silente_Nuno Mendes

Silente | Entrevista

"Ficarei com certeza satisfeito se me disserem que se ouve este disco em silêncio, porque tem subjacente um compromisso de envolvimento com esta música. Enquanto autor, nada mais me poderá agradar."

“Silente” marca o regresso de Miguel Dias às edições, pós Rose Blanket. O projecto homónimo, conta também com Frederico Pedreira nas letras e Filipa Caetano na voz. Dois nomes que já haviam acompanhado Miguel Dias em aventuras anteriores. A Rua de Baixo aproveitou a ocasião para entrevistar Miguel Dias, que nos falou um pouco sobre esta nova fase e sobre o que aí vem.

[Rua de Baixo] O último álbum de Rose Blanket, “Nothing Ahead Nothing Behind”, data de 2011. Já os primeiros passos do projecto Silente acontecem em 2015. O que aconteceu durante este período?

[Miguel Dias] Quando estava na fase final do último disco de Rose Blanket, se calhar até por ter sido um disco duplo, fiquei logo com a noção que o projecto estava esgotado. Aliás o nome desse disco já o anunciava. E tive a necessidade de desligar desta parte da minha vida e a realidade é que entre 2012 e 2015, por exemplo, pouco peguei na guitarra. Mas este afastamento acabou por ser fundamental para aos poucos voltar a sentir vontade de criar e desenvolver um novo projecto.

[RDB] Silente é um adjectivo que nos remete para um sentimento de silêncio, de introspecção e para a poesia. Como nasceu o nome deste projeto?

[MD] Foi uma palavra que me foi dada a conhecer há muitos anos por um amigo meu, o Sérgio Pereira, que tocava bateria na formação inicial e no 1º disco de Rose Blanket de 2004. Logo de imediato gostei bastante da palavra, pelo significado, sonoridade e até pelo facto de ser pouco utilizada. E a verdade é que quando me ocorreu esta palavra para dar nome a este novo projecto, foi uma escolha imediata. Acho que encaixa na perfeição na forma como este disco foi feito, tentando abstrair-me ao máximo de “ruído” exterior e podendo assim a criatividade fluir livremente.

[RDB] Falem-nos um pouco sobre a colaboração com o Frederico Pedreira. Como surgiu? De que forma é que molda aquilo que são as composições e as narrativas que dão corpo a “Silente”?

[MD] O Frederico Pedreira é um amigo de longa data, tocava piano e teclados na formação inicial de Rose Blanket. A determinada altura ele saiu de Rose Blanket e dedicou-se em finalizar a sua formação em Letras e posteriormente dedicar-se a uma carreira literária. Nessa fase até estivemos bastante afastados, até eu ter tido a oportunidade de ler um livro dele (“Um Bárbaro em Casa”), editado em 2014, que adorei. A partir dessa altura voltámos a ter um contacto assíduo. Por outro lado, à medida que a construção dos temas foi avançando, cheguei à conclusão que alguns tinham mesmo de ser cantados, tendo decidido que seria em português. Pelo que acabou por surgir com naturalidade a possibilidade do Frederico me ajudar nas letras. O processo foi um pouco ao contrário do que se calhar é usual. Tinha os temas feitos e os espaços para voz definidos e foi uma questão de se escolher textos do Frederico e encaixá-los, o que foi sem dúvida a parte difícil neste trabalho, também porque nunca tinha trabalhado com a língua portuguesa e estava rotinado no inglês. Tivemos que fazer muitas demos em alguns desses temas até encontrar a solução final.

Por outro lado, houve uma preocupação com as letras não serem muito concretas, não serem propriamente histórias, centrando-se antes em emoções, sensações, momentos e experiência vividas ou observadas, de forma abstracta, um pouco como a componente instrumental.

[RDB] Quatro anos para criar um disco é muito tempo para alguns. Outros dirão que é o tempo necessário, certamente. Podem descrever um pouco daquilo que foi o processo de composição. Diria que a experimentação acabou sempre por desempenho um papel central, não?

[MD] Sim, a experimentação, mas também a procura de uma sonoridade única e irrepetível, marcam este disco.

Foi de facto bastante tempo, e apesar de ter sido feito sem pressa, em algumas fases foi um pouco esgotante, porque não foi um processo nada linear, de muitos avanços e recuos.

Numa fase inicial gravei uma quantidade enorme de possíveis temas ou de simples ideias, sendo que em grande parte foram abandonados e só em 2017 o leque de possíveis temas começou a ganhar forma, depois de gravadas as baterias, de parte dos baixos e ainda da maior parte dos arranjos de teclados e sonoridades abstractas que se ouvem ao longo do disco. A partir daí foi possível avançar para a fase final, a das letras e vozes e o resto do tempo foi dedicado à mistura, o que foi algo exaustivo, por limitações de conhecimentos técnicos, pois nunca o tinha feito e acabou por ter que ser feito, lá está, com base na experimentação.

[RDB] Vivemos num contexto ímpar actualmente. De que forma é que isso impactou a criação de “Silente”?

[MD] Na realidade não afectou em nada, porque o disco foi concluído no final de 2019 e foi masterizado em fevereiro deste ano, ou seja, exactamente no momento em que tudo isto surgiu.

[RDB] O Frederico Pedreira descreve “Silente” como uma história. Cada canção acrescenta algo e convida-nos a partir à sua descoberta, a senti-la, sempre com a voz da Filipa Caetano a envolver-nos. E que bem que esta soa em português. É um disco para escutar em silêncio. Acham que também poderá ser melhor apreciado se o fizermos sós, sem ninguém por perto?

[MD] Não me sinto à vontade para dizer como as pessoas eventualmente poderão melhor apreciar estas músicas. Posso dizer que um contexto de solidão e silêncio é para mim o ideal para ouvir a música que gosto, em especial aquela que tem a capacidade de fazer sentir qualquer coisa e que do ponto de vista musical tem uma maior componente de detalhes.

E ficarei com certeza satisfeito se me disserem que se ouve este disco em silêncio, porque tem subjacente um compromisso de envolvimento com esta música. Enquanto autor, nada mais me poderá agradar.

[RDB] Não há duas canções iguais em “Silente” mas há um fio condutor. O experimentalismo é palpável em cada canção, seja na forma como estas são construídas, seja pelos instrumentos que são utilizados e como se ligam. Neste ponto salta ao ouvido, por exemplo, a tabla que se faz ouvir em «Ninguém Tem De Saber». O que levou a incorporar um instrumento como este nesta canção?

[MD] A utilização da tabla resulta da total abertura a todo o tipo de experimentação. No caso do tema “Ninguém Tem De Saber” tinha uma ideia base para uma percussão tocada com as mãos, e como o Miguel Ângelo tinha uma tabla, experimentámos e julgo que resultou muito bem. Ainda experimentámos a tabla num outro tema, que acabou por não ficar no disco.

Essa gravação, tal como a grande parte das baterias e percussões, foi feita em Figueiró dos Vinhos na casa do Miguel Ângelo e também experimentámos outras coisas, como máquinas de uma oficina de joalharia que se ouvem no tema “Vale Caspo”.

[RDB] “Silente” tem um formato e uma estratégia de edição e distribuição diferentes, que visam realmente aqueles que querem ter o objecto físico nas mãos. Podem levantar um pouco o véu sobre isso, bem como a data?

[MD] A opção foi por uma edição física muito limitada, maioritariamente para promoção, o que se deveu sobretudo à percepção de que actualmente se vendem poucos CD´s, sendo as plataformas digitais o veículo mais utilizado pela maior parte das pessoas para ouvir novas propostas musicais, o que até não é o meu caso, pois sempre que gosto de um disco, sinto necessidade de ter o objecto. Por outro lado, o facto de não haver concertos de apresentação também inviabiliza a venda de discos nesse contexto. Pelo que foi dada primazia à distribuição digital, estando o disco disponível em todas as plataformas habituais e ainda no site de Silente no bandcamp.

No entanto, é intenção que o disco venha a estar disponível em espaços de menor dimensão e mais especializados, sendo que admito que tenho negligenciado esta possibilidade, também por condicionantes de tempo disponível, mas é algo que ainda vou tentar concretizar. Ao mesmo tempo também se pondera a possibilidade de disponibilizarmos alguns exemplares, em jeito de oferta, a quem de facto mostre um real interesse em ter o objecto, o que neste caso possivelmente será feito através das redes sociais ou através de media, sites, páginas, etc, que mostrem interesse numa parceria nesse sentido.

[RDB] Tomaram a decisão de não apresentar “Silente” ao vivo. Uma decisão que segundo dizem, não está relacionada com o contexto actual. Qual a razão por detrás dessa decisão?

[MD] Por altura do último disco de Rose Blanket decidi que muito provavelmente não voltaria a fazer concertos ao vivo, o que se deve a ter deixado de ter motivação para o fazer. A partir dessa altura decidi assumir que aquilo que realmente me satisfaz é o gosto pela construção e experimentação. Os concertos nunca foram um espaço de conforto para mim, o que se deve a alguma aversão pela repetição, mas também a não me sentir particularmente bem em espaços com muita gente. Claro que sinto falta do convívio com os músicos com quem costumo trabalhar e que os concertos proporcionavam. E também tenho noção do forte obstáculo que esta decisão tem na promoção deste projecto. É uma decisão que posso enquadrar naquilo que costumo chamar de “gestão de tempo de satisfação”. Já tenho, como todas pessoas, muito tempo ocupado com coisas que não tenho particular prazer. Se neste caso só depende de mim não o fazer, sinto que só existe uma solução coerente.

[RDB] “Silente” será composto por duas partes. Já há uma ideia concreta da direcção a seguir ou, um pouco à imagem, daquilo que foi a maturação lenta desta primeira parte, vai ser um processo de experimentação e de descoberta?

[MD] Sim, este projecto está pensado para ter 2 partes. Depois de concluído este trabalho, em março deste ano, comecei a trabalhar em novas ideias e já tenho um conjunto de possíveis temas para integrarem a 2ª parte, mas ainda não comecei a gravar. Nesta altura não espero serem precisos os 5 anos que foram necessários para fazer a 1ª parte, mas mais uma vez não será nada apressado e será feito com naturalidade. Julgo que a 2ª parte seguirá uma linha de continuidade, mas sim, haverá sempre espaço para a descoberta, com recurso a muita experimentação.



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