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Simon Reynolds

Lost in Music.

A análise e crítica musical são tarefas complexas, polémicas e, muitas vezes, a origem de muita raiva contida e rancor por parte dos seus alvos porque isenção e frieza são conceitos maleáveis e utilizá-los de forma correcta nem sempre é comum. Pelas mais diversas razões, paixão, vingança, amor ou ódio, a imparcialidade perde o prefixo além do racional e a capacidade de retirar a verdade fica a cargo da História.

A revolução digital aumentou a capacidade de cada um de nós ganhar um espaço livre de opinião, trazendo à superfície o crítico libertário sem barreiras, que pelo conjunto de informação que debita continuamente na web contribui para a construção de uma biblioteca universal sem grandes referências. Pesquisar num turbilhão de fontes oficiais e não oficiais é uma tarefa ardilosa, mas precavidos de algumas âncoras a navegação no mar será sempre mais segura.

Simon Reynolds é uma âncora. Aliás, é uma enorme bóia de sinalização quando se fala de cultura musical das últimas três décadas. Este crítico musical britânico, nascido em Londres no ano de 1963, é reconhecido pela sua dedicação à fenomenologia e mitologia do rock, pós-punk, hip-hop e música electrónica. Escritor incansável e minucioso, colaborou com diversas publicações, começando pelo Melody Maker e passando pelo The New York Times, Village Voice, Spin, The Guardian (onde iniciará uma coluna mensal neste preciso mês de Fevereiro), Rolling Stone, The Wire, Mojo, Uncut, até ao seu Blissblog.

Herdeiro de uma cultura de crítica que hoje se dissolve pelo imediatismo da Internet, Simon Reynolds amadureceu no meio editorial forjando o conceito fatalista e profético da análise musical. Num tempo em que as opiniões tinham um espaço físico restrito, mas simultaneamente alargado para divagações e exposição, era natural que a competição pela descoberta do que era realmente fresco e inovador fosse acesa – e quem fizesse prevalecer a sua visão promulgava a lei.

Simon é um escritor cativante com algumas obras de referência – todas ainda sem tradução em língua portuguesa: “Blissed Out: The Raptures of Rock” (Serpent’s Tail, 1990); “The Sex Revolts: Gender, Rebellion and Rock ‘N’ Roll” (Serpent’s Tail, 1995); “Energy Flash: A Journey Through Rave Music and Dance Culture” (Picador 1998, reeditado e aumentado em 2008); “Rip It Up and Start Again: Post Punk 1978-1984” (Faber and Faber, 2005); “Bring The Noise: 20 Years of writing about Hip Rock and Hip-Hop” (Faber and Faber, 2007); “Totally Wired: Postpunk Interviews and Overviews” (Faber and Faber, 2009). Entre estas, três se destacam.

“Energy Flash”

Em quinhentas e poucas páginas, Simon reúne artigos que abarcam a explosão e evolução da música de dança, traçando o caminho desde as origens do Techno em Detroit, House em Chicago e Garage nova-iorquino, no final dos anos 80 e sua consequente expansão transcontinental para a Europa onde metamorfose do Acid-House foi indissociável da cultura do Ectasy. A partir daqui surgem os relatos na primeira pessoa de raves ilegais no interior campestre inglês, acompanhando-as desde a sua fase underground à sua banalização e proibição. Com minúcia e dedicação, descreve ainda toda a cena de Madchester, e os estilos citadinos de Hardkore, Jungle, Drum n’ Bass, Two Step, revivalismo electro e cultura DJ.

“Rip it Up and Start Again”

Talvez o livro que mais impacto tenha causado, abarca toda a história do pós-punk de 1978 a 1984 analisando a génese de muitas bandas que se tornaram referência no panorama musical mundial: PiL, Devo, Pere Ubu, Talking Heads, The Fall, Joy Division, Gang of Four. Subgéneros associados a cidades como o No Wave, Mutant Disco e Punk-Funk de Nova Iorque, o futurismo Electro de Sheffield, ou cena freak com os Cabaret Voltaire em São Francisco. Simon oferece-nos 125 entrevistas com os herdeiros da revolução Punk numa visão panorâmica que abrange um período fértil de sete anos, que agora são complementadas com mais 32 – com músicos e personalidades como David Byrne, Phil Oakey, Lydia Lunch, John Peel, Alan Vega ou James Chance em Totally Wired, editado este mês.

“Bring the Noise”

Aqui, Simon Reynolds explora a ponte entre o Rock e o Hip-Hop, ou os pontos de contacto entre as produções do primeiro estilo concebido por uma maioria branca e a cultura negra de rua. Num espaço temporal entre 1985 e 2008, que acaba por prolongar Rip It Up, em ensaios, criticas e entrevistas a artistas como Morrissey, Public Enemy, Beastie Boys, The Stone Roses, PJ Harvey, Radiohead ou The Streets. A procura de música que junta factores políticos, exprimentação musical e sucesso junto do público é um tema recorrente, junto com a análise de movimentos sociais e comportamentais na construção da mitologia profana do movimento Hip-Hop.

São mais que simples livros; cada um deles tem um prolongamento em blogues adaptados que servem como complemento de tal forma actualizado que é quase difícil acreditar que apenas um homem esteja na base da sua concepção. Com efeito, Simon Reynolds é um caso raro de coerência e sabedoria e quem pretende compreender grande parte das últimas décadas numa perspectiva sócio-musical não deve descurar a sua bibliografia.



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