08. Silver Apples

SILVER APPLES @ MUSICBOX (19.05.2017)

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As oportunidades de presenciar as pedras basilares que fundaram a música que conhecemos hoje são poucas, e  infelizmente cada vezes menores. Os verdadeiros pioneiros do som e de todas as suas dimensões estão a desaparecer. Os próprios Silves Apples já tiveram a sua baixa em 2005, quando baterista Danny Taylor nos abandonou. E por pouco Simeon Coxe III (a outra metade dos Silver Apples) não foi pelo mesmo caminho, quando nos anos 90 sofreu um acidente de carro que o deixou ligado às máquinas. Mas na verdade, as máquinas foram o que sempre lhe deu vida.

1967. Nova Iorque assistia à criação de um verdadeiro Frankenstein instrumental – The Simeon, nome dado em homenagem ao seu criador, era uma bricolagem DIY do mais variado material cacofónico – osciladores sinusoidais , filtros de frequências, telégrafos, peças de rádios, pedais e interruptores, toda a tralha encontrada composta por resistências, condensadores e bobinas. Foi este um dos pontos de partida da música eletrónica e que continua a moldar, após 50 anos, o panorama musical.

2017. As máquinas são diferentes. No palco, no centro do Musicbox, encontra-se disposto o equipamento de Simeon, uma adaptação atual que simula o que foram os ’60 para os Silver Apples. É uma ajuda para quem carrega sozinho o legado, e que felizmente (ou infelizmente) evita situações desconfortáveis como explosões, incêndios ou a adaptação vocal de canções influenciadas harmonicamente por campos eletromagnéticos.

Em palco um pouco depois da hora marcada, Simeon e o seu chapéu de cowboy tomam rédeas da parafernália eletrónica. E surpreendentemente, é aberta uma das primeiras pistas de dança no Cais do Sodré. O role de canções que são apresentadas hoje mantém a dissonância melódica tão característica do som dos Silver Apples, e continuam instrumentalizadas pelos robustos osciladores. A surpresa está na espinha dorsal destas canções ao vivo – um ritmo dançável de fazer inveja às discotecas à volta, hipnotizante e extremamente bem recebido pela plateia. O ponto alto da noite fez-se com «Oscilations», primeira faixa do album homónimo, onde Simeon mostra o seu génio e intercala o beat techno marcado com momentos de verdadeira criação de sons cósmicos nunca antes ouvidos.

No final, a sensação geral foi de que durou pouco. Estavamos preparados para absorver mais desta lenda, que aos 78 anos ainda tem muito para mostrar, incluindo um album lançado em 2016 – Clinging to a Dream, e que mais que um concerto, deu corpo à celebração do que deve ser a vida.  A noite prosseguiu com os portugueses Gala Drop e Ghost Hunt.

Alinhamento

– Water
– Misty Mountain
– Lovefingers
– Velvet Came
– A Pox on You
– Missin You
– Nothing Matters
– I Don’t Care What the People Say
– Oscilations
– You and I

Texto por António Fitas e fotografia por Letizia Lucignano.



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