maléficos (um contraste engraçado no meio de tanto prazer bucólico), mas o prémio de melhor barulheira-fode-porcos deve ser entregue à performance de Haswell & Hecker, no Campo de Ténis, pouco antes do concerto dos A Certain Ratio. O campo é uma das partes menos bem iluminadas do parque, e não duvido que a combinação de ruído electrónico, escuridão e espectáculo lazer deve ter dado flashbacks do Ultramar a uns quantos membros da audiência.

THE ONE THAT GOT AWAY

Companhia Instável. Diz que fazem um bailado inspirado no “Kill Bill”. Quem viu adorou, mas eu não tive a destreza de arranjar um bilhete a tempo (a sessão que ainda me estava disponível quando comecei a ouvir o feedback positivo de amigos exigia reserva – uma situação pouco vulgar para o festival, mas compreensível, visto ser num auditório.)

RESCALDO

Talvez tenha sido do bom tempo. Não vou dizer que o Serralves em Festa não tem os seus problemas – a questão dos transportes continua complicada, por exemplo,  e embora que eu nunca tenha presenciado nada do género, as histórias de distúrbios têm aumentado preocupanetmente nas últimas edições (consequência inevitável dum evento gratuito – os indesejáveis também aparecem) – mas julgo que há poucos eventos no Grande Porto que oferecem tanta diversidade numa atmosfera tão agradável como o Serralves em Festa.



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