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Shakespeare: um casamento feliz

E já lá vão 14 anos.

Dizem que tem poder curativo e até já houve um pedido de casamento, a meio do espectáculo. Contam-se já 14 anos, 160 digressões, 213 mil espectadores e 1140 representações.  O que é que Shakespeare ainda nos pode dar? Ide até ao Teatro-Estúdio Mário Viegas para saber a resposta.

Duarte Grilo, Fábio Sousa e “alguém que já foi capa da Dica da Semana, presente em todas as caixas de correio do país”, leia-se André Nunes, dão novo corpo à centrifugação de 36 peças de Shakespeare, feita em 97 minutos. Todos reconhecem a responsabilidade do legado que os antecede mas, catorze anos passados, ainda é possível trazer frescura e um toque de contemporaneidade às já exaustivamente exploradas personagens shakespearianas.

Debaixo do “Teatro do globo”, letreiro artesanalmente pintado a vermelho e sempre presente em palco, surgem duas portas de onde brotam “os três anormais”, como dizem ser conhecidos. São já o 6º elenco de actores que insistem em aceitar representar uma peça que “já está no coração das pessoas”. Quem o diz é Juvenal Garcês, o encenador, e prova disso talvez seja uma noite de estreia com a sala a abarrotar. Daquelas que pedem que um ou outro espectador aceite ficar sentado nas escadas e eles aceitam.

E em já 1140 representações contadas, o que mudou? A resposta é tudo e nada. Há muito respeito pelo trabalho já feito e depois a inegável experiência e sensibilidade de cada actor. “A peça está muito bem escrita. Fora o que trazemos de novo e o que eles tinham e que nós não temos, a estrutura, alguns gags e brincadeiras com o próprio Shakespeare são fabulosos. É um conteúdo muito engraçado”, diz André Antunes.

Os receios esbatem-se face à estrutura sólida e divertida da peça. Cada um dos actores assume a função de mestre-de-cerimónias que nos introduz à vida de Shakespeare e à sua poesia dramática. E quem se acha perito nas lides teatrais Shakespearianas, desengane-se. Aqui há espaço para uma chuva de dinheiro, um rap, um número de teatro-dança e uma Julieta, que para além dos seus males de estômago, é também “faquir”. Todas as personagens são desconstruídas dando-lhes nova forma e ritmo. Quanto mais não seja, Hamlet é representado a várias velocidades e ainda de trás para a frente.

“O êxito é uma coisa fugaz”, diz o encenador Juvenal, ao mesmo tempo que se perde em elogios ao seu novo elenco. “Eles são muito divertidos, muito frescos mas não quero que eles fiquem a vida toda a fazer isto”, acrescenta. Enquanto houver prazer faz sentido continuar. Caso contrário, “daqui a dez anos e já com artroses, ele pega em três mais novos e substitui-nos”, contesta André. Enquanto esse dia não chega, sangue e lágrimas não há, mas suor esse, há bastante. Há até quem se assuma como “Mr T-shirt molhada”. Sim, é o da Dica da Semana.

O que já existia foi sedimentado mas foi-lhe acrescentado uma pitada de actualidade à dramaturgia de Shakespeare. “Catorze anos trazem cansaço e alguma saturação mas isto é um casamento. Já tem alguns divórcios, mas é um casamento com condições para mais mil representações”. Um casamento feliz, portanto.



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