Short-Stories @ RDB #4

Alguns pensamentos, numa extensão inacreditável...

A música enchia o ar doce, colorido pelo cheiro a laranjas. A casa era grande e bonita. De proporções apolíneas, harmoniosas. As janelas, grandes, davam para um pequeno jardim de tipo inglês, com um grande lago no meio. Do jardim adivinhavam-se os vultos de quem se ria, de quem dançava. Nessa noite tudo resplandecia. As luzes da casa calavam o brilho das estrelas e a música do baile ofuscava o som da água da fonte. Sentia-me ansioso e hesitei uns momentos antes de entrar.

Depois de cumprimentar os meus anfitriões, fiz como era costume. Baixei a cabeça e atravessei o salão. Escondi-me na biblioteca. Adorava aquela sala de paredes altas, cobertas de livros. Passara ali muitas tardes pesquisando em livros antigos, de páginas amareladas pelos anos e pelo uso. Estava já absorto na leitura de um qualquer romance, quando tu entraste.

Até então, tu eras apenas a sombra de uma rapariguinha tímida que se afastava mal era notada, sempre que visitava os teus pais. Nessa noite escolhemos ambos o mesmo refúgio. Quando me viste fizeste ainda um gesto como se fosses fugir. Mas ficaste.

A chuva continua a cair lá fora. A humidade é talvez a minha maior inimiga. Olho para as minhas mãos deformadas e já não me lembro de como eram há cinquenta anos atrás. De entre os objectos que nunca me abandonaram encontra-se um que pela sua beleza se destaca.O meu Pai ofereceu-me esta Psique no dia do meu décimo sétimo aniversário. Foi um aniversário muito especial, pois era o primeiro após a morte da minha avó a quem muito queria. Esta pequena estátua de belíssimas linhas fora um presente do meu avô aquando da comemoração das Bodas de Prata. O avô comprara-a num leilão em Paris. Era uma obra de Rodin. Fiquei muito feliz ao recebê-la e desde então tem sido o meu maior tesouro.

Quase nada disseste. Mas bastou para que ficasse fascinado. Tinhas um jeito doce e tímido, mas os teus olhos diziam muito mais. Até hoje não sei explicar o que se passou. A tua voz era calma e pausada como se medisses cada palavra antes de a pronunciares. Este breve interlúdio não durou mais do que uns escassos minutos, mas bastou para que ficasse irremediavelmente ferido. Mudaste a minha vida num momento. Um momento apenas foi o que bastou para que deixasse de ser feliz.

Toda a vida admirei o Mestre. Sempre gostei quer dos seus esboços, quer das suas estátuas. Da história da sua vida. Do seu amor por Camille Claudel. Muitas vezes imaginei que a nossa história se assemelhava à história do Mestre com Camille Claudel. Imaginei que tal como Camille sucumbiria à loucura por não suportar viver sem ti.

Esta pequena escultura foi testemunho da última vez que te vi. Tinhas vindo despedir-te do Pai. Antes de saíres, passaste-me a mão pelo rosto, num gesto leve, tão leve, e murmuraste: “não cresças”. Foi a única vez que me tocaste.

Às vezes acho que fui injusto. Esqueci-me daqueles a quem devia amar. Tenho de reconhecer que negligenciei muitas vezes a minha família. Não podia abandonar os meus filhos. Por eles esqueci-me de mim. Mas nunca de ti. Chorei muito pela vida morna a que estava condenado. Gostava da Luísa. Muito. Mas não suportava estar preso a alguém que não amava. Foi, acima de tudo uma boa amiga, uma boa companheira. Nada mais. Por um sonho vão entreguei-me a uma existência morna.

De nada valeu estar preso a esses sentimentos. Perdi uma oportunidade de ser feliz e no entanto não queria ter mudado nem um segundo dos breves instantes que passámos juntos. Foste a luz que me acompanhou toda a vida e és o calor que aquece a minha velhice. Agora sinto que é tarde. O tempo passou sem que nada fizesse. Há muito que devia ter-te esquecido, mas a tua imagem está presa em mim. Quando estou só é sempre em ti que penso.

O tempo passou. Primeiro devagar, numa dor aguda e lenta. Depois mais depressa embalado pelo correr dos anos. A minha vida escorregou por entre os meus dedos. Fiquei presa a ti, mas a vida continuou. Fui ficando cada vez mais só. Quando os meus pais morreram vendi a Casa Grande e refugiei-me neste pequeno apartamento.

Estes móveis guardam com eles o meu único segredo. Apenas a eles conto a nossa história. A minha história. Um sonho triste de uma menina que teve um amor impossível. Um amor não correspondido.

Recordo sempre aqueles dias em visitava o teu Pai com o pretexto de te ver. Às vezes não eras mais que um vulto que cruzava o corredor. Raras vezes voltei a falar contigo depois do baile da Primavera. Ansiava pelos momentos que passava debaixo do mesmo tecto onde tu vivias. Onde podia tocar os objectos que também eram teus.  Folheava avidamente os livros que o teu pai comentava serem os teus preferidos. Enlouqueci.

Dizem os poetas que o amor é um estado febril, próximo da loucura. Comigo foi assim. Padeci de uma febre invisível, impossível que só cessou quando fui para o Norte. Nunca senti de ti nada que me fizesse acreditar que era correspondido, que valia a pena ficar. Nunca te deixei entender o quanto te amava. Não podia ficar preso ali.

Lá fora a vida continua. Vejo vidas apressadas que se cruzam sem se olharem. Não sabem que estou aqui. A grande maldição dos mais velhos é esta. Vivemos esquecidos. A chuva cai, miudinha e insistente. As nuvens cinzentas emprestam aos prédios tonalidades plúmbeas, tristes. Conheço de cor as paredes e os objectos que me rodeiam. São companheiros de uma vida que já passou e que o tempo lentamente vai apagando. Já nada mais me resta senão recordar. O grande relógio marca os segundos a um ritmo compassado, que me adormece e embala. E então a minha mente vagueia, para outro tempo. Para ti.

Lembro-me de uma pequena escultura de Rodin. O tempo que há muito tornou as formas do teu rosto difusas, deixou intacta a imagem desse pequeno reduto de um génio sem igual. Lembro-me das suas formas puras e delicadas. Havia sido comprada num qualquer leilão há muito tempo atrás. Era tua. Quando nos despedimos senti o olhar casto e vazio dessa Psique pousado em mim. Era como se reconhecesse em mim a sina do seu Mestre. A tristeza de quem se afasta.

É tudo o que recordo desse momento. O único em que te toquei. Em que senti a calidez da tua pele no segundo eterno de um ligeiro afago. Não me lembro dos teus olhos nesse dia, mas recordo com clareza o olhar estático de uma escultura que pela segunda vez contempla alguém que sofre por amor. Uma Psique condenada a viver sem Eros. Um pedaço de pedra frio.



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