“Síncopa” de Tânia Carvalho. Fotografia de Margarida Dias.

“Síncopa” de Tânia Carvalho

O peso da obra

Uma silhueta feminina surge na penumbra, hesita a entrada na luz, acentua o tempo fraco, ou a parte fraca do tempo com a presença e a ausência do gesto forte no tempo fraco. Esta é a forma com que Tânia Carvalho (re)surge num corpo carregado de feminilidade que nos transporta para um estado de hipnose e perda de noção de tempo. Os “olhos caídos” erguem-se e fitam de forma directa as frentes e os lados, com a certeza das direcções. A maturidade do gesto de mulher é solitário por vontade e não por imposição, é uma opção. A solidão passa a ser acompanhada, tem-se consciência de que faz parte do universo da coreógrafa.

As transições são fruto de um trabalho de pesquisa minucioso, que permitem a percepção de uma busca de uma nova qualidade de movimento, de uma beleza cuidada e carregada de um subtil erotismo feminino. A precisão da gestualidade, característica do trabalho de  Tânia Carvalho, está presente numa linha dramatúrgica fina, equilibrada, permitindo que o gesto deixe de ser abstracto, facilitando a leitura. As imagens que o corpo reproduz, sobre o quadrado de luz, deixam de ter o peso da mera forma, da imagem densa encerrada nela própria, que transita para uma outra e nos leva a outras e outras. Os pormenores, as ligações/transições que reproduzem o movimento dançado são fruto de uma maturidade artística indiscutível, fazendo com que esta obra seja uma referência no percurso da coreógrafa e na criação nacional, afirmando-a, confirmando-a e reafirmando-a como uma das mais importantes criadoras coetâneas e uma intérprete de excepção.

As costas arredondadas, que levam ao baixar do olhar, dão lugar a um colo assumido, à pele, aos braços longos de mãos desenhadas, a uns tornozelos desnudos, a uns pés que passam a ser aéreos sobre uns sapatos de tacão alto. O recorte do figurino preto, criação de Aleksandar Protic, faz surgir o claro da pele em contraste.

“Síncopa” “contém o lado vivo no morto”, partindo do texto inscrito na folha de sala e assinado por Valter Hugo Mãe, é uma obra de gestos e movimentos que nos conduzem à compreensão de que a solidão não é simplesmente uma condição triste, mas uma elevação que nos pode levar ao encontro do nosso lado interior.

 

A próxima apresentação será em Paris.

Fotografia de Margarida Dias.

 



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