Sir Scratch | Entrevista “Em Nosso Nome”

Sir Scratch | Entrevista

Hip-Hop de Primeira Liga

Na recta final de 2012, quando já se fechavam as portas para um sempre animado balanço, eis que nos chega aos ouvidos uma rodela de eleição, e logo com carimbo nacional. Sete anos após a edição de “Cinema: Entre o Coração e o Realismo”, primeiro em formato longa-duração, Sir Scratch volta à carga com “Em Nosso Nome”, onde foi beber à fonte do Hip-Hop para nos oferecer um disco entre o activismo político e o amor livre.

“Em Nosso Nome” conta com inúmeras participações, tais como Sam The Kid, Tim (Xutos & Pontapés), Luanda Cozetti (Couple Coffee), New Max (Expensive Soul), Kalaf (Buraka Som Sistema), Noiserv ou Selma Uamusse (Wraygunn). O resultado final é um disco surpreendente, quer ao nível dos beats, das rimas ou da roupagem musical com que cada um dos temas se veste, seja para uma corrida à volta do quarteirão ou um jantar com a dama num restaurante 5 estrelas.

Aproveitámos a ocasião para uma troca de palavras com Sir Scratch, de quem estranhamente se encontra pouca coisa na auto-estrada virtual. Algo que muito provavelmente irá mudar nos próximos tempos, pois “Em Nosso Nome” é um disco que merece todas as honrarias. Tal como Scratch, que há já algum tempo foi nomeado “Sir” do Hip-Hop.

Sir Scratch | Entrevista “Em Nosso Nome”

Não há muita coisa sobre ti na Internet, a que se deve isso?

Penso que isso se deve ao facto de na altura em que lancei o meu primeiro disco estarmos na era pré-facebook. Vídeos passavam na MTV e ainda existiam vários meios de comunicação com informação e conteúdos de Hip-Hop, como a Revista Hip Hop Nation, a Freestyle, a Dance Club HipHop, programas de rádio específicos… ou seja, apesar dos blogs e etc., a necessidade de recorrer à internet para obter informação não era tão forte como hoje em dia.

Quem é que anda por aí de porta em porta a vender as bimbys do Hip-Hop?

(risos) De porta em porta acho que só mesmo a malta da ZON. Se existe alguém a impingir Hip-Hop formatado e pré-fabricado são mesmo os meios de comunicação em geral. Mas também se me perguntas se a culpa é deles… não sei se a resposta é assim tão fácil e simples de formular. Logo, a mim só me cabe dizer que existem os ditos falsos vendedores e promotores dum Hip-Hop que não aquele que represento, e fazer a minha parte enquanto amante da Cultura em si e enquanto rapper.

O Hip-Hop tornou-se uma moda? Quem fez dele uma palhaçada?

Essa minha frase sobre a “palhaçada” é obviamente uma afirmação sarcástica. Até porque eu sou uma pessoa que gosta de rir… A “palhaçada” a que me refiro é quando se chega a um ponto em que toda a gente é MC, toda a gente é DJ, toda a gente “dança hip-hop”, e depois no fim de contas quem realmente o faz na sua essência não recebe o devido louro ou reconhecimento. Não me importa muito a moda, nem as tendências… até porque tudo a dada altura, nem que por breves momentos chega a estar na moda e deixa de o estar, é algo cíclico. O meu problema mesmo é a educação e falta de conhecimento que deturpa e confunde quem está de fora.

Quais foram os teus discos de infância/adolescência?

Ui! (risos) Vou dizer os primeiros que me vierem a cabeça, ok? “Mamonas Assassinas” (Mamonas Assassinas), “Rapublica” (1994 V/A), Michael Jackson (discografia até “History”), Gabriel O Pensador (discografia até “Nádegas a Declarar”), Mind Da Gap (“Sem Cerimónias”), Sam The Kid (“entre(tanto)”), DJ Bomberjack (“Re-encontro do Vinil”) e Nirvana (“Nevermind”).

O que andas a ouvir hoje em dia?

Neste momento o que me acompanha no Blackberry é o novo disco do Kendrick Lamar (“MAAD CITY”), Joey Bada$$ (“1999”), Orelha Negra, Santigold (“Masters of My Make-Believe”) e António Zambujo (“Quinto”).

Como surge a tua ligação à música e ao Hip-Hop? Como descobriste a tua vocação?

A música vem dos meus Pais, em casa nunca havia silêncio. Música Africana, Brasileira e muita rádio!!! Quanto ao Hip-Hop foi dos irmãos mais velhos, gradualmente… primeiro através de videoclips e cassetes VHS e depois mesmo quando tinha por volta de 10 anos e me limitava a imitar e decorar tudo que fosse rap, funk da altura. Com a chegada do “Rapublica” em 94 fui fazendo os meus primeiros rabiscos literários (risos) e assim continuo. A parte da vocação ainda estou a descobrir… todos os dias.

Este é um disco que evoca de certa forma uma época áurea do Hip-Hop, desde o lado maroto e festivo dos Naughty By Nature ao lado mais visceral e político dos Public Enemy. Tratou-se de uma opção criativa natural ou por não te reveres no Hip-Hop que se faz nos dias de hoje?

Acho que tem mais a ver com a minha personalidade. Os Gémeos são mesmo assim, não conseguem ser sempre lineares nem abordar ou ver as coisas dum só ponto de vista. Mas se tivesse de escolher entre o rever-me ou não no Hip-Hop actual ou opção criativa natural, então diria ser uma opção criativa natural.

Sir Scratch | Entrevista “Em Nosso Nome”

O Hip-Hop tem necessariamente de ter um lado político e/ou interventivo?

Penso que sim. Aliás, no mínimo interventivo… foi assim e daí que ele nasceu. Acho que de uma forma ou de outra nunca se deve esquecer ou abandonar a essência das coisas.

O disco critica aqueles que só têm atitude quando sentados nos carros ou a assistir a jogos de futebol. Pensas que está na hora de cada um exercer a sua cidadania?

Acho que sim. Aliás, apesar de esse excerto ser retirado penso da parte do Sam no tema «Crise», o refrão do tema «medo» responde bem essa pergunta: “Cala o teu medo ou o medo fala por ti. Se tu gritas em segredo é difícil te ouvir. Anda tudo surdo e mudo ninguém quer reagir. É Um por todos… ou todos por cada… e cada um por si…” Simples.

Como vês este cenário de crise que de repente nos cercou?

Com um certo eufemismo… diria fusco. Está fusco isto.

Em nome de quem foi editado este disco? É para um público restrito ou está aberto a ser descoberto e amado sem restrições de raça ou credo?

Foi editado Em Nosso Nome! Eu sou a voz dos que me ouvem, dos que me percebem, dos que me apoiam e dos que me ignoram. Em Meu nome… em Nome Dele e em Teu Nome. Em Vosso Nome e Em Nosso Nome.

Nota-se nas letras de “Em Nosso Nome” algum desapontamento com o meio musical onde se insere o Hip-Hop, como se tivesses passado por algumas traições inesperadas. Sentes que tinhas algo a provar com este disco aos teus inimigos, como cantas a certa altura?

Se tinha, penso que não tenho mais. (risos) Estou obviamente a referir-me a trabalho… foram sete anos desde o “Cinema”… mas nestes sete anos não estive parado. Estive felizmente a tocar e a promover o primeiro disco, entretanto estive a trabalhar e a tocar com o Bob da Rage Sense, lancei uma mixtape pelo meio… e cá estou de volta, como se nunca tivesse ido embora sequer… estou cá. No presente e no futuro.

Como surgiram as colaborações do disco? Já os conhecias a todos ou convidaste-os porque se ajustavam às ideias que tinhas para os temas?

Foi tudo gradual e natural. Qualquer participação ou colaboração que faço surge no processo de composição e estrutura de cada tema… conforme vou pensando em vozes, nuances, tons, sons… vou tendo ideias. O caso do Tim, do Noiserv… até do Carlos Barroca! Foram pessoas que abordei após ter uma ideia base… e felizmente e com grande abertura aceitaram o convite e desafio.

Sir Scratch | Entrevista “Em Nosso Nome”

Há já concertos em agenda? E como vai ser em palco, quem vai estar presente?

Ainda está a ser cozinhado… mas penso que em Dezembro/Janeiro farei as primeiras apresentações ao vivo deste disco. Primeiramente será o formato do costume, DJ/MC. Para concertos posteriores estamos a cozinhar um formato maior e novo.

Portugal trata mal dos seus subúrbios? Estaremos a criar países dentro de países devido à indiferença?

(Ui) Essa pergunta dava para a entrevista toda. Aliás, a resposta dava um bom debate. Não gosto muito de me envolver na política. Mas estou certo que dá para argumentar esse assunto com um sim e com um não, de ambas formas com pontos válidos e credíveis. A questão da segregação, separação e desigualdade viveu-se, vive-se e viver-se-á sempre, não só em Portugal, não só na Europa, mas em várias sociedades do mundo actual.

Como foram estes sete anos desde a gravação do primeiro disco?

Foram mais! (risos) Mas foram graduais e introspectivos… fui absorvendo tudo à minha volta, registando algumas coisas. Peguei nisso tudo… nos últimos dois anos, e deu neste disco.

Como funciona o teu processo criativo, de onde surgem as rimas e os beats?

Não tenho propriamente uma regra de processo… algumas letras surgem de pequenos pensamentos ou momentos que tenho e aponto e guardo no telemóvel para mais tarde talvez desenvolver. Ultimamente surge com a junção disso a uma base instrumental que acho que expressa esse pensamento ou sentimento. É daí que pego nas duas coisas e vou desenvolvendo a composição do tema… verbal, sonora, etc.

Sir Scratch é um alter-ego ou trata-se da mesma pessoa que tem cartão de cidadão, vai às compras e usa um outro nome?

Sou o mesmo em todo lado… acho que sou um “alter-ego” de mim mesmo em todas as músicas… mas todos são parte de mim. Nunca chego a não ser eu. O gajo que está sempre no Pingo Doce é o Sir Scratch (risos).



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