Short-Stories @ RDB #8

Sarcoma.

Fernando Fatal – sala 7 ….  Fernando Fatal – sala 7

A voz da enfermeira soava forte nos altifalantes da sala de espera do hospital. O Sr. Fatal dirigiu-se rapidamente para a sala, confiante de que seria apenas uma consulta rápida. Entrou. Deu os bons-dias. Sentou-se. Algo no semblante carregado do Dr. Lemos deixou-o intrigado.

O médico levantou-se e, depois de uma longa pausa, avançou:

– Sr. Fatal, o seu exame deixou-me preocupado.
– Mas era apenas uma dor nas costas… já passou! Eu pensava até nem vir a esta consulta.
– Receio que seja algo mais que isso. O senhor tem um sarcoma no pâncreas a evoluir consideravelmente para os intestinos.
– Mas como? Eu não fumo, não bebo, tenho uma alimentação saudável!
– Tudo isso é bom, mas não implica que esta situação não possa acontecer. É algo na sua genética que facilitou o aparecimento deste tumor.
– Mas é um tumor? Pensei… que era um sarcoma. Bem… nem sei o que isso é.
– Na verdade, um sarcoma é um tumor, mas a sua evolução é muito mais rápida. Quase não dá espaço de manobra clínica. É claro que vamos iniciar já os tratamentos de quimioterapia.

– Isso quer dizer… que eu vou morrer?
– Não diga isso homem! Já está a desistir? Vai ter tratamento três dias por semana.
– Mas… e se não houver resultados?! Quanto tempo tenho?
– Bem, eu tento ser o mais sincero possível com os meus pacientes. Se o tratamento não resultar, a evolução da doença, nestes casos, é normalmente de seis meses.
Depois de um mês de tratamento, tornou-se óbvio que os resultados não surgiam. Fernando Fatal tinha 45 anos, sabia que não valia a pena tentar enganar o seu destino. Sendo assim, embarcou numa viagem para descobrir um mundo que se preparava para deixar. “Transição” – foi isso que ele lhe chamou.

*

Às nove da noite de Sábado, Fernando Fatal seguia com passo apressado para Campo de Ourique. Olhando o seu rosto, era como se os seus 34 anos de repente parecessem 50. Era um milagre a sua cura, mas punha em perigo a vida de outra pessoa.
Tudo começou naquela manhã no hospital. O seu médico recebeu-o com um ar de espanto que desde logo o alarmou. Afinal, espanto seria uma palavra muito leve para descrever esta situação. O Dr. Castro, sem falar, mostrou-lhe o exame ao seu sarcoma e Fernando, que já conhecia bem a linguagem clínica, não queria acreditar. O seu pâncreas estava completamente limpo. Era como se nunca tivesse estado doente.
Eram quase dez horas. O número 21 da Domingos Sequeira estava mal iluminado. Fernando tinha receio, mas também uma necessidade enorme de desmascarar toda esta charada. Com a estúpida troca de exames no hospital, ele estava curado só porque um papel lhe dizia que nada tinha. Mas pela mesma razão, um homem saudável poderia morrer a qualquer momento. Quando tocou à campainha, retraiu-se e andou uns passos para trás. Arrependeu-se… algo estava mal.
A mulher que lhe abriu a porta fixou-o de dentro de uns olhos marejados de lágrimas. As roupas pretas também só poderiam significar uma coisa.
– Que deseja?… Que se passa? Quem é o senhor?
– Nada, já é tarde… tarde demais! Desculpe tê-la incomodado.

*

Fernando Fatal – sala 7 ….  Fernando Fatal – sala 7

A voz da enfermeira soava forte nos altifalantes da sala de espera do hospital.
O Sr. Fatal acordou estremunhado e ficou a pensar no estranho sonho que tivera. Voltando à realidade, dirigiu-se rapidamente para a sala 7, confiante de que seria apenas uma consulta rápida. Entrou. Deu os bons-dias. Sentou-se. Algo no semblante carregado do Dr. Lemos deixou-o intrigado.

O médico levantou-se e depois de uma longa pausa, avançou:

– Sr. Fatal, o seu exame deixou-me preocupado.
– Mas era apenas uma dor nas costas… já passou! Eu pensava até nem vir a esta consulta.
– Receio que seja algo mais que isso. O senhor tem um sarcoma no pâncreas a evoluir consideravelmente para os intestinos.
– Um sarcoma? Não pode ser!
– Receio bem que seja. Os resultados não deixam margem para dúvidas e, pelo aspecto do tumor, já deve ter surgido há pelo menos dois meses.
– Dois meses? Espere! Deve haver algum engano!
– Sr. Fatal, estou-lhe a dizer que não pode haver erro nenhum.
– Dr. Lemos, há pouco, na sala de espera eu adormeci e sonhei com tudo isto.
– Sonhou?
– Sim. Um homem com um nome igual ao meu, doente, recebia o meu exame, e eu ficava com o dele. Um dia ele descobria a troca e tentava encontrar-me para me avisar. Mas já era tarde de mais, eu já tinha falecido.
– Não acha isso demasiado improvável?
– Estou-lhe a dizer doutor, eu sonhei com isto. Tem de haver uma troca.
– Bem, senhor Fatal! Vou ser sincero consigo. Não sei como descobriu isso, mas de facto houve uma troca de exames. Havia aqui outro paciente com o seu nome, que recebeu o seu exame, mas rapidamente percebemos o erro e rectificámos a situação.
– Não é verdade! Os exames estão trocados na mesma! Tem de ir buscar o outro exame urgentemente.
– Sr. Fatal, tenha calma! Os exames não estão trocados. O senhor tem de facto um sarcoma no pâncreas.
– E o outro paciente? Nada, não é?
– Não. O outro paciente faleceu há duas horas… com um sarcoma nos pulmões.



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