Os Pontos Negros

Silas Ferreira

O Clearasil está morto, vivam Os Pontos Negros!

Em 2008, depois de uns EP’s a roçar o punk e gravados entre idas à igreja e almoçaradas em casas de amigos e cúmplices de ideais musicais, Os Pontos Negros editaram “Magnífico Material Inútil”, disco pop/rock carregado de ironia, boa disposição e sentido de humor que antevia um futuro em grande para uma banda que desafiava de peito aberto os avanços concertados de um bando de tubos de Clearasil.

Depois deste imenso festim gastronómico, que ia de entradas com nomes pomposos a sobremesas de dois andares, os rapazes serviram-nos um “Pequeno-almoço continental” e, para lá da desilusão, pairou no ar a ideia de que poderiam não ter passado de um fenómeno passageiro, transformando o rock agridoce em algo descaradamente a piscar o olho ao top de vendas.

O ano de 2012 veio agitar as águas e devolver a esperança às hostes do “rock enrole”. Os Pontos Negros viajaram para terras de sua majestade, entraram de rompante nos estúdios da Abbey Road e saíram de lá com “Soba Lobi” debaixo do braço, disco que tem tudo aquilo que queríamos numa rodela de Os Pontos Negros: visões apocalípticas, letras entre a ironia e a boa disposição, um rock que mistura a agressividade com uma melodia que nos leva a melhor como num cântico xamânico.

“Soba Lobi” abre sem rodeios e toca numa ferida antiga, como que a querer estabelecer desde logo o ponto de partida: “Eu não me chamo Casablancas | Eu não me chamo Jack White | Na hora de te ajeitar as cobertas | Digo-te ´boa noite` não ´good night`.” Significa isto que Os Pontos Negros se fartaram das comparações ou que ainda se divertem com as ligações aos The Strokes – se bem que, nesta altura do campeonato, ser comparado aos The Strokes não seja propriamente um grande elogio? Silas Ferreira, com quem estivemos numa de conversa skypiana, fez-nos o desenho: “Agora é que sabemos brincar com isso. No início, sei lá, há 3 ou 4 anos, se calhar fazia-nos um bocado mais de confusão. Esta música é uma resposta, com um certo ressentimento, sendo nós próprios a brincar e a jogar com isso a nosso favor – as comparações que nos fizeram, as associações com os Strokes e os White Stripes -, sublimando a coisa e fazendo como que uma declaração de independência.”

Para quem tem acompanhado o percurso de Os Pontos Negros, desde o seu início nas fileiras da FlorCaveira até à edição de “Soba Lobi”, sente-se uma veia onde pulsa a religiosidade, sobretudo no aspecto lírico. No novo longa duração encontramos tempestades, leões, chamas, mortes e cegueira. «Tudo Floresce», o primeiro tema conhecido, soa como um salmo para os tempos modernos e a confirmação de que a religiosidade é algo de fundamental para a banda. “Nunca quisemos ser uma banda de conteúdo religioso no sentido a que estávamos habituados – as bandas evangélicas que fazem canções de adoração, etc. Até era um ponto de honra na FlorCaveira, que o que fazíamos não fosse música religiosa mas que a religião estivesse presente, sobretudo fruto da educação, do conhecimento da bíblia e do nosso crescimento espiritual nesse sentido. Isso reflecte-se também na música, por vezes de forma indirecta, em todas aquelas referências que nós temos – a maior será todo o livro do Apocalipse. Há imensas coisas que aparecem, figuras apocalípticas, a questão da morte, da redenção, da ressurreição, essas coisas estão sempre lá, de vez em quando vêm ao de cima de forma mais declarada. Apesar de as pessoas se afastarem cada vez mais da igreja e da ideia de professar uma religião, aos poucos vai-se sentido esse buraco na sociedade, de repente muito daquilo em que as pessoas baseavam a sua vida diária desapareceu. A religião tem-nos ajudado a descobrir-nos a nós próprios, ao mundo, coisas que estão muito para lá de nós e que nos ultrapassam, e aprendemos a viver melhor com as nossas próprias falhas.”

Ao terceiro longa duração, Os Pontos Negros mostram-se desencantados com o mundo e este nosso País. Em «Eu + Eu = Ninguém» ouve-se “pequeno português | sonhava ser inglês”; em «Prolongamos o Sonho» lamentam-se “As ruas em chamas | Um país perdido”. Será este um desencanto total, parcial, temporário? “É um desencanto temporário, também relacionado com a conjuntura. Já viajei um bocadinho e digo-te , não conheço cidade onde gostasse mais de passar a minha vida toda do que Lisboa. Portugal é um País fantástico, o grande problema muitas vezes somos nós próprios, portugueses, que não sabemos gerir este País. Não apenas em termos políticos e financeiros mas sobretudo em termos humanos. Passámos décadas a tentar ser uma coisa que não somos, a ser iguais aos outros, a tornarmo-nos europeus, e nós somos portugueses, somos aquilo que somos. Aproveitámos mal o dinheiro que nos foi dado, reorganizámos mal o nosso País, negligenciámos uma data de coisas básicas que têm a ver com o território e com os sectores primários, e isso é uma coisa circunstancial. O País está cá, as pessoas estão cá, a vontade de mudar está cá. Nem que seja daqui a um ou dois séculos as coisas vão mudar, se não for já daqui a dois ou três anos. Mais tarde ou mais cedo as coisas vão acabar por mudar.”

«Gabriela» é um dos temas mais negros e incendiários do disco onde, numa primeira leitura, parecemos ouvir contar a triste história de uma emigrante ou de alguém que regressou de África depois da descolonização. Puro engano. “Não tínhamos nenhuma canção sobre Queluz, e há muitas canções que aparecem no momento e no local certo, e que se revelam uma surpresa quando chegamos ao ensaio. O J. (Jónatas Pires) e o Filipe compõem as canções, trazem-nas para o ensaio e trabalhamos em conjunto, não sabemos à partida aquilo que eles vão fazer. E a «Gabriela», a partir do primeiro momento em que a ouvi, achei que tinha tudo a ver com aquela canção do Jim Carroll – «Friends who die» ou «People who die» -, e que ilustrava Queluz de uma forma muito próxima daquilo que ela é. É a história de muita gente que viveu e morreu nos últimos trinta anos, e fazia-nos falta falar disso agora que estamos com um pé fora de Queluz.”

Depois de dois discos editados pela Universal, “Soba Lobi” chega via Optimus Discos, oferecido através de download gratuito ou numa edição física vendida a um preço quase simbólico. “Estamos satisfeitos porque nos permitiu ter uma plataforma muito boa de distribuição de conteúdos gratuitos – que era algo que queríamos fazer – e, ao mesmo tempo, ter também uma edição física, que não sendo uma edição de luxo é uma boa edição que pode ser comprada a um preço acessível. Quem quiser ter o objecto físico facilmente pode adquiri-lo.”

De qualquer forma, parece que não foram guardados ressentimentos em relação à antiga editora. Portanto, algo não aparentado à novela António Salvador/Leonardo Jardim. “A nossa saída da Universal foi mais pacífica do que às vezes as pessoas possam imaginar. A indústria musical faz as coisas de uma determinada maneira, está preparada para trabalhar os artistas de determinada forma. E desde o início que não encaixávamos no standard, tanto podíamos vir a ser uma coisa muito grande, logo no imediato, como as coisas podiam não correr nesse sentido. Apesar de não termos uma estrutura profissional éramos um grupo muito unido, e tínhamos ideias muito rígidas acerca do que queríamos fazer. Isso acabou por não resultar comercialmente.

O passo em falso terá sido dado com “Pequeno-almoço Continental”, disco que afastou alguns dos fãs do primeiro longa duração e que ficou a milhas de captar gente nova para a causa.“O “Magnífico Material Inútil” beneficiou imenso do factor surpresa. Curiosamente, até acho que o “Pequeno-almoço Continental” é um disco mais comercial do que todos os outros, e esse passo, que nem sequer foi uma coisa muito pensada, não resultou para nós e não resultou de todo para a editora. Chegámos por isso à conclusão de que era melhor seguirmos caminhos separados. Tínhamos de encontrar outra forma de fazer as coisas, e de aceitar que o nosso destino não era sermos os próximos Xutos ou outra coisa parecida.”

Abandonar a casa confortável de uma editora e partir para uma vida de aventura tem os seus riscos, e implica muito mais trabalho para não se acabar num regime sem-abrigo. “Nunca fizemos tanto para promover um disco e recolher resultados como agora, e inferiores aos que recebemos antes. As coisas agora estão mais difíceis, independentemente de ser uma edição física ou ter distribuição digital. Estamos a fazer muito mais para recebermos muito menos feedback. Mas estamos satisfeitos e temos plena consciência que estamos a fazer o melhor que sabemos.”

O som deste “Soba Lobi” é, de todos os discos de Os Pontos Negros – se exceptuarmos os primeiros singles e EP’s –, o mais sujo e atrevido, ao mesmo tempo que apresenta alguns toques da pop feita em terras de sua majestade – «Bom Homem» faz-nos sonhar com os Blur.

“É um disco um bocado mais ameaçador num certo sentido. Tivemos uns três anos em que tudo nos correu bem e onde chegámos ao topo da montanha. E, de repente, começámos a ser – lá está – um bocado como os Strokes, que passaram de moda e deixaram de ser a banda da geração do momento. Nós também perdemos o lugar especial que tínhamos, ou que a imprensa nos tinha atribuído. Sentimos e tivemos de aprender a lidar com isso, e o último ano, ano e meio, foi importante nesse sentido. Quando gravámos este disco muitas das coisas difíceis com que tivemos de lidar foram exorcizadas. É talvez um disco desencantado com o percurso na música, com o País, feito com uma atitude um bocado desafiadora, tanto para nós próprios como para a comunidade musical e editorial.”

Os Pontos Negros gravaram o terceiro disco nos estúdios Abbey Road, que são assim uma espécie de Maracanã ou Nou Camp em estado musical. O trabalho de casa ia bem feito, já que tudo teria de ser feito em apenas três dias. De qualquer forma, e mesmo em apenas 72 horas, a mística do estúdio não deixou de influenciar de certa forma o som de “Soba Lobi”. “Tínhamos a lição muito bem estudada e três dias para fazer aquilo. Essa circunstância foi uma influência muito grande, porque fizemos o disco como uma verdadeira sessão: entrámos no estúdio, organizámos o espaço, fizemos testes e começámos a gravar. Foi um processo contínuo, onde não estivemos a explorar música a música, mas em que encontrámos um som que é mais ou menos homogéneo e que resultou da sala, da maneira como tocámos, da forma como gravámos. Estarmos em Abbey Road influenciou-nos na medida em que nos deram todas as condições possíveis e imaginárias para nos sentirmos à vontade, como que em casa, e fazermos o melhor disco possível em tão pouco tempo. E esse conforto, no sentido em que tudo nos estimulava e direccionava para o trabalho que tínhamos a fazer, influenciou-nos porque tornou as coisas muito fluídas e naturais. Gravávamos, ouvíamos a seguir e tudo já nos soava muito perto do resultado final. Usámos os equipamentos de lá, coisas muito antigas, com pouco recurso a tecnologias digitais, o que ajudou a conseguir esse som um bocado mais sujo, mais rude, de certa forma mais vintage.”

Ao longo de “Soba Lobi” há frases que soam como lemas inspiradores que poderiam ser pintados em azulejos ou estampados em t-shirts. Coisas como “Quem nunca esteve encarcerado | Apodrece dia a dia na prisão”, cantado algures em «Três Pregos no Caixão». “A minha perspectiva é também a do ouvinte, a de descortinar o que está por trás. Acho que é uma canção muito espiritual, independentemente de haver uma base cristã para ela. Fala de coisas que são muito profundas na nossa vida pessoal.”

Depois de ouvirmos “Soba Lobi” de uma ponta à outra, tirando raios-x de vários ângulos e fazendo análises para apurar todos os níveis de fluidos e líquidos, apetece perguntar uma coisa. Pode este disco pode ser visto como o fim da adolescência para Os Pontos Negros?

“Não, nem podes ser músico rock se não fores um eterno adolescente. A partir desse momento a tua música torna-se aborrecida.”

O panorama de concertos não é por agora muito animador, mas a estratégia de Os Pontos Negros, assim como um passado e uma atitude embebida em espírito rocker, parece tê-los preparado para os tempos difíceis que os músicos encontram hoje em dia. “Primeiro convencemos as pessoas com o disco e depois montamos um giro pelo País. Estamos a fazer as coisas com mais calma. Temos a vantagem de ter passado alguns anos a ir para todo o lado com os nossos carros, atolados com os nossos instrumentos, dando concertos quase a troco de nada. Se calhar há que reenquadrar as coisas e voltar a fazer isso para poder tocar em mais sítios. É um bocado entre isso e fazer quatro ou cinco datas num ano, o que não é muito bom e faz com que o destino mais provável seja o esquecimento.”

Levantem-se os seguidores do “rock enrole”. Os Pontos Negros voltaram a deixar crescer a barba, exorcizaram os seus fantasmas e ofereceram-nos um disco que merece ser celebrado.



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