Short Stories @ RDB #1

Ocaso

Tento imaginar como te sentes. O choque que sofreste quando, esta manhã, soubeste o resultado das análises. Vergonha, mágoa, revolta… Tudo isto misturado e muito mais. Imaginar, porém, não é o mesmo que sentir. Imaginar está para sentir como a palavra água está para a chuva intensa que cai lá fora.

“Sinto-me”, disseste-me: “como se tivesse sido atingida por uma bala perdida”. Não. Não foi uma bala perdida, foi algo mais forte que isso.

Vejo-te na tua casa, cercada pelo silêncio da solidão e o cheiro húmido das paredes. Pássaros bailando ao entardecer entre a densa confusão das ruas. É um perigo, insistem os amigos, viveres num lugar tão afastado de tudo e de todos. Tu encolhes os ombros, ris, nunca fizeste caso.

“Olho para trás, para toda a minha vida, e pergunto-me – como é que cheguei até este instante? Depois de dez anos a viver aqui, o meu maior desejo era ter filhos, muitos filhos, e como tantas outras mulheres neste país não quis ver o óbvio, fechei os olhos, entreguei-me por amor e confiei. Fui traída, e agora eis-me aqui, a passear pelos mercados, à procura de frutos e vegetais que possam fortalecer o meu sistema imunológico”.

O teu amor. Foi por amor, não foi? À terra perigosa e insubmissa, tão diferente do chão onde nasceste e te criaste; ao mel suave do crepúsculo, ardendo para além da varanda da tua casa; essas mulheres humildes que te cercavam, que te cercam, pedindo conselhos, e dinheiro; aos meninos da rua; aos camponeses a quem tiraram tudo; à música; à gargalhada franca do teu homem, o homem que te traiu. Foi por amor que chegaste até este momento.

Olho para o rio e vejo embarcações a partirem com o seu rumo definido, fazem parte dele, tal como tu fazes parte de mim. Escolheste ser quem és, nas alegrias, no risco, mas também no sofrimento, e a tragédia mordeu-te o peito à traição.

Além do terror, há ainda a vergonha: “É mais fácil dizer a alguém que se está a morrer de cancro. Isto, esta doença, ninguém perdoa”. Respondo: “que se envergonhem os outros! Os que matam, calando; os indiferentes, os distraídos. Os dirigentes corruptos dos governos dos países ricos, democráticos, que investem mais tempo e dinheiro a desenvolver novas armas do que em combater as grandes epidemias. A Igreja Católica, na sua teimosia em condenar o uso de preservativos”. Depois calo-me…

Acontece que o medo é um sentimento mais poderoso do que a compaixão. O medo deforma as pessoas. Viver com a tua doença é viver com o nosso medo e com o medo do que os outros têm de nós. O medo dos outros não podemos controlar.

“Terei de me habituar a viver assim, com uma espécie de bomba-relógio dentro do meu sangue – talvez só expluda daqui a dez anos, talvez isso não aconteça nunca. Afinal de contas habituamo-nos a tudo, não é verdade? Inclusive à miséria. Estranhamos a miséria nos primeiros dias. Na segunda semana já rimos, às gargalhadas, juntamente com os miseráveis. Preciso aprender a rir da minha nova condição”.

Precisamos todos. Todos os que ao longo destes anos temos rido contigo. Aqueles, e são tantos, que o teu riso salvou. Foi sempre essa a nossa maior força. Agora não nos resta mais nada, mais nada senão esperar.

“Já estamos a comer chuva”, cantavam as crianças da nossa terra, lembras-te? E nem chuva havia. Quem por lá passava, os estrangeiros europeus, não eram capazes de compreender o que as mantinha tão vivas. Olhavam para elas assombrados. “Porque cantam?” perguntavam eles muitas vezes. Tu e eu sabíamos…

Cantam porque estão vivas. Alimentam-se do seu próprio canto. Enquanto cantarem hão-de continuar vivas.

*

– Faça favor de entrar que o senhor doutor já vem ter consigo. Informou a enfermeira.

Dirigindo-se lentamente para o consultório, Joana sentou-se e esperou ansiosamente pela chegada do médico.

– Muito boa tarde. Já tenho aqui comigo os resultados das análises que lhe pedi que fizesse. Disse o doutor Santos, com um semblante carregado, enquanto se sentava na sua secretária.

– E então senhor doutor? São boas ou más as notícias que traz consigo?
– Infelizmente… são as piores possíveis. Já fizemos várias contra-análises mas o resultado foi sempre o mesmo. Não há outra forma de lhe dizer isto, e tenho de ser frontal consigo, mas… efectivamente tem Sida…



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