Short-Stories @ RDB #11

Dilema.

Acordei de repente, assustado.

Uma dor forte na nuca deixava-me atordoado. Quase nem conseguia levantar-me.
A princípio não percebi muito bem onde estava. À minha volta tudo era escuro. Aos poucos fui habituando os olhos à escuridão. Levantei-me e tentei caminhar. Tacteei o chão até encontrar uma parede e a luz. As minhas mãos estavam húmidas e escorregavam. Quando finalmente acendi a luz vi que tinha as mãos sujas de sangue. Não parecia ser meu. Reparei que estava num grande armazém abandonado. Quando observei melhor o espaço vi à distância algo que parecia ser… um cadáver. Um homem muito bem vestido. O rosto estava completamente desfigurado, irreconhecível. Entrei em pânico! Procurei uma saída e acabei por conseguir escapar. Cá fora ainda era dia. Corri com todas as minhas forças. Na minha cabeça as ideias saltitavam em grande desordem. Como tinha ido ali parar? Quem era aquele homem? Será que tinha sido eu o seu… assassino? Não me recordava da noite anterior.

O armazém encontrava-se num grande terreno baldio. Não havia casas, nem estradas, nada. Ninguém! O meu coração batia cada vez mais depressa. Ao fim de algum tempo parei e sentei-me para recuperar o fôlego. No céu sobre a minha cabeça voavam abutres.

Ao longe no horizonte avisto uma criança a brincar. Vem andando pelo meio dos arbustos colhendo flores. Parece um anjo! Os seus longos cabelos brilham ao sol e o seu vestido branco parece ter luz própria. Que criança é esta? Que estará ali a fazer? A determinada altura pára entre os arbustos e parece observar-me. Levanto-me e avanço na sua direcção. A medida que vou andando parece que a distância se vai tornando cada vez maior. Começo a andar mais depressa. Ando, corro, corro e não consigo alcançá-la. Parece que não saio do mesmo lugar. Quando finalmente me aproximo afasto os seus cabelos para lhe ver o rosto. De repente…

Bloqueio de escritor. Há cerca de duas semanas que andava às voltas com esta última frase. A minha cabeça estava tal como o ecrã do computador, em branco. Isolei-me na casa de campo no meio da floresta em busca de inspiração, mas ela parecia tardar em aparecer. A editora começava a pressionar-me para apresentar resultados. O meu primeiro romance foi um verdadeiro sucesso mas agora parece que não posso continuar a viver na sombra disso.
 
Fui dar uma volta de carro para me distrair. Estivera o dia todo em casa e estava a precisar de apanhar ar. O dia já começava a dar as boas vindas à noite. Ainda assim aventurei-me. Fui até à vila comprar tabaco, o meu companheiro em mais uma noite de insónias. Quando regressava a casa encontrei um carro parado na berma da estrada, sem ninguém por perto. Achei estranho estar ali numa zona sem movimento. Ainda assim passei e não lhe dei muita importância. Até que ouvi um tiro e depois vários seguidos. Com o susto travei de repente e quase me despistava. Olhava para todos os lados e não via ninguém. Tentei por o carro de novo a trabalhar mas ele teimava em não pegar. As minhas mãos não paravam de tremer.

Quando olhei para trás vi um vulto a arrastar qualquer coisa pesada. Levantou e colocou dentro da mala do carro. Nem queria acreditar no que os meus olhos viam! Seria aquilo que eu estava realmente a pensar… O pânico paralisou-me dentro do carro. Felizmente não dera pela minha presença a vários metros de distância. Arrancou a alta velocidade. Tentei uma vez mais rodar a chave na ignição e nunca aquele som me parecera tão agradável. Fui para casa o mais depressa que pude.

– Então já leste? O que achaste? – perguntei com ansiedade. Ao fim de mais um almoço no restaurante do costume discutíamos o meu romance.
– É bem diferente do anterior – respondeu o meu editor. Mas acho que tem qualquer coisa que pode resultar. E essa história do bloqueio era só para criar suspense? 
– Bem te avisei. No início é difícil mas depois de lhe apanhar o jeito as ideias fluem como água – declarei com um certo orgulho.
– Confessa lá que aqui ninguém nos ouve. Onde foste buscar todo este enredo?
Antes que pudesse responder somos interrompidos pelo toque do telemóvel.
– Desculpa mas tenho mesmo que atender esta chamada. – disse-me ele levantando-se.

Entretanto, um empregado de mesa aproxima-se de mim.

– Pediram-me para lhe entregar isto – disse e estendeu-me um pequeno papel.
“Se publicar este romance asseguro-lhe que será o último da sua vida.” O meu coração quase parou com esta mensagem. Algo me dizia que devia ser levada muito a sério.



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