Seu Jorge @ Aula Magna

Onde está o samba?

A determinada altura de uma das suas músicas, Seu Jorge pergunta onde está o samba. Na noite de dia 3 de Novembro, o samba esteve na Aula Magna de Lisboa. Acompanhado de uma guitarra e quatro excelentes músicos, apresentou-se perante uma sala cheia e, durante duas horas, tornou-a solo brasileiro.
Com os cinco multi instrumentistas em linha, o concerto começa, e com a naturalidade de uma banda de festa, as músicas seguem-se uma atrás da outra levando o público a fervilhar e a acompanhar os músicos.

Seu Jorge é irrequieto. Dança na cadeira, gira-a, vira-se para os músicos e conquista todos com a naturalidade que lhe parece ser inata. Está em casa quando está no palco e a massa de gente que se senta em frente a ele vê honestidade na sua guitarra e não precisa do seu comando para participar, pois à segunda música já dança de pé.

A sua figura não se impõe. A sua música sim. Passa grande parte do tempo sentado, a ouvir a música de detrás dos acordes e não reclama para si o foco de atenção. Os cinco músicos estão despidos de artífices e tocam para uma casa cheia como se fosse uma fogueira na praia. A sua voz não é o apogeu da perfeição, mas é sem dúvida uma voz de autoridade. É trémula mas não tremida, é um instrumento que usa com sabedoria e conhecimentos dos limites. Quando esta não chega, o público ajuda, umas vezes a pedido, mas na sua maioria por auto recriação.

Uma hora volvida, sai de cena o maestro e ficam apenas os percussionistas. Com pandeiretas, tambores e palmas, criam música que faz levantar o traseiro da cadeira. Numa rendição musical ligeiramente onanista, debitam ritmo atrás de ritmo, brincam com o público e entretêm. Mas a noite não era para isso. A noite era do samba.

Na temática, e consequentemente na atitude, Seu Jorge fala da realidade brasileira, enumerando problemas, descrevendo situações e criticando atitudes. O seu discurso recai na sociedade brasileira e na incontornável questão da favela. Mas fá-lo bem, espalhando-a pelo reportório, mesmo quando discursa, não é demagogo.

Segue-se uma música de David Bowie em português, traduzida a propósito do filme “Um Peixe fora de Água” de Wes Anderson e algumas músicas apenas com guitarra. O concerto intimista torna-se pessoal.

Acaba em festa, com a casa de pé, pronta para mais uma e rendidos, tal como manda o figurino. A música de Seu Jorge é honesta e embora pegue nas raízes tradicionais brasileiras não é étnica. Quando sai do palco, sai a dançar e a Aula Magna quando se levanta para sair, também ainda vai a bater o pé.



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