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Shenmue III | Análise | PS4

Prontos para uma viagem no tempo?

Após 18 longos anos, estamos perante o milagre que é o Shenmue III. Uma das sequelas mais aguardadas na história dos videojogos, desde o último jogo lançado em 2001 para a Sega Dreamcast. Os fãs desta série começavam a perder a esperança da Sega voltar a produzir uma sequela, pois esta saga, embora composta por jogos avançados para o seu tempo, não conseguiu cativar um público suficiente para o lucro necessário ao desenvolvimento de mais sequelas.

Sendo assim, a chama da esperança voltou a acender-se quando Yu Suzuki (criador de Shenmue) apareceu no maior evento de videojogos – E3 (Electronic Entertainment Expo) – em 2015, durante a conferência da Sony, para finalmente anunciar a aguardada sequela como projeto de Kickstarter. A existência de Shenmue III dependeria agora dos fãs, que ajudaram a financiar o jogo num espaço de 7 horas, atingindo a sua meta de 2 millhões de dólares para o desenvolvimento. O projeto Kickstarter acabou no mês seguinte ao seu anúncio com 6 milhões de financiamento, fora a ajuda de empresas como a Sony e a Deep Silver.

É claro que, depois de tantos anos e com um orçamento muito mais baixo em comparação aos jogos anteriores (o Shenmue original tinha um orçamento de 47 milhões de dólares para o seu desenvolvimento), começaram a surgir várias questões. Como conseguiria uma pequena equipa (embora composta por elementos da equipa original) manter a essência de Shenmue e continuar a sua narrativa depois de um hiato tão longo? Outra questão que surgiu foi a preocupação com o aspeto visual do jogo, provocada pelas demos do mesmo mostradas ao longo do seu desenvolvimento.

De facto, o resultado deste projeto é uma viagem no tempo, que consegue capturar a essência que apaixonou todos os fãs de Shenmue e manter a esperança por um novo capítulo para a tão aguardada conclusão desta história.

 

// Narrativa

A narrativa de Shenmue desenvolve-se à volta da vingança de Ryo Hazuki pelo seu pai, que foi assasinado por Lan Di, um homem misterioso que veio da China em busca de determinados “espelhos”, um contendo uma Fênix e outro contendo um Dragão. No fundo, Ryo terá de descobrir o que estes “espelhos” têm de especial para terem provocado o assasinato do seu pai e por fim procurar a oportunidade para se vingar.

Ao longo da sua jornada passada, Ryo conheceu várias personagens que foram fundamentais para conseguir os seus objetivos. O último jogo acaba com Ryo a conhecer uma personagem que certamente o irá acompanhar ao longo do seu caminho, Shenhua.

Shenmue III começa exatamente onde o último jogo ficou. O protagonista está à procura do pai de Shenhua para obter respostas sobre os “espelhos”. No entanto, o mesmo encontra-se desparecido e cabe a Ryo e Shenhua, juntos, encontrá-lo e descobrir o porquê do seu súbito desaparecimento.

A história desenvolve-se em duas localizações na China, a primeira sendo a aldeia Bailu, onde Shenhua reside, e a outra sendo uma cidade chamada Niaowu. Ambas as localizações apresentam atmosferas completamente diferentes e o protagonista terá de se integrar em cada uma.

Ryo irá conhecer novas personagens que irão ser cruciais no seu percurso, assim como irá encontrar novos inimigos que serão grandes obstáculos no mesmo. Porém, a melhor relação entre personagens no jogo é sem dúvida entre Ryo e Shenhua. Existe uma grande conexão entre os dois, seja pelo destino da história dos “espelhos” ou pela personalidade de ambos.

Durante o jogo, é possível interagir várias vezes com Shenhua. Uma destas interações faz com que ambos fiquem horas a conversar sobre o passado de cada um de forma a conhecerem-se melhor. De certo modo, isto ajuda os principiantes de Shenmue a aprenderem mais sobre o protagonista e é para os fãs algo de valor nostálgico.

Ao longo desta aventura, existe um bom progresso na história de Shenmue, no entanto esta não marca o seu fim, sendo necessário esperar pelas próximas sequelas para finalmente concluir a jornada de Ryo.

Shenmue III consegue entregar uma narrativa coesiva, com algumas revelações e grandes surpresas para os fãs da saga. No entanto, para os novos jogadores, é possível que a integração neste universo seja difícil, apesar do jogo conter um “re-cap” de toda a história de Shenmue. Fica sempre a faltar a relação que o jogador estabelece com as personagens e que apenas é ganha ao jogar os títulos anteriores.

 

// Visuais e áudio

Os jogos anteriores ficaram conhecidos como uma referência gráfica no seu tempo, o que não se sucede no novo título. Mas temos que ter em conta que a produção deste novo jogo teve um orçamento muito mais baixo em comparação e consegue na mesma apresentar alguns pontos positivos.

Em resumo, os visuais desta sequela são um pouco questionáveis. Apesar do mundo na sua essência apresentar visuais ricos e detalhados, os modelos das personagens ainda requerem algum trabalho.

No mundo, o nível de atenção dado aos detalhes é de notar, desde a aldeia de Bailu onde prima a natureza colorida e os seus bonitos lagos, até à cidade de Niauwu, com a sua excelente arquitetura Chinesa. Os efeitos climatéricos (chuva) adicionam novos detalhes no mundo, como poças de água com excelentes reflexões ou até mesmo lama em caminhos dentro da aldeia. Estes pormenores, em conjunto com o ciclo dia/noite (cuja iluminação transforma por completo os locais), acabam por ajudar na imersão do jogador. É de elogiar a quantidade de NPC’s presentes em cada local do mundo, tendo em conta a possibilidade de interagir com a maior parte dos mesmos.

Isto leva-nos aos modelos das personagens principais e restantes do jogo, onde já temos uma história diferente. Ryo e Shenhua apresentam modelos bem detalhados, principalmente em comparação ao 1º anúncio do jogo, juntamente com algumas personagens que têm um certo destaque na história. No entanto, o aspeto de NPC’s do mundo varia entre bom e mau, sendo que alguns apresentam um design horrível e pouco trabalhado. Nota-se também o uso de repetição do mesmo modelo nas personagens, com poucas variações nos detalhes que os distinguem (adiciona-se um bigode, ou até mesmo umas sobrancelhas, e temos uma pessoa nova). Existe ainda a questão das animações de todas as personagens parecerem um bocado robóticas durante as secções de exploração. São pontos que podemos acabar por perdoar devido ao desenvolvimento do jogo mas que não deixam de ser distrativos.

O áudio do jogo é razoável. Este apresenta uma banda sonora representativa e algo nostálgica de Shenmue que não desilude tendo em conta os seus precedentes. Os diálogos são o típico de Shenmue, com alguma informação repetitiva e desnecessária, mas são um passo em frente em relação aos jogos anteriores. No entanto, é necessário elogiar a incrível quantidade de diálogo que existe no jogo, tendo em conta que é possível falar com praticamente todas as personagens que vivem no mundo.

 

// Jogabilidade

Após todos estes anos, a jogabilidade de Shenmue mantém-se quase intacta nesta sequela, apenas sofrendo pequenas alterações. A jogabilidade divide-se em duas partes, exploração e combate.

Durante a exploração, Ryo terá de abordar os NPC’s de forma a descobrir como progredir na narrativa. Este sistema obriga ao jogador a recorrer a toda a ajuda possível que possa encontrar pelo seu caminho, pois em Shenmue não existe um minimapa a orientar o jogador: cabe ao próprio investigar e recolher pistas que vão sendo registadas numa espécie de diário de Ryo e podem ser consultadas de forma a progredir na narrativa. Ao longo do seu caminho, encontrará vários obstáculos, como puzzles para resolver certos mistérios, lutas que poderá ter de enfrentar e até apostas que terá de ganhar.

De notar que o jogo apresenta problemas de desempenho, nomeadamente durante a exploração. Felizmente, o combate não sofre muito neste aspeto, o que ajuda a manter uma jogabilidade mais responsiva nos momentos mais delicados do jogo.

As lutas de Shenmue III são poucas, mas são uma boa distração do habitual flow do jogo. O combate dos jogos anteriores era mecanicamente sólido e complexo, sendo inspirado nos jogos de Virtua Fighter (pois Shenmue inicialmente era um Virtua Fighter RPG). Como esta sequela não é relacionada com a Sega (editora de Virtua Fighter), o combate foi remodelado do zero, passando a ser mais simples. O resultado deixa um pouco a desejar e as animações do jogo não ajudam na imersão, mas não deixa de ser satisfatório.

Sendo a série de videojogos que começou a tendência dos famosos QTE (Quick-Time-Events), que se tornaram comuns em vários jogos nos dias de hoje, estes também estão de volta nesta sequela. São utilizados em sequências de perseguição ou sequências específicas de combate como nos jogos anteriores. Infelizmente, a frustração de falhar as mesmas também voltou, devido à inconsistência de tempo que é dado ao jogador para pressionar o botão correto, que acaba por muitas das vezes nem registar.

Shenmue III, assim como as prequelas, mantém a tradição de apresentar elementos de “vida real” na sua jogabilidade, adicionando alguns novos tais como a necessidade de Ryo alimentar-se, pois com o tempo (a lutar entre outras atividades) a barra de “vida” vai reduzindo e é a comer/beber que se recupera. A meu ver, esta mecânica do tipo “survival” parece ter sido implementada como mais uma razão para ganhar dinheiro durante o jogo. Infelizmente, a mesma apenas acaba por interromper o ritmo da jogabilidade e pode prejudicar o jogador em momentos em que não esperava uma luta e não tem a barra de “vida” no seu melhor. Uma mecânica já existente dos jogos anteriores é a necessidade de consultar uma certa pessoa a uma certa hora do dia, onde prima a espera. No entanto, Shenmue III introduz um novo sistema, chamado “Jump System”, que permite avançar no tempo até a hora desejada, opcionalmente.

De forma a favorecer Ryo em combate, torna-se necessário treinar várias vezes, através de simples minijogos. Estes treinos são fundamentais para avançar na narrativa e dependem da barra de “vida” do personagem e de skill books (técnicas novas que Ryo irá utilizar para combater e evoluir o seu nível de combate), entre outros elementos.

E agora a questão de ouro, como arranjar dinheiro? Ryo terá de facto de trabalhar como na vida real (às vezes, nem nos jogos fugimos ao trabalho…). Alguns exemplos consistem em cortar madeira ou até conduzir um empilhador, como no famoso trabalho do primeiro Shenmue. Também é possível ganhar dinheiro através de jogos de aposta, que consistem em minijogos simples ou noutros mais distrativos, como jogar nas máquinas de jogos arcade (que contêm umas referências engraçadas).

Sendo assim, os fãs desta saga vão sentir-se imediatamente em casa. No entanto, será dificíl cativar a atenção de novos jogadores que não sejam experientes com este tipo de jogabilidade, que mistura vários tipos de mecânicas diferentes e mais clássicas, vindas de outra era dos videojogos.

// Longevidade

É possivel concluir a narrativa de Shenmue III numa média de 25 horas, mas ainda existe  conteúdo opcional para aproveitar durante a aventura ou no fim da mesma. Conteúdo como: colecionar todas as cápsulas, ervas/plantas e prémios (entre outros objetos); aprender todas as skills (técnicas de artes marciais) do jogo e até experimentá-las em lutas competitivas; realizar sidequests ou apenas disfrutar da vasta seleção de minijogos em máquinas arcade, apostas, etc.

No fundo, é possível disfrutar de mais umas horas no mundo de Shenmue, algo que vai deixar fãs muito contentes pelas saudades e nostalgia que o jogo proporciona.

// Veredito

Shenmue III é definitivamente um jogo feito com carinho para os fãs que ansiavam pela sequela após todos estes anos, continuando a jornada de Ryo Hazuki com todo o seu espírito e charme intacto. O mundo cheio de vida e interação merece ser explorado e existem montes de referências nostálgias e surpresas para os mais dedicados descobrirem.

No entanto, este título prende-se demasiado ao passado na sua jogabilidade, o que poderá afastar ainda mais novos jogadores que nunca tiveram contacto com esta saga. Os seus problemas técnicos podem ser outro ponto a provocar este afastamento, quando na verdade, para além deles, encontra-se um jogo competente.

 

Apesar de tudo, Shenmue está de volta e existem muitos motivos para celebrar este lançamento tão (in)esperado de uma das séries de videojogos mais nostálgicas.

 

Prós:

  • Espírito de Shenmue mantém-se intacto.
  • Mundo rico e vivo que merece ser explorado.
  • Jogabilidade única de exploração e combate que Shenmue sempre ofereceu.
  • Muitos easters eggs de agradecimento aos fãs.

Contras:

  • Problemas técnicos.
  • Modelos das personagens e animações faciais deixam a desejar.
  • Não é possível dar skip a diálogos (apenas de alguns vendedores).
  • Os QTE’s podem ser frustrantes.

 

N.º de Porta:­

7/10

 

 



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